Mudar o Rumo: a revolução do natal vem de baixo – RAFAEL SILVA

Gosto muito da definição de natal apontada pelo notável teólogo Leonardo Boff ao sentenciar que “o natal nos oferece antes de tudo a possibilidade de decifrar alguns mistérios de nossas tribulações”1. É especialmente nessa parte do ano que Deus rompe o silêncio diante de toda sorte de opressão e vem ao encontro dos mais pobres e dos humildes. Nesse sentido, o Natal é antes de tudo a encarnação dos mais frágeis. É a própria representação da figura da mulher, do trabalhador e dos animais que estão no centro das narrativas antes da chegada da criança, ou seja, os mais vulneráveis precedem a Deus! Ali Deus se revela na sua proposta de mudança de rumo, identifica-se com os menores e junto com estes constrói o caminho da revolução necessária à libertação.

Por tudo, convém entender que a palavra revolução é atualmente utilizada para designar revolta ou baderna. Comumente os conservadores buscam associa-la a alguma deformação social para vencer a narrativa popular, e assim construir muros como forma de interromper o processo revolucionário. No entanto, todas as vezes que se aproxima o período natalino eu não consigo pensar em outra palavra para associar simbolicamente essa festa que não seja revolução. O verdadeiro sentido de re-evolução é exatamente virar o rumo da evolução, um giro radical que busca um novo começo circular. É essa definição que gostaria de associar a festa do natal.

Em tempo, a revolução do natal começa a ser contada por volta do ano 3.753 do calendário judaico/romano quando pela força do poder autoritário, fora realizado um grande recenciamento. Herodes, então rei colossal, havia decido recontar sua população dando-lhe alguma justificativa gerencial. Na prática, ele se utilizará do poder do estado para acossar, junto com suas milícias, os pobres do seu reino.

Tratava-se de um governo ditador, militarizado, a utilizar a força e o medo para evitar qualquer reação popular. Os maus tratos, a fome e a ausência de democracia eram apenas algumas das principais características da época. O poder era exercido para seus amigos e as informações que circulavam davam conta apenas dos bons feitos do governo. As famigeradas fakes News não são narrativas modernas! Não havia naquele povo qualquer razão para esperança, apenas exerciam o direito à resiliência. Acanhados, restavam-lhes a sorte, pois diante de tanto medo e da necessidade da subsistência não havia mais nada a fazer senão reproduzir a lei.

Um fato curioso, dava-se em torno do estado legitimado pela religião e está servia àquele como quem serve ao um senhor. Estado e a religião cumpriam a um só tempo a tarefa de controlar as multidões e estabelecer o medo. A cultura da ignorância prevalecia de tal forma que já não era possível pensar fora daquela lógica. Nesse limite, a fé, a cultura e a lei agiam para impor um deus poderoso, misógino e sobretudo clerical. Um deus para poucos, principalmente para os escolhidos a cumprir rituais.

O contexto social era opressor. As massas viam-se apinhadas em mão-de-obra semiescrava e a relação econômica entre as classes sociais fazia supor uma verdadeira elite a sobrepor a casta de trabalhadores cansados e sem forças para mudar o rumo daquela realidade. Não obstante, lhes restavam alguma coisa entre o medo e a esperança na exata medida do essencial a grassar dias melhores. Herodes, sabia bem da existência dessa centelha, mas apesar de tentar, não conseguia apaga-la. Era o pote mágico da revolução que cada pobre leva consigo. Aquilo que L. Boff aponta como sendo “a solução que emerge da própria crise”.

Nesse momento, medo e esperança se cruzam para em algum momento imprevisível fazer deslanchar um novo caminho, uma nova estrada que feito mar se abre ao povo em fuga. Novamente recorro a L.Boff para aludir que aqui brota em cada mente e cada coração o princípio da esperança enquanto potência geradora dos sonhos e mobilizadora de ações para resistir a dura realidade da vida. É no final e não no começo que reside o verdadeiro Gênese, ou seja, no fim de um círculo que, de tão duro deixa de girar, para abrir espaço a outra possibilidade e mudar de rumo radicalmente.

Foi assim que se estabeleceu a virada de rumo que dá autenticidade ao natal. De um lado: o medo e força de Herodes; e do outro a utopia e a esperança do povo. Essas duas realidades atritaram-se durante pelo menos trinta anos, até fazer surgir a centelha da re-evolução que já estava presente na figura da criança apontada pela estrela guia. Simbolicamente, a centelha surgiu entre os mais pobres entre os pobres. A situação de quase miséria fez pela primeira vez, os reis olharem para baixo para ver Deus. Tamanha simplicidade testou a fé daquele povo e muitos não o reconheceram. Não faltou quem duvidasse, quem o traísse e quem o negasse, mas a centelha mantinha-se cada vez mais acessa.

Sua teimosia pela esperança contagiou e devolveu a ousadia ao povo, até então abafada pelo medo. No entanto, hoje, as crianças continuam a nascer nas periferias do mundo e Herodes continua nos palácios a exalar medo e poder. Não raras vezes revela seu projeto de mortes. Por isso é preciso compreender que a lógica da opressão foi mantida. Assim como antes, a violência é cometida pelo estado ou por ausência deste. Mas “apesar de tudo é natal”2.

Natal é antes de tudo a grande possibilidade de construirmos juntos a mudança de rumo. A velocidade e a intensidade vão depender da forma como entendemos a revolução. Assim como antes, quem está em baixo é numerosamente superior àqueles que compõe o andar de cima. Os negros, os imigrantes, os gays, os pobres e os marginalizados, tal qual as classes subalternas da Judeia, precisam achar-se, enxerga-se e acreditar na revolução que vem de baixo.

A revolução do natal é a grande mudança que já começou com o nascimento da criança. Precisamos agora renascer em todos os períodos natalinos. Aqui faz muito sentido as belas palavras de Zé Vicente3 que ao interpretar a oração do Pai nosso, lembrou de associa-la “aos marginalizados e torturados”. Quando sentenciou que o Pai [só pode ser nosso4] se for “parceiro dos pobres e Deus dos Oprimidos”.

Aí muda-se a conotação da frase em que se lê: “apesar de tudo é natal” para afirmar que “é por isso que é natal”.

Mudar de rumo é possível e necessário.

Feliz Natal!!!

1 Ver Mensagem de Natal de Leonardo Boff – 2019 disponível em https://leonardoboff.wordpress.com/2019/12/16/o-natal-dos-herodes-de-hoje/

2 Ver nota 1

3 Pai nosso dos martires – Autor Zé Vicente.

4 O grifo é acréscimo nosso.

Rafael Silva

Professor Universidade Federal do Ceará Mestre em Administração Doutorando em Sociologia pela Universidade de Coimbra-PT

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