Nobreza de Alma, a Mãe. Por LUANA MONTEIRO

A Mãe é a inegável fonte de vida. Um bebê não sobreviveria sozinho sem os cuidados essenciais de sua criadora nos seus primeiros anos. Até que a autonomia esteja completamente desenvolvida, a figura materna age em prol da manutenção daquela vida. No período de gestação a mulher tem o dom de permitir o desenvolvimento da semente que se abriga no seu interior.

De forma tão inteligente e apta, a natureza transforma duas simples células em um organismo complexo. A composição inicial no corpo da criadora é de engendramento do ânimo da vida e sua manutenção. Mesmo depois do nascimento – quando o seu corpo e o de seu rebento já não são um só –, ela ainda possui o grandioso poder de sustentar através do aleitamento.

Os ciclos biológicos do corpo, além de incríveis, cientificamente falando, são mágicos. E geram em nós curiosidades sobre esse vínculo tão intrínseco que possui a mulher com a vida. Surgem, então, diversas narrativas na tentativa de explicar a nobre tarefa atribuída pela natureza ao feminino1.

As histórias mais encantadoras e que buscam desvendar a natureza arquetípica dos seres passam também lições sobre o avivamento da mulher para a Mãe. É como uma outra habilidade ou sentido que manifesta-se no corpo e procura um lugar cômodo para se instalar. Uma vez que o instinto maternal foi originado, aquela conformação feminina antiga nunca mais será a mesma. A transformação da mulher para a Mãe é tarefa tão vital quanto árdua, pois em sua versão renascida ela passará a carregar consigo o segredo da fonte da vida.

Clarisse Estés (2001), psicanalista junguiana, nos apresenta a figura da Mãe como a sábia. Aquela que ouviu seus instintos e é capaz de ensinar seus descendentes a também apreender o conhecimento sobre o que é bom e o que traz danos. A consciência da realidade vivida se assemelha a um despertar onde o iniciado se permite ouvir e expressar a sábia/o sábio que habita em seu interior.

Obter discernimento, porém, não é tarefa fácil e exige de nós que escutemos nossas intuições e nossos ancestrais, aqueles que representam conhecimento de mundo e sabedoria. “No começo de nossa vida, nosso ponto de vista feminino é muito ingênuo, quer dizer, nossa compreensão emocional do oculto é muito fraca. Mas é aí onde todas começamos como fêmeas”. (ESTÉS, 2001, p. 56).

Os ensinamentos devem vir daqueles que são mais experientes, assim vemos na história da Mãe loba. “[Entre os lobos] a mãe sabe que suas crias ainda não conseguem avaliar e pesar outras criaturas. Ignoram quem é o predador e quem não o é. Mas no seu devido tempo, para o bem ou para o mal, ela os ensinará”. (ESTÉS, 2001, p. 56). Abre-se, assim, o caminho da iniciação.

Também em outras histórias a Mãe possui o poder simbólico de dar vida, nutrir e ensinar.

Em uma recente releitura do cinema, “Suspíria – a dança do medo” (2019)2, vemos de forma intrigante o desenvolvimento da figura materna. Logo no início nos deparamos com um quadro dependurado na parede com a seguinte frase: “Uma mãe é aquela que pode tomar o lugar de todos, mas cujo lugar ninguém pode tomar”. A frase tem o papel de abrir caminho para a narrativa que abordará uma mitologia sobre a Mãe que existe antes de todas as outras divindades e tem o conhecimento sobre o mundo.

O papel da Mãe, no entanto, foi usurpado, até que a escolhida assuma o verdadeiro lugar e restabeleça sua ordem em um mundo que teve que esperar tanto tempo por ela. Mas não é através do bem-estar que a Mãe trará seus ensinamentos, porque todo mal deve ser recordado. Todas aquelas que acreditam na figura da Mãe esperam seu retorno para organizar o caos instaurado. Sua presença determina não só o que deve ganhar vida, mas o que deve deixar de existir.

Mais uma vez a ideia da natureza selvagem retorna com o discernimento daqueles que merecem viver dos que não são merecedores da dádiva da existência. Assim como uma mestre que ensina, a Mãe mostra os caminhos que devem ser trilhados e aqueles que precisam ser evitados. Da mesma forma que prepara sua cria para a independência no mundo, ela alerta para a natureza obscura que também o permeia.

A Mãe decide o que deve ser dado e o que não tem serventia para sua criação. A “Mãe Suspirioum” representa a chegada do discernimento e do juízo, é ela quem abriga a consciência do mundo.

Naomi Alderman, no livro “O Poder”, um romance distópico, trata sobre uma estranha característica que as mulheres passam a desenvolver. Mais especificamente as meninas entre treze e quinze anos. O poder que elas desenvolvem é cientificamente explicado por uma alteração genética causada pela poluição, mas a historiografia que permeia o livro revela-nos um novo misticismo.

“A Deus ou Deusa” passa a agir na terra para corrigir erros vividos pela humanidade. As mulheres recebem a mensagem de que tudo aquilo que, na sociedade onde a força masculina imperava, era negado a elas deveria ser exaltado. “A mãe Maria” ganha, no reexame das escrituras sagradas, significação nova. Maria passa a ser vista como a criadora, pois seu papel enquanto humana foi de provisão da vida. “É a Mãe, e não o filho, a emissária dos Céus. […] Deus Mãe veio à terra no corpo de Maria, que nos deu seu filho para que vivêssemos livres de pecado. Deus sempre disse que ela voltaria à terra. E ela volta agora para nos ensinar seus caminhos”. (Alderman, 2018).

O feminino passa a imperar. A mensagem, o poder dado às mulheres, é o aviso de que um nova era deve comandar o mundo, a era das mulheres. A figura materna é simbolizada como aquela que veio providenciar transformações para seus filhos, a humanidade.

Através de conhecimento científico ou de ficção, buscamos enquanto sociedade desvendar a natureza mística da Mãe. Seu potencial criador e formador, a simbiose formada com suas crias e a difícil tarefa de prepará-las para o mundo, todas essas etapas, fazem parte da mágica da gênese.

As Mães são nossas guardiãs da criação, pois possuem a difícil tarefa de ensinar sobre morte e vida, sobre quando ficar e quando partir. “[…] quando a mãe loba amamenta seus lobinhos, tanto ela como sua prole passam muito tempo preguiçando […] o mundo exterior e o mundo dos desafios estão muito distantes. Porém, quando a mãe loba ensina finalmente seus pequenos lobos a caçar e rondar, geralmente mostra-lhes os dentes, os mordisca, exige-lhes que eles acordem e os empurra se eles não fizerem o que ela lhes pede”. (Estès, 2001, 92 e 93).

1 Biologicamente a mulher é a única apta ao trabalho de maternagem, mas a diversidade das vivencias humanas nos possibilita pensar e agir em prol de diferentes tipos de maternidade.

2 Dirigido por Luca Guadadino.

Luana Monteiro

Luana Monteiro

Cientista social, mestre em Sociologia (UECE) e pesquisadora.

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