Medo de quê? Por LUANA MONTEIRO

Você tem medo de quê? Eu tenho muitos medos. Aprendi a cultivá-los desde cedo. Minha família fez um bom trabalho nesse sentido: medo de sair de casa, medo de andar sozinha, medo de cair, medo de passar vergonha, medo de não conseguir, medo de não estar pronta, medo de não saber o suficiente, medo de não ser aceita… E voilà com o tempo passei a desenvolver o medo de sentir medo.

Mas de todos esses medos nenhum supera o medo da morte. Acho que a civilização em que vivemos é a mais egoísta e despreparada para lidar com os ciclos da vida em comparação com outros povos. Talvez o excesso de cientificismo no nosso cotidiano tenha destruído qualquer tentativa mágica ou espiritualista para explicar as inúmeras dinâmicas que envolvem o viver.

Mas não só isso, vislumbro uma série de fatores que estão presentes na nossa forma de encarar a cosmologia social e que só nos afasta de um entendimento holístico da vida.

Primeiro nos vemos desencantados do mundo. Para alguns isso pode soar como uma libertação, uma vez que explicações “controversas” são substituídas pela verdade verificável da ciência. No meu ponto de vista, a ciência é também mais uma possibilidade de abordar a realidade, não deve ser a única.

Ao passo que olhamos somente para o lado objetivo da vida também não nos damos ao luxo de pensar a sua finitude. A vida é regida acima de tudo por um curso biológico. Não se pode controlar seu imponderável desenvolvimento.
Ao mesmo tempo vivemos na sociedade do novo. Nós não respeitamos os ciclos de nascimento, desenvolvimento e morte em nenhum aspecto da vida, porque iriamