NESTES TEMPOS FATAIS DE GUERRILHA JURÍDICA O CRIME ESTÁ PRECISAMENTE EM QUEM ENXERGA A VERDADE

Fala-se em “fake news”, “post truth”, “fake writing” quando se quer identificar a mentira política ou a manipulação dos fatos e da opinião.

A mentira politica — “political fake” — tornou-se, no mundo moderno, arma poderosa a serviço dos governantes e dos que aspiram o poder.

A mídia tradicional, na qual se associam o espírito empresarial capitalista e a militância astuciosa de cruzados e falanges totalitárias, estremeceu com os avanços táticos da mídia nanica, as redes sociais, blogs, sites e links.

De porte reduzido, tamanho “pocket”, de baixo custo operacional, esse tipo de mídia corresponde aos jornais de antanho, de características artesanais, de um dono só, com tipos móveis e uma tipografia franciscana na qual redatores, articulistas e repórteres confundiam-me em uma única e nesma pessoa — o diretor.

Hoje, o blogueiro é um faz-tudo. Opina sobre tudo e mais alguma coisa, revela guardados convenientes e inconvenientes omitidos pela mídia, contesta o poder dos canais de tevê e mostra a sua fragilidade.

Como o arquétipo que lhe serviu de modelo — os grandes jornais, rádios e tevês — os sites não inovaram no tratamento dos fatos e das versões dos fatos. E seguiram o mesmo caminho onde todos vão beber água, o alento que permite cobrir os seus custos operacionais e alguns benefícios que, até mesmo a mídia, não se dispõe deles abrir mão.

Pois agora, com tantas leis e correições monocráticas de distintos senhores e senhoras bem postas, os agentes da ordem jurídica deram por caçar à luz do dia os infratores de outra ordem, a do Estado democrático de direito. E prendem-nos, sem provas bastantes, sob a acusação do crime de “fake news”, de mentira flagrante contra as instituições, as leis e a família brasileira. E tascam-lhes tornozeleiras e descomposturas morais que envergonharia até mesmo um ladrão de galinhas, a mais baixa extração de criminosos desde os tempos coloniais.

Pois agora, a mídia obesa e a nanica se enfrentam pelos canais e ondas por onde trafega a sua visão peculiar e exemplar das coisas, dos fatos e dos seus benefícios.

Governos, auditores, procuradores, políticos e uma ampla enfieira de autoridades gradas engalfinham-se em um disputa sem fim para provar a culpa alheia, denunciar os predadores da ordem constitucional e dar-lhes o que a lei, tão generosa com outros réus condenados pela malversação da pecúnia pública, prescreve para os inimigos da verdade.

O novo marco legal da mídia eletrônica na Internet está no Congresso, em uma MP.

Pois bem: diante das dúvidas que assaltaram as vestais da liberdade de expressão (velhos e novos parlamentares amarrados pelas convergências espirituais a poderosos grupos da mídia obesa) de um ataque iminente aos princípios constitucionais e às instituições, formaram-se milícias retóricas que apontam os seus adjetivos para a mídia nanica.

De certo, a mídia nanica não é exemplo de virtudes; a corrupção alcançou-a, engordou os seus haveres patrióticos e converteu os seus ideais anunciados em uma conta-corrente aliciadora. Como haveria de fugir ao modelo bem sucedido dos monopólios e consórcios da indústria de realidades plausíveis em que encontrou seus paradigmas?

Sempre em defesa das razões de Estado e da democracia, os velhos cruzados apressam-se a cerzir a mordaça que calará a voz atrevida dos davis que ousaram enfrentar Golias… Os Golias já são de casa, falam a linguagem direta e franca dos afeiçoados aos poderes do Estado…

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.

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