Miséria do (nosso) jornalismo

O mundo testemunha mais uma guerra.Além da Guerra russo-ucraniana, testemunhamos, neste momento, um conflito bélico entre Israel e o grupo Hamas.O chamado Oriente Médio está em estado de alerta total.A chamada solução dos dois estados – um estado para o povo judeu e outro para os árabes, que já foi uma decisão chancelada pelas Nações Unidas, hoje parece tão correta quanto distante da realidade.Toda esta situação é dolorosa e o leitor(a) deve se informar sobre o assunto com verdadeiros(as) especialistas no assunto, que não é o meu caso.

O presente texto busca refletir sobre um outros aspectos da guerra: a abordagem de parte da mídia tradicional brasileira com relação ao conflito, que longe de se assemelhar com o horror da violência bélica, produz resultados políticos que podem ser tão danosos quanto.

Desde o ínicio do conflito a mídia tradicional, me refiro aqui aos jornais Folha de São Paulo, O Globo, Estadão, a emissora de Televisão Globo e sua versão em TV fechada Globo News, tem se dedicado a mostrar o drama dos israelenses que sofrem com a agressão do Hamas e mostrar as reações do Governo de Israel ao atentado.

Certamente, a dor dos civis israelenses é real, comovente e deve ser ressaltada. Muitos israelenses são,inclusive, críticos a Benjamin Netanyahu e seu extremismo e defendem a criação de um estado Palestino. Porém, da forma como é retratada a situação, é como se apenas os israelenses tivessem o direito à empatia coletiva internacional. Os palestinos são reduzidos a uma estúpida confusão entre a causa palestina e as ações do Hamas.

Esse tipo de desinforamação é eivada de Orientalismo, a saber, a visão dominante Ocidental que ”cria” no imaginário social uma visão estanque do Oriental( como um sujeito de pele morena, barba grande, mulheres acima do peso que falam uma lingua ininteligível e que são ou apoiam ações terroristas), foi muito bem analisado pelo teórico Edward Said no clássico ”Orientalismo – o Oriente como invesão do Ocidente” de 1979. Na época Said já demonstrava como esse Orientalismo dava munição para a mídia, e o governo dos EUA convence a população americana a apoiar guerras no Oriente médio. Se o outro é entendido apenas a partir de um estereótipo, uma caricatura e reduzido a bestas ou a ”animais” como declarou o Ministro da Defesa de Israel[3], ele pode e deve ser eliminado.

Mesmo com o governo brasileiro agindo bem e rápido na tentativa de um cessar fogo e no resgate de civis brasileiros – a expectativa é que até Domingo dia 15/10 mais de 900 brasileiros sejam resgatados, a mídia e a direita parlamentar encontraram meios de atacar o presidente Lula em meio a essa Guerra.

Para a Folha de São Paulo, Jair Bolsonaro lembrou o fato do Hamas ter parabenizado a vitória eleitoral de Lula – assim como Joe Biden, Emmanuel Macron e o próprio governo de Israel fizeram. Monica Wardwogel[1], jornalista da Globonews, chegou a explicitamente querer associar as ações do Hamas ao PT. Demétrio Magnoli[2], sociólogo, geógrafo e também jornalista da Globonews,criticou Lula pelo presidente não ter classificado o Hamas como terrorista em sua declaração inicial contra a Guerra. Para os nossos sábios do jornalismo, Lula tem o poder de influenciar conflitos mortíferos se usar sua magia especial e xingar Putin ou classificar o Hamas como terrorista. Magicamente os conflitos se resolveriam com isso. Posteriormente a esses comentários jornalísticos, o presidente lançou nota na quinta-feira dia 12 classificando os atos do Hamas como terroristas. Porém, isso não acalmou nossos jornalistas.

A Folha de São Paulo e o O GLOBO diariamente publicam ou repetem matérias sobre os deputados petistas que em 2021 se opuseram à classificação do Hamas como um grupo terrorista, como se essa ação por si só os colocasse como apoiadores do atentado violento do grupo. Além disso, o fato de um coordenador da campanha de Guilherme Boulos para prefeitura de São Paulo ter deixado o cargo por considerar que a reação do PSOlista aos ataques não foi suficiente, virou matéria-prima preciosa para nossa mídia tradicional. Posteriormente, o deputado fez um duro discurso contra a ação do Hamas. Mas o estrago midiático já estava feito.A campanha eleitoral do deputado socialista foi bastante prejudicada com tudo isso.

Toda essa confusão ajuda politicamente a extrema-direita aqui no Brasil.Espalhando fake news e fabricando factóides,a máquina de propaganda bolsonarista está faturando politicamente nesta guerra. E, neste caso, a mídia tradicional tão vilipendiada por Jair e sua turma, está sendo para eles uma grande aliada simbólica. A terrível ironia disto tudo é que neste momento, o ex-presidente que zombou e pôs em risco a vida de milhares de brasileiros na Pandemia de Covid-19 está capitalizando politicamente e o presidente que rapidamente pediu a paz no conflito, condenou as ações do Hamas, propôs uma saída para inocentes e resgatou boa parte dos brasileiros da zona de conflito está pisando em ovos.

Este estrume político-comunicacional contou com o apoio da mídia tradicional brasileira. Algo tão terrível que nem uma solução de dois estados pode solucionar.

Referências

[1]https://veja.abril.com.br/coluna/veja-gente/monica-waldvogel-associa-pt-ao-hamas-na-palestina-e-cria-crise-na-globo/
[2]https://revistaforum.com.br/opiniao/2023/10/9/manipulaes-midiaticas-sobre-geopolitica-palestina-145504.html
[3]https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2023/10/09/ministro-israelense-da-defesa-ordena-cerco-da-faixa-de-gaza.htm

Gilvan Mendes Ferreira

Cientista social graduado pelo Universidade Estadual do Ceará-UECE, com interesse nas áreas de Teoria Política , Democracia e Partidos Políticos.

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Gilvan Mendes Ferreira

Cientista social graduado pelo Universidade Estadual do Ceará-UECE, com interesse nas áreas de Teoria Política , Democracia e Partidos Políticos.