O BRADO RETUMBANTE DE UM POVO HEROICO – Parte II¹, por Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

– QUE BRASIL VOCÊ QUER PARA O FUTURO?

Alguns entre milhões de uns(áudio e vídeo): Queremos que os políticos deixem de ser corruptos… que não haja mais corrupção… que se acabem os desvios de verbas… que sejam retomadas as obras públicas abandonadas por conta da corrupção… que todos os corruptos sejam presos e devolvam o que roubaram da nação… que se encontrem meios para reduzir a violência urbana e acabar de vez a corrupção… que os políticos brasileiros tomem vergonha na cara e deixem de querer levar vantagem em tudo… que a corrupção não mais campeie em solo brasileiro… que o eleitor seja consciente na hora de votar… que o brasileiro aprenda a votar e se responsabilize por seus atos… que os eleitos não sobreponham os seus interesses pessoais aos da coletividade que representa… que se produza óleo de peroba em abundância, em quantidade capaz de bem lustrar os caras de pau da insaciável ganância… que… que…

JTI1: Alvíssaras, amigo! Alvíssaras! Você, meu bom velhinho, filho honorável desta secular serra, aprazível e de encantos mil, não veja isto como afronta, desdém ou desacato, mas você e suas ideias mirabolantes e rocambolescas me fazem lembrar a assembleia dos ratos. Tanto é que logo me inquieta a questão basilar, fundamental, de fato: e quem vai pôr o guiso no pescoço do gato? Sim, porque tem de surgir alguém bastante corajoso, intrépido e intimorato para dar ao seu projeto de refundação do Brasil a devida valia, pois sem a prática, para nada servirá a teoria… O que acham vocês, camaradas meus?

JTI5: É. No cenário político atual, não vejo quem demonstre ter tamanho cabedal.

JTI3: Jair Bolsonaro?! Me parece um tanto, salvo melhor juízo, datíssima vênia, um tanto ignaro… Falta-lhe tutano, maior preparo!

JTI4: Alguém do PT?! Companheiros, decerto é recomendável até a gente esquecer…

JTI2: Alckmin?! Deus meu! E até a pátria ressabiada dirá: Ai de mim!

JTI1: Ciro?! Sinceramente não creio. Embora seja ele quem até admiro.

Enquanto os jovens da terceira idade se envolviam em acaloradas discussões sobre os perfis dos principais presidenciáveis e a possibilidade de mudanças no modelo de governança da coisa pública, ora pejado de desvirtuamentos que põem em risco até a soberania pátria, em face de muitos e ora indisfarçáveis interesses mefistofélicos, cujos esquemas nos induzem a descrer que Deus seja mesmo conterrâneo nosso e, no caso de ainda ser, dá-nos a entender, pelo que tem revelado, estar extremamente decepcionado com esta raça – hipócrita, insensata, ingrata – que habita imerecidamente o éden terreal subequatorial –, parecendo até praticar o gesto aprendido com Pôncio, o do Credo, higiênico e de profundo simbolismo, o bíblico “lavar as mãos”, fato que o chifrudo e rabudo senhor das trevas, às gargalhadas diabólicas e às piruetas demoníacas, comemora com um “Explodam-se!” (Perscrutantes leitoras e leitores, o verbo é bem outro, é sim!, mas de todo impublicável, enfim!), o Velhinho de Baturité afasta-se sorrateiramente, atende calmamente o celular e, com conhecimento de causa – ou de técnica –, supervisiona todo o trabalho de montagem e arrumação de uma rica e sortida mesa de café da manhã: jarras com sucos de laranja, maracujá e caju; garrafas térmicas com leite quente (a branca de tampa transparente) e café de apurado sabor (a preta com tampa de igual cor); bandejas com mamão em fatias e grandes nacos de melancia; com bolachas doces e salgadas, com pãezinhos e tapioquinhas e fatias de pão de milho e torradas; pequenos vasilhames com nata e margarina; e copos e xícaras e talheres; tudo bem distribuído sobre limpíssima toalha branca e fina.

Com a mesa ao melhor jeito, o convite é feito:

VB: Jovens, saciemos quem ora tanto nos maltrata, essa ingrata cujo nome…

Todos: É fome!

Finda a descontração do “coffee break”, também conhecido, em linguagem pátria, como “pausa para o café” – quando as conversas se revestem de trivialidade –, rapidamente tudo foi recolhido pela eficiente equipe contratada pelo VB – mulher e marido, donos do bar e lanchonete que cederam as cadeiras para aquele especial encontro dos jovens da terceira idade. Agora, de estômagos saciados e corações abrandados, eles retornam aos seus lugares de antes, dispostos a mais ouvir que falar, uma recomendável técnica de aprendizagem e de formação pessoal.

Chamando para si a atenção de todos, o Velhinho de Baturité retoma o comando da conversa:

– Para a elaboração do nosso projeto de refundação da República do Brasil, ó jovens e respeitáveis criaturas, cuidamos de, tão logo se definiram as funções de comando e os respectivos líderes, estabelecer o objetivo principal dos nossos trabalhos. Num rápido “brainstorming”, também conhecido como “toró de pitacos” ou de palpites, saltou-nos aos olhos a causa primária de todas as mazelas que ora afligem o povo brasileiro, que nos afligem, portanto. A desigualdade social é, sim, a mãe de todas as nossas amarguras e apreensões e aflições. E, à medida que se aprofunda e se alarga o fosso entre a elite, que só a benefícios e privilégios jus faz, e a plebe, que só se frustra por não poder viver bem e em paz [com a classe média de permeio, a quem cabe sempre pagar a conta, sem quaisquer retornos jamais] –, com grande parte da culpa recaindo sobre os nossos lídimos representantes e suas sempre criticáveis políticas públicas –, mais se agudizam os graves problemas sociais, mais se esgarça o já puído e tenso tecido social; e, surge, então, o espaço ideal para o fortalecimento e a proliferação de seriíssimos desvios de conduta, entre os quais se destacam a corrupção e a violência.

“Pronto. A redução da desigualdade social tem de ser, necessariamente, a prioridade, o foco, o objetivo de todo e qualquer projeto que vise a retirar o país da situação caótica em que se encontra; e, se assim não for, tudo restará sendo apenas um paliativo, um remendo, um mero ‘me engana que eu gosto’. E o “modus operandi” para que se busque firmemente esse desiderato, ó atenciosos jovens!, impõe-nos a urgente construção de um novo modelo de gestão pública – mais ágil, mais transparente, mais compromissado com a plebe rude e ignara.

“Admitimos, então, que a Nação vive, senhores, um drama que não reclama apenas a mudança de elenco, de atores e atrizes, de produtores e diretores, mas essencialmente de enredo, de roteiro, de script. Ou se faz uma mudança radical, navalha na carne, ou… difícil é prever o que pode acontecer. Há, pois, que se redesenhar toda a estrutura de poder, antes que se encaminhem quaisquer reformas pontuais. Há que se repensar o papel atribuído a cada um de nós: de que forma concorremos para que o caos se estabeleça e como podemos agir para que todo o processo se reverta. Há que se refundar a República, sim!”.

“Era como se tudo dependesse de mim e de minha geração; da nossa maneira de resolver questões seculares.”²

VB: No curso do enclausuramento, em que procedemos a leituras, consultas e pesquisas de toda ordem, discutimos à exaustão todas as propostas submetidas à análise criteriosa e avaliação crítica do grupo. Concluída a árdua tarefa a que nos propusemos desincumbir-nos, atribuímos ao produto final o título de Projeto Brasil Que Todos Queremos, de cujas linhas gerais posso agora dar-lhes conhecimento do seguinte, apenas:

“Aplica-se à gestão da ‘res publica’, ou seja, da ‘coisa do povo’, uma boa dosagem de gestão empresarial, mormente no que se refere a planejamento; a estabelecimento, revisão e cumprimento de metas; a transparência; a investimento; a retorno de recursos aplicados; a reconhecimento de méritos; a punição por ineficiência ou pelo cometimento de atos desabonadores; e, principalmente, ao atingimento da satisfação e bem-estar da clientela – no caso, o povo: de quem emana o poder.

“Cria-se, no topo do Poder Executivo, o Conselho Administrativo, composto da Presidência e cinco Vice-Presidências, com ocupantes eleitos em votação popular, para mandato de quatro anos, afastada a hipótese de reeleição, exigindo-se dos respectivos postulantes o oferecimento de programas de governo direcionados para cada área de atuação a que concorram, quais sejam: 1) Administração Pública, incluindo relações exteriores – a Presidência da República; 2) Economia – orçamento, planejamento, arrecadação, gastos públicos, endividamento, controle da inflação, supervisão e fiscalização dos mercados, gestão centralizada de pessoal; 3) Formação Humana – educação, cultura e esportes (com a perspectiva de estatização de todos os entes que cuidam das várias modalidades esportivas, incluindo o futebol); 4)Bem-estar Social – saúde, seguridade e previdência social); 5) Produção – agricultura, agronegócio, inovação tecnológica, indústria, comércio, importação e exportação; transporte; 6) Segurança Nacional – forças armadas, polícias militares e todos os entes públicos responsáveis pelo combate a todo e qualquer tipo de tráfico e violência urbana. Cada Vice-Presidência agirá por meio de Secretarias específicas, com titulares indicados pelos quadros funcionais de cada segmento.

“Extinguem-se todos os atuais partidos políticos, restringindo a no máximo três – esquerda, direita e centro – a totalidade de novas agremiações políticas, com orçamento próprio. Assim, eliminam-se o Fundo Partidário e o financiamento público de campanhas eleitorais. O exercício da função pública é, na essência, um dever do cidadão e não uma porta aberta para o enriquecimento ilícito.

“Substitui-se o sistema bicameral do Poder Legislativo pelo unicameral, passando o Congresso Nacional a ser uma única Casa de produção legislativa, limitando-se a duas centenas o número de congressistas que não mais farão jus a emendas parlamentares e a privilégios de qualquer natureza; a remuneração se fará, única e exclusivamente, sob a rubrica “subsídio”, definido pelo órgão de gestão do servidor público federal, cujo conceito abrangerá todo e qualquer cidadão que prestar serviços à Nação, sob contrato específico e mediante a contraprestação pecuniária continuada e de responsabilidade exclusiva do Estado.

