O Banco Central (não) pode piscar – Parte 2

Há mais ou menos duas décadas, o governo adotou o sistema de Metas de Inflação. O Comitê de Política Monetária – Copom, composto pelo presidente e pelos diretores do Banco Central, fixa a meta da taxa de inflação para os dois anos seguintes com uma margem para mais e para menos, um teto e um piso. O mesmo Copom-BC estabelece em reunião realizada a cada 45 dias (portanto, oito vezes por ano) a manutenção ou variação da taxa Selic, que remunera os aplicadores em títulos do Tesouro (que compõem a dívida pública interna), hoje em dois por cento ano ano. O centro da meta de inflação, salvo engano, é 4,25 por cento ao ano, com tolerância para um piso de 3 e um teto de 6, ou algo muito próximo. Quando a inflação fica fora desses limites (acima do teto ou abaixo do piso), o presidente do Banco Central vai ao Senado para explicar-se e justificar-se, além de dizer o que vai fazer para corrigir o rumo. Assim, o BC é responsável por vários dos elementos que definem a gestão da dívida pública, embora (como em boa hora alertou-me um atento leitor) o gestor da dívida pública seja a Secretaria do Tesouro Nacional, abrigada no superministério da Economia, do superministro Paulo Guedes, que não planeja nada, mas dá palestras e entrevistas muito animadas e tem uma relação muito especial com seu chefe, o presidente da República.

Na semana passada, na quinta-feira, o economista Alexandre Schwartzman (que já foi diretor do BC), numa rádio, disse que o governo já estava colocando títulos da dívida a um custo anual de oito por cento. Ora, se a taxa Selic atual é dois por cento, por que razão alguém faria algo tão violento (pular de dois para oito por cento) não se sabe. E não custa lembrar que o ministro, o presidente e o governo batem bumbo na imprensa para comemorar a taxa de juros dos títulos mais baixa da história. Esta semana já se pode ler que negócios com títulos públicos estão sendo feitos com deságio de 7,47% ao ano. É uma desproporção e uma mudança radical.

Também se pode ler que o prazo médio de vencimento dos títulos caiu e que no quadrimestre até abril de 2021 haverá vencimentos superiores a seiscentos bilhões. Também se pode ler que nos últimos trinta dias o saldo da dívida alcançou 4,5 trilhões de reais e o custo em trinta dias passou de dois e meio por cento. Não é pouca coisa, se considerarmos que no mundo inteiro, antes e depois da pandemia, o custo de financiar a dívida nos países sérios está colado em zero. Sim, zero por cento ao ano.

Isso nem poderia, nem deveria estar acontecendo. Parece barbeiragem, mas há chance de ser coisa pior. Parece que o Banco Central e a Secretaria do Tesouro Nacional estão piscando. Muito. Demais, salvo melhor juízo.

Neste momento diz na televisão estrangeira o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga: “…neste momento o desastre total é uma possibilidade bem real”.

No faroeste do cinema americano, quando, em duelo, um pistoleiro pisca, morre.

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

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