A mentira, por Alice Tozzi

O hábito de mentir pode estar relacionado a diversos fatores. Dentre outros, a evitação de responsabilidade e a autoafirmação são motivos muito comuns nas crianças. Sem esgotar todas as hipóteses que levam a esse comportamento, devemos identificar qual a função da mentira num contexto específico e quais variáveis interferem de modo a reforçar ainda mais a manutenção desse comportamento.

Analisando o contexto familiar, percebemos que alguns estilos parentais podem favorecer a mentira, mediante emprego de práticas educativas negativas que envolvem negligência, ausência de atenção e afeto, ameaça, dentre outras condutas semelhantes. Além de tais condutas, há também práticas que envolvem uma disciplina permissiva em que se observa o relaxamento de regras. Ocorre que essas práticas em nada contribuem para o desenvolvimento saudável da criança, podendo estar na gênese de comportamentos como, por exemplo, o hábito de mentir.

Muitas vezes, a criança, em meio a conflitos familiares, assume tal comportamento por não perceber ambiente seguro e favorável a um diálogo franco, propício a que possa expor suas dificuldades e inseguranças.

Além disso, quando os pais descobrem a mentira e estabelecem a punição, a criança pode associar tal punição não à descoberta da verdade, e sim, ao fato de ter sido desmascarada. Dessa forma, em uma próxima oportunidade, a tendência é lançar mão de maiores artimanhas e disfarces para não tornar a ser descoberta, e, portanto, não receber novamente a punição, em vez de propriamente evitar a mentira.

Nesse sentido, os pais devem estar atentos à função da mentira, bem como a quais reforçadores estão sinalizando para uma frequência ainda maior desse comportamento. Devem, assim, conduzir-se de modo a ouvir atentamente seus filhos, utilizando o instrumento da punição de forma adequada.

Ademais, destaca-se a importância de se aceitar o filho como ele é, uma vez que, diante de tamanhas exigências que emergem do meio e da sociedade, por vezes, o comportamento de mentir tem justamente o condão de esconder fragilidades e inventar qualidades, como forma de ser aceita no mundo.

Portanto, é essencial que as práticas educativas da família favoreçam a edificação de um ambiente seguro e de confiança, gerando na criança a liberdade para ser verdadeira, ainda que, para tanto, ela deixe de satisfazer determinadas exigências externas. Dessa forma, certamente, estar-se-á contribuindo para evitar o desencadeamento de futuros problemas de personalidade.

 

Alice Tozzi

Alice Tozzi

Psicóloga formada na UNICAP em Recife. Formação em Psicoterapia breve-focal, Neuropsicóloga e Pós Graduada em Psicodiagnóstico. Psicoterapeuta de crianças, adolescentes e adultos. Avaliação Neuropsicológica e Psicodiagnóstico. Assessoria Educacional. Contao: [email protected]

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