“Veda-se, no âmbito federal, toda e qualquer indicação política. Todos os cargos públicos serão ocupados ou por votação popular ou por mérito, incluindo concursos de provas e títulos.

“Instituem-se sistemas eletrônicos capazes de monitorar mandatos, projetos, processos, contratos, negócios. Um país que consegue declarar eleito um presidente da República em apenas duas horas após a conclusão do respectivo processo eleitoral deve ser capaz de implementar instrumentos de controle produzidos pela engenharia eletrônica, de tal forma que possibilite ao cidadão comum, ao contribuinte, ao eleitor a participação efetiva nos atos públicos, seja fiscalizando, seja denunciando, seja propondo correções de rumo.

“Elege-se o voto popular – através de referendos ou plebiscitos – como único instrumento a legitimar emendas à Constituição Federal.

“Alteram-se os critérios de indicação de membros do Superior Tribunal Federal, agora não mais de escolha exclusiva e pessoal do presidente da República, mas colegiada do Conselho Administrativo e do presidente do Congresso Nacional. Acaba-se o exercício vitalício do cargo e cria-se o mandato de quatro anos.

“Institui-se a dupla jurisdição – uma ação julgada por um juiz terá apenas uma instância de reformulação, no nível de desembargador, por exemplo. Os tribunais superiores, a rigor, cuidariam mais da “inteligência jurisprudencial” ou interpretação dos postulados jurídicos em face de casos concretos. Caberia a eles a função recursal apenas em casos envolvendo a administração pública.

“Senhores, nada mais digo porque nada mais posso dizer. Convém lembrar que o projeto, submetido à decisão divina, na forma a nós imposta, só será revelado integralmente em caso de aprovação. Do contrário, tudo não terá passado de um sonho.

“Ao jovem que aqui citou a ‘Assembleia dos ratos’, fábula de Esopo, cuja moral assinala que ‘Um bom plano sem a respectiva ação vale tanto quanto uma grotesca ilusão’, convindo ressaltar haver a versão em literatura nacional, assinada por Monteiro Lobato, com moral que encerra uma indiscutível verdade, ou seja, ‘Dizer é fácil; fazer é que são elas!’, peço apenas que reflita, ou melhor, reflitamos com Nelson Mandela, Nobel da Paz, e uma de suas sentenças marmóreas: ‘Sempre parece impossível, até que seja feito’. E, como reforço disso tudo, valho-me de frase, sem indicação autoral, que um dia desses li em quadro exposto em ambiente de grande movimentação: ‘Se a estrada não te oferece obstáculos, certamente ela não te levará a lugar nenhum’.

“É isso, amigos. Dou-me por satisfeito. A utopia de que se reveste tudo que aqui expus permitiram-me senti-la os deuses gregos Hipnos, do sono, e Morfeu, seu filho, dos sonhos. E eu a sinto como algo que não existe no agora, mas que pode ser construído no futuro. Depende apenas de nós. Lembrando, por último, que sonhar ainda não paga imposto. Tenho dito.”

Aplausos. Abraços. E nada mais foi esclarecido porque nada mais foi questionado.

Um dia, quem sabe, esses devaneios alcancem o mundo real… quem viver até lá… verá. Queira Deus, também eu!

“Assim é – respondeu Dom Quixote -, e não há que fazer caso destas cousas de encantamentos, nem há por que tomar raivas nem enfados com elas, que, por serem invisíveis e fantásticas, não nos deixam ver de quem vingar-nos, por mais que o procuremos. Levanta-te, Sancho, se podes; chama o alcaide desta fortaleza, e faz que me tragam um pouco de azeite, vinho, sal e rosmaninho, para o salutífero bálsamo, que em verdade me está parecendo que bem necessário me é agora, porque me corre muito sangue da ferida que me fez o fantasma.”³

Notas do autor:

¹ Texto produzido no início das férias escolares do meio do fluente ano, cuja Parte I o Segunda Opinião publicou no primeiro sábado de julho (dia 7). Por ato falho de exclusiva responsabilidade minha, esta Parte II deixou de ser enviada ao editor do referido jornal eletrônico. Tal fato só percebi agora, quando ultimo os necessários ajustes do que um dia poderá ser a versão 2 do EU E O SEGUNDA OPINIÃO (mais um projeto de livro de autoria deste – às vezes insensato – escrevinhador). Para corrigir tão imperdoável falha, dou-lhe agora o tratamento que deveria ter-lhe dispensado na segunda semana de julho. Peço desculpas a todos.

² Gilberto Freire, em CASA GRANDE & SENZALA.

³ Miguel de Cervantes Saavedra, em DOM QUIXOTE DE LA MANCHA; tradução de Viscondes de Castilho e Azevedo. – Porto Alegre: L&PM, 2010; pág. 138).

Luciano Moreira

Luciano Moreira

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

Mais do autor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *