Não se faz política e democracia sem imprensa de qualidade, por Osvaldo Euclides

Alguns jornais e jornalistas fizeram por merecer e acumularam prestígio e credibilidade junto à população ao longo do tempo por desempenharem razoavelmente bem seu papel de lidar com um bem público, a informação, e com a formação da opinião pública. Aqui e ali, uns e outros perderam-se no caminho e deram uma contribuição inversa, ao traírem a confiança do leitor, do ouvinte, do telespectador, desmerecendo a confiança e reduzindo esse capital intangível. Manipularam a informação, fraudaram o processo de formação da opinião pública.

A comunicação é um negócio muito específico e terminou concentrado em poucas famílias. Isso ocorre regionalmente, ocorre também nacionalmente. Nos Estados, raramente há mais de dois jornais, tradicionais, empresas familiares fechadas. Em nível nacional, a concentração é quase absoluta, quatro famílias controlam quase toda a audiência. Sem concorrência, no momento em que tomaram um partido, essas famílias assumiram um poder desproporcional, perigoso para uma sociedade que se quer equilibrada, que se deseja democrática.

A falta de concorrência se dá por várias razões. O negócio costuma apresentar barreiras de entrada de natureza financeira (ao exigirem grande investimento inicial) e burocrática (as disputas de concessão pública exigem capital político). E se tem barreiras de entrada, o negócio normalmente não tem portas de saída. O empreendimento também costuma exigir um longo tempo para a consolidação e prazos altos mesmo para que se atinja o “break even” (o ponto em que as receitas se igualam às despesas). Considere-se também que a operação exige uma mão-de-obra difícil de recrutar e mais difícil ainda de administrar. Aliás, o negócio da comunicação é especialmente difícil de gerir.

Mas, principalmente conta o fato de que o negócio fica muito exposto e sujeito a oscilações de humores tanto da economia quanto da política. Grandes empresas de comunicação regionais ou nacionais crescem ou desaparecem nas grandes mudanças no mercado e no poder público. Sim, no poder público, porque por mais que se digam liberais e independentes, os meios de comunicação tiveram, têm e terão uma relação próxima e delicada com os governos, seja ao lidar com a informação (a administração pública é a maior fonte de informação), seja ao lidar com eles como clientes (anunciantes, parceiros em projetos, patrocinadores de iniciativas), seja para lidar com eles em questões de financiamento ou tributárias. A relação da imprensa com o poder público é uma história de mil e uma noites.

Não é diferente fora do Brasil, não é diferente nem nas mais avançadas democracias. O negócio da comunicação é proporcional e relativamente concentrado aqui, ali e alhures. Entretanto, como a imprensa é um elemento vital para a conquista e manutenção da liberdade e da democracia, essas sociedades cuidaram de criar leis e estabelecer critérios e limites ao poder dessas empresas. E isso não é sinal de fraqueza do Estado, nem intervencionismo desnecessário, muito menos coisa de “gente da esquerda”. Trata-se de proteger a democracia.

O que aconteceu nos tempos recentes e o que está acontecendo hoje no Brasil é prova evidente de que a sociedade precisa e merece que seus líderes e seus mais legítimos representantes estabeleçam parâmetros, responsabilidades, critérios e limites econômicos e mercadológicos (sem interferir na liberdade de de opinião) para a comunicação.

Os Estados Unidos da América, a Inglaterra e os países escandinavos, entre outros, muitos outros, têm uma interessante combinação de leis, regimentos e controles econômicos, mercadológicos e sociais que em nada perturbam ou afetam a liberdade de imprensa, mas que coíbem abusos, excessos e manipulação continuada. Conhecer e entender o que deu certo ali e acolá pode ser um bom ponto de partida para o debate inicial aqui no Brasil.

Mas que não se demore a iniciativa. O Brasil quer democracia. E não há democracia sem imprensa de qualidade. Nem política se faz.

Brasileiros, pagamos um preço alto por não ter feito isso antes. Mas, antes tarde do que nunca.

Osvaldo Euclides de Araújo

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.