O buraco nosso de cada dia – Parte 4 – JANA

Tchau, caros buracos nossos de cada dia, de cada rua, de cada avenida municipal, de cada estrada vicinal, estadual ou federal. Tchau, caros. Caríssimos, aliás. Sim, até breve, porque não se pode dizer adeus a buracos. Eles vão, mas voltam. Partem silenciosamente, tão logo se juntam e se entendem governadores, prefeitos, empreiteiros e engenheiros, tão logo se firmam os contratos de reparos de tantos quilômetros de extensão e de tantos milhões de valor – não, os contratos não indicam o número de buracos, seu tamanho, seu desenho, sua profundidade, sua localização, sua idade e sua genealogia.

Em poucas horas de trabalho, eles desaparecem. Caminhões despejam areia e pedriscos para fechar as covas, a motoniveladora (ou trator) passa duas ou três vezes por cima, joga-se e espalha-se o betume asfáltico e outra vez a máquina faz o alinhamento final. Pronto, o buraco está fechado. O ciclo se fecha. Cidadãos de todo tipo são lembrados de que há um prefeito ou um governador. Ignoram a empreiteira – a obra de reparo é tão rápida e sutil que não comporta placas. Neste caso dos buracos, registre-se, o gestor público costuma preferir a discrição, o que também convém à empreiteira. A população fica feliz e agradecida e tenta se acostumar a dirigir normalmente.

Bem, pelo menos até começarem as próximas chuvas, os inevitáveis raios solares e rolarem os carros e caminhões pesados. Eles, os buraquinhos, ressurgem quase sempre e quase exatamente nos mesmos lugares, como se estivessem lutando para manter uma tradição, uma institucionalidade, um território ou uma transação onde todos (ou quase todos) ganham.  É uma inevitabilidade científico-tecnológica que os buracos voltarão, se espalharão e crescerão. É incontrolável o resultado de uma obra que fica sujeita a sol e chuva, sem falar que sobre o asfalto passam carros e caminhões.

No futuro, pode-se pensar em estradas de ferro ou de aço, quem sabe até de concreto armado. Ou talvez se deva exigir que no período de chuvas, os carros andem mais devagar, quem sabe em rodízio, possivelmente com apenas uma pessoa e limites máximos de peso. Para evitar prejuízos ao erário, pode-se elaborar um estudo para contratar apólices de seguro para a integridade vital do asfalto.  E uma tarifa especial eventualmente será cobrada dos caminhões e caminhonetes.

Alternativamente, educa-se a população. Faz-se a revolução cultural dos buracos. Os meios de comunicação, as escolas, os intelectuais, artistas e políticos seriam convidados a liderar uma mudança de consciência que integre o buraco à vida em sociedade.

Até breve, amigos e irmãos buracos nossos de cada dia.

Jana

Jana

Janete Nassi Freitas, nascida em 1966, fez curso superior de Comunicação, é expert em Administração, trabalhou como executiva de vendas e agora faz consultoria para pequenas e médias empresas, teve atuação em grêmios escolares quando jovem, é avessa a redes sociais embora use a internet, é sobrinha e neta de dois vereadores, mas jamais engajou-se ou sequer chegou a filiar-se a um partido, mas diz adorar um bom debate político. Declara-se uma pessoa “de centro”. Nunca exerceu qualquer função em jornalismo, não tem o diploma nem o registro profissional. Assina todos os textos e inserções na internet como “Jana”.

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