MONTAIGNE E A ERA DAS ‘FAKE NEWS’, por Duarte Dias

À título de rápida apresentação ao leitor dessas linhas, destaco que Michel Eyquem de Montaigne – ou simplesmente Montaigne, como veio a credenciar-se para a posteridade – foi um filósofo, político e escritor francês que viveu no século XVI, um dos períodos mais conturbados e instigantes da história humana, palco, dentre outros tantos e importantes fatos, de parte substancial da dramática ascensão social, política e econômica da burguesia em detrimento de uma decadente sociedade feudal.

Fica implícito e acordado entre nós, portanto, que Montaigne não veio a saber em que consistem as tais “Fake News”, esse fenômeno contemporâneo tão associado à internet e seus mais famosos mecanismos de propagação, no caso, as mídias e redes digitais.
Então, a que se deve a associação entre o filósofo francês e essa espécie de vírus da desinformação global, tão amplamente utilizado por anônimos e poderosos de plantão? Será este próprio artigo um exemplo cabal daquilo que se quer denunciar?
Calma, chegaremos lá.

Antes convém dizer que, sendo um dos mais celebrados representantes do humanismo renascentista – que elegeu, em contraponto ao teocentrismo medieval, o homem como figura central de todos os acontecimentos -, Montaigne era, para além de todos os predicados já elencados, um nobre de muitas posses, amigo de reis e rainhas, em especial os da França.

Fazendo uso dessa vantagem política, econômica e social, Montaigne, aos 37 anos de idade, achou por bem, muito devido à tristeza ocasionada pela perda de seu mais dileto e íntimo amigo, Etienne de la Boétie, que morreu aos 33 anos, abandonar as alegrias e divertimentos mundanos e recolher-se à torre do seu castelo, deixando para Françoise, sua jovem esposa – cuja diferença de idade para a dele era de 11 anos -, a tarefa de cuidar da única sobrevivente dos seis filhos que tiveram, a pequena e enfermiça Leonor.
Instalado na torre de seu castelo, munido da solidão das horas de do acúmulo ímpar de conhecimentos e aprendizados, Montaigne pode finalmente dar vazão ao registro de sua própria filosofia, tecendo, fio por fio, o labirinto de seu pensamento, ora expressando-o de forma simples e direta, ora fazendo uso de raciocínios elaborados e herméticos, numa construção que, ao soar por vezes contraditória, põe em prática uma estratégia que visa questionar e desestabilizar muitas das certezas de seu possível interlocutor.

Um bom exemplo disso é o primeiro volume de uma de suas mais célebres obras, “Ensaios”, cujo Capítulo IX tem por título “Dos Mentirosos”. O filósofo inicia sua abordagem do tema referindo-se à própria memória, reconhecendo não ser ele, no âmbito dessa aptidão, o melhor exemplo: “Não há a quem convenha, menos do que a mim, apelar para a memória. Dessa faculdade careço por assim dizer totalmente e não creio que haja no mundo alguém menos bem aquinhoado a esse respeito.” Inicia-se, nessa constatação sobre si mesmo, seu laço argumentativo, dado que, na sequência, Montaigne enaltece Platão, para quem a memória, pela importância que tinha, figurava como uma “…das grandes e poderosas divindades.”, assinalando ainda que, em sua terra (a dele, Montaigne), “… diz-se de quem não mostra bom senso que não tem memória…”.

Montaigne aprofunda seu raciocínio elencando uma série de queixas pessoais advindas de sua dificuldade mnemônica, algo que, a princípio, parece uma sucessão de anedotas, dado o caráter pitoresco e engraçado da narrativa, mas que, na verdade, serve de gancho para dar, de maneira leve e paulatina, uma sutil guinada em sua retórica de valorização da memória: “Eu me consolo até certo ponto pensando que devo a esse defeito (falta de memória) não ter ao que me parece mal maior, e que por certo me houvera atacado: a ambição; pois os negócios públicos exigem boa memória.”
O mestre francês prossegue, agora jocosamente, em sua estratégia de envolvimento do leitor ao afirmar que, graças a essa falta de memória, existe concisão no seu falar, pois “… em geral a memória é mais prolixa do que a imaginação.”, pelo que evoca o caso dos anciãos “… que se prendem às recordações do passado e não se lembram das repetições…”, afirmando ainda ter visto “… histórias muito agradáveis tornarem-se aborrecidas na boca de um alto personagem de quem todos já a tinham ouvido cem vezes.”
Ao seguir enumerando as vantagens que lhe advêm por não possuir memória, entre as quais o fato de sempre reler seus livros com renovado entusiasmo, Montaigne finalmente chega ao cerne do seus propósitos ao enunciar que “Não é sem razão que se afirma não dever meter-se a mentir quem não tem memória.”, aproveitando a deixa para estabelecer a diferença entre dizer uma mentira e mentir: “Dizer uma mentira é (…) adiantar uma coisa falsa que a gente crê verdadeira, ao passo que, na língua latina, da qual provém a nossa, mentir é falar contra a própria consciência.”

O mestre francês, ainda no alto da sua torre filosófica, é taxativo quanto àqueles que “…falam em desacordo com o que sabem.”, os mentirosos: “Em verdade, mentir é um vício odioso. Somente pela palavra é que somos homens e nos entendemos. Se compreendêssemos claramente o horror e o alcance da mentira, contra ela pediríamos o suplício da fogueira que, com menor razão, se aplica a outros crimes.”

Na consagrada era da pós-verdade em que vivemos, a “Era das Fake News”, onde a falsidade ganha status nunca antes alcançado devido à ação dos mentirosos que seguem operando nas sombras ou, agora em maior número e descaradamente, em plena luz do sol – como bem o fazem alguns notórios mandatários -, é de supor o horror que se abateria sobre Montaigne caso tomasse conhecimento de que, passado tanto tempo, regredimos ao ponto de não haver fogueira suficiente para tantos canalhas, mesmo porque, estando corretos os pitagoristas, “O bem é coisa certa e delimitada, o mal incerto e infinito.”

Duarte Dias

Duarte Dias

Cineasta, roteirista, curador, fotógrafo, cantor e compositor, Duarte Dias foi premiado em vários festivais de música no Ceará, tendo lançado seu primeiro álbum, "Jardim do Invento" (https://goo.gl/Ha3mZh), em fevereiro de 2019. Com premiações em festivais de cinema no Brasil e no exterior, ocupa a cadeira de n° 36 da Academia Cearense de Cinema. Idealizador e diretor geral do FestFilmes - Festival do Audiovisual Luso Afro Brasileiro, atualmente desempenha as funções de programador e curador do cinema do Cineteatro São Luiz e de Coordenador de Política Audiovisual da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará.

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