O centro da cidade ainda canta, por Danilo Ramalho

Quem olha para Jairo Castelo Branco, suspeita que ele tenha ficado em algum lugar do passado. Quem conversa com o professor, no entanto, fica certo disso. No bom sentido do termo, “ficar no passado” significa revisitar um tempo em que a cultura – com destaque para a música – tinha seu lugar na sociedade.

Professor Jairo ou “seu” Jairo, como todos o chamam, é um senhor com seus mais de 70 anos – ele nunca revela a idade correta, tendo rasurado, inclusive seu RG – que vive da música, mais precisamente da arte do canto. E não é um canto qualquer, é o Bel Canto, escola erudita surgida na Europa do Século XVII, onde são forjados, desde então, os cantores de ópera. É este estilo que o velho piano de uma das salas de aula da Escola de Música Luiz Assunção assegura exercícios aos alunos, às segundas, quartas, sextas-feiras e sábados, sob a batuta do professor Jairo.

“Respirou bem, cantou bem” é uma espécie de slogan da escola e regra de conduta para todos que se atrevem a entrar neste exigente círculo musical. As cobranças de afinação, potência, modulação, vibratos e extensão vocal são uma constante durante os encontros. Quem persevera – e não são muitos! – acaba por sair com um vozeirão de dar inveja aos programas de calouros mais conhecidos, além de levar também muita filosofia popular engraçadíssimas, criações do velho mestre.

A escola é uma fonte de história, bastando entrar e percorrer seu assoalho de madeira, teto inimaginavelmente alto, com suas portas e janelas idem e colunas espessas que não se vêem na construção moderna. A arquitetura da fachada, que se perdeu nos tempos românticos da Bella Èpoque, faz frente ao Parque das Crianças e aos inúmeros vendedores ambulantes que cobrem a calçada do prédio. Quem olha do outro lado da Rua Sólon Pinheiro, 60, ainda consegue ver beleza, apesar do tempo, do sol e da chuva recebidos nos últimos dois séculos. Sim, a construção, que um dia foi residência de alguma família abastada, é de 1875.

Em meio ao barulhento e muitas vezes sufocante centro comercial de Fortaleza, a Escola e seu professor – que acumula a presidência da Sociedade Musical Henrique Jorge – tornam-se diferenciais para quem deseja conhecer música, do popular ao lírico. Este acúmulo de histórias e recordações já envolveu outras personalidades da sociedade cearense, como o ex-governador Paulo Sarasate (que adquiriu e doou o prédio à Sociedade) e os maestros Mozart Brandão e Orlando Leite, além do próprio pianista que dá nome à escola, o velho Luiz Assunção, maranhense de nascimento, mas cearense por adoção, grande amigo de boêmia do professor Jairo.

E, finalmente, tudo acontece e se mantém única e exclusivamente pela insistência e persistência do velho Jairo: “Meu pai me dizia: ‘meu filho, você está ficando louco, largando a carreira de contador por esse negócio de música’”. E assim é, a doce loucura dos artistas de outrora que deseja prestar um serviço por amor à arte, cobrando, como gosta de dizer, “os valores mais baixos para uma escola de música de todo Ceará”. E são mesmo!

Serviço: 3252 5282

Fonte de pesquisa: http://www.opovo.com.br/app/opovo/vidaearte/2015/03/16/noticiasjornalvidaearte,3407368/predio-da-escola-de-musica-luiz-assuncao-sera-tombado-pela-prefeitura.shtml

Danilo Ramalho

Danilo Ramalho

Jornalista, Consultor e Professor na Academia da Palavra

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