MORRER NÃO É O FIM, DEIXAR MORRER, SIM.

Estou convencido de que morrer não é se tornar um finado – aquele que chegou ao fim – morrer é produzir finados! Morrer é condenar nosso opressor a se tornar nosso oprimido. Dito de outra forma: morrer é deixar morrer os mais frágeis, os mais pobres, os não cidadãos. É votar em políticos mesquinhos cujos projetos produzem mortes, é calar-se quando a vida grita e pulsa diante dos nossos olhos! Exatamente quando ela exige de nós, pede coragem.

São Francisco foi quem melhor trabalhou esse tema. Na sua sabedoria,  dava à morte o parentesco de irmã, para dizer que tudo é fruto da criação. Bem sabia o santo de Assis que desta forma retirava de sua irmã o poder do medo e a enfrentava com a ternura e a simplicidade merecida. Certamente, em sua época havia morte antecipada, tanto pela violência, quanto pela fome. Possivelmente,  a pobreza era uma das principais causas de morte na idade média, mas, ainda assim São Francisco insistia em chamar a morte de irmã porque, se não sabia, ao menos intuía que a morte era apenas uma passagem do medo para a esperança, da prisão para a liberdade, da dor para a vida.

Com isso nunca minimizou o fato das mortes antecipadas ocorrerem. Desde sempre tratou de denunciar e questionar os poderes políticos, entrar em conflito com a lógica da acumulação financeira e do descarte com a mãe terra. Desta forma, fazia brotar em torno de suas ações novas reflexões que, uma-a-uma, incomodavam, preocupavam,sobretudo, afetavam as comunidades geladas da região italiana da Úmbria. Assim, fez-se novo ao forjar-se e implicar-se, com um projeto de vida, de amor e de bondade universal.

Ao reconhecer a morte como irmã,  Francisco não sentenciou os finados, mas deu aos que ficavam a esperança. Não buscou culpá-los por seus destinos, mas reconciliá-los a um mistério. Mistério para quem vai, processo para quem fica. Aqui está uma boa oportunidade para entender a ótica franciscana. A palavra processo parece ser central para vivenciar o dia dos finados. Por quê?

Porque, a partir desse critério,  fica claro que morrer não é algo instantâneo, senão um processo irrompido de dor e de descaso. Ver a morte como um processo significa dar-lhe sentido político, portanto metafísica para a compreensão da realidade. Obriga-nos a montar as etapas que antecedem a morte para ser capaz de entender toda sua dinâmica. Um bom exercício passa em compreender que as 160 mil vítimas da covid-19 estão por trás do desdém dado ao trato da saúde pública, colocando ali um general especialista em logística para gerenciar a pandemia, ou que o sistema único de saúde seja desmontado para justificar vendê-lo sob a pecha da eficiência administrativa; é relacionar a volta do Brasil ao mapa da fome à sua extrema capacidade produtiva, ligada a sua ineficiência distributiva; é jogar luz às causas das mortes de 27 milhões de latino-americanos cujas partida poderiam ser evitadas com antibióticos que custam centavos de dólares; é manter-se indignado quando os jornais apresentam que 69% das crianças cearenses estão expostas a uma vida de miséria, sem acesso a saúde e educação ou um futuro vivível; é não calar-se diante da morte sem julgamento da juventude negra e periférica das grandes cidades; é encarar a violência policial nas periferias, que mata tanto o policial quando o trabalhador, como estratégia de segurança pública que outro dia revelou o capitão do mato na pele do próprio negro; é entender que as pessoas do sistema penitenciário são jogadas às traças como forma de eternizar suas punições. Suas vidas valem menos? Compreender a realidade da dinâmica da morte não é ir ao cemitério e cumprir uma velha liturgia comercial, se ela não vier acompanhada de gestos e escolhas políticas, o processo de morte vai continuar.

Como vencer a morte? Essa pergunta está deslocada. Estou convencido de que a morte é nossa irmã, por isso não precisa ser vencida. Ela é obra da criação que, em sua sabedoria, quis supor outras possibilidades. Como Francisco retirou da morte o poder do medo chamando-a de irmã, a morte também retira do poder a capacidade de oprimir pela mística da esperança. Isso fora estabelecido lá na distante ideia do paraíso, quando, por vergonha, Adão sumiu dos olhos do seu criador, e este insistentemente perguntou “Adão, cadê você? Essa pergunta ecoada no livro dos Gêneses revela uma metáfora teológica, mas ao mesmo tempo moral a nos possibilitar uma outra pergunta: como não deixar morrer?

Esta sim, me parece a pergunta mais potente. Pois ecoa em nossos paraísos terrenos todas as vezes quando o sagrado nos convida a olhar as mazelas que produzem a morte . Ali o criador está a repetir: Adão, cadê você? Em terras  arrasadas por guerras, e decisões econômicas, é Deus a nos instar: Adão, onde está você? Nas 700 mil pessoas vítimas da fome no mundo é Deus a insistir Adão, cadê você? E nós “adãos” e “Evas” dos nossos tempos somos convidados a responder ao chamado do sagrado para cuidar das pessoas, das riquezas da natureza e da beleza da vida que nos foi confiada? Não deixar morrerportanto, é se apressar em responder: estou aqui! Estou aqui pronto para cumprir minha tarefa de cuidar de todas as expressões e formas de vida. Estou aqui para não deixar faltar saúde, educação e economia aos mais fracos. Estou aqui para votar com dignidade e eleger bons políticos. Estou aqui para fazer a justa medida prevalecer e desta forma não deixar morrer.

Como bem disse o teólogo e filosofo francês Jean-Yves Leloup “na raiz do medo da morte existe o medo de amar ou deixar-se amar” Por isso, chore seus finados, dai-lhes graça por suas vidas, mas não minimize aquilo que provocou suas partidas, sobretudo aquelas que foram fruto de decisões políticas, as chamadas mortes antecipadas.Viver o dia de finados hoje é reproduzir o exemplo de Francisco de Assis, que sintetizou sua vida na mais aberta e espontânea expressão de amor. Sobretudo quando passou a chorar a dor do outro, a questionar aquela situação de opressão e principalmente a comprometer-se com sua vida para mudar tal realidade.

Por fim, bem disse Quininha Fernandes Pinto em sua belíssima reflexão sobre a mortea morte nada mais é do que um modo difícil de aprender sobre a vida. Com certeza aprender a viver é aprender a amar e, portanto, aprender a perder”. Nesse sentido, estou convencido de que a culpa de nossas dores e sofrimentos não é da morte, esta é apenas um mistério, a culpa é de quem produz a morte, Isso nós podemos mudar.

Por isso, morrer não é o fim. Deixar morrer,  sim.

Rafael Silva

Professor Universidade Federal do Ceará Mestre em Administração Doutorando em Sociologia pela Universidade de Coimbra-PT

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