No Mercado das Artes

Começo de tarde. Fim do horário do almoço. O cheiro de café no bule se espalha. Olho ao redor. Me sinto como os intelectuais que compartilham os mesmos espaços que aqueles indivíduos que dedicavam suas vidas à arte. Suspiro em pensamento. Tudo parece tão espiritual; o tempo parece lento e respeitoso àquele ambiente de criação. Até o sol se fazia mais ameno para não ser incômodo, e sim inspiração. 

Peço um café. Sinto a necessidade ao mesmo tempo de um energético e um digestivo – ‘’sem açúcar, por favor’’. 

Levanto-me e ando. Me pego admirando fotografias na parede. Uma exposição contemporânea. Questiono as motivações daqueles cliques. 

Ao andar um pouco mais vislumbro, ao pé da escada, um velho conhecido de vista, pai de um amigo que tive na adolescência. Penso em sua banquinha de cordéis; penso em me aproximar; penso em dizer que por todo esse tempo eu fui o motivo da sua coleção de José de Alencar estar desfalcada. Seu filho havia me emprestado “O Guarani”. Desde então ele nunca mais retornara àquela estante. 

Não me aproximo e tento ainda afastar qualquer autojulgamento. Vou em direção a Patativa. Ele ainda se encontra lá, recepcionando os indivíduos que escolhem a lateral do recinto como entrada. Cumprimento-o e sigo em direção à feirinha. 

Em meio a um mundo de coisas idênticas e produzidas por máquinas, me vejo rodeada pela beleza sublime dos produtos artesanais. O couro é a matéria prima que mais chama minha atenção. Me deixo levar em pensamento à exposição do vaqueiro, às marcas que caracterizam o nosso sertão e à poética de vida dos sujeitos que se dedicam ao cuidado da terra e à criação de animais. O couro simboliza o lugar de onde eu vim, minha origem e minhas raízes. 

Na sala de cinema, vejo Julieta,  de Pedro Almodóvar. Mergulho também na solidão e na espera da personagem Julieta. Aquele cinema consegue me fazer guardar as melhores lembranças cinematográficas. Sou apaixonada pelas salas pequenas, o cinema autônomo, sem precisar estar dentro de um shopping para existir,  e os filmes fora do circuito da chamada cultura pop. Sinto-me verdadeiramente em uma sala de cinema. Cultivo nesse ponto uma certa nostalgia.

Termino o passeio também com um café, vislumbro o fim da tarde. Poderia continuar esse mergulho nas lembranças do Dragão do Mar, mas agora vou retornar à exposição de Chico Albuquerque. Talvez a gente se encontre por lá.

   

  

Luana Monteiro

Luana Monteiro

Cientista social, mestre em Sociologia (UECE) e pesquisadora.

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