Carlos Gildemar Pontes
Belo Horizonte, capital das Minas Gerais, é uma terra adorável e cheia de encantos. Quem ouve o carioca Milton Nascimento, adotado e incorporado à mineiridade de forma indissociável, como se ali tivesse nascido e composto todas as memórias afetivas, talvez entenda a alma mineira.
E o que dizer do maior movimento musical fora do eixo Rio-São Paulo, quiçá o maior do Brasil, o Clube da Esquina? Para mim, como apreciador da interioridade da beleza, através da poesia e da música, o Clube da Esquina foi a maior revolução musical para restaurar a poesia à música. Perdemos Lô Borges repentinamente. E a comoção nacional foi algo surpreendente até para os mineiros. Homenagens, comemorações, lembranças afloraram nas janelas laterais e nos quartos de dormir; nos vestidos cor de mar, no trem azul e com o sol na cabeça. Parece que a poesia aflorou, foi polinizada em todo canto com os versos do Lô Borges, do Beto Guedes, do Flávio Venturini, do Bituca… e dos amantes insaciáveis do Clube da Esquina.
Estive lá. Recolhi um buquê de rosas que o vento tangeu para a beira da calçada e coloquei perto da foto do Lô Borges. Lacrimejei ao lembrar que as músicas desta turma me embalaram desde a adolescência. E me vi o cearense mais mineiro que poderia existir. Minas me é cara. Tenho amigos e cultivei afetos. Sou grato por tudo que vivi. Principalmente pelos amigos que me dão a alegria das Geraes. Poetas como Olegário Alfredo, Rogério Salgado, Adélia Prado, com quem mantenho amizade e admiração. Os novos amigos, Max, Marcelo, Vânia, Hélida, Cris, Hubert… e os eternos Márcia e Nanau (Ignácio) cearenses que estão debaixo dos céus de Minas, doidos para se aposentarem e descansarem na Serra dos Macacos.
Em meio às homenagens pela partida do Lô, lancei três dos meus livros: Crítica da razão mestiça, Contos quânticos e Letramento decolonial, organizado com Elizabeth Dias Martins, composto de artigos dos alunos do PPGLetras da UFC e de professores convidados. Foi uma festa mágica. Falas, músicas e o espaço do Clube da Esquina abrigando todos os súditos da boa música. Estou muito feliz e a tristeza de perdermos um dos grandes compositores foi aplacada pela solidariedade que presenciei e prestei a um dos grandes gênios da MPB.
Lô Borges vive, Minas é um tesouro cercado de serras por todos os lados. Garimpar a brasilidade no Clube da Esquina é viver um Brasil repleto de diversidades e alegrias. “E basta contar consigo e lembrar que a chama não tem pavio.”
E lá se vai mais um dia e nós, seres da arte, da literatura e da música, encantados com o que fizeram, por nós, esses anjos iluminados que se comunicam direto com os nossos corações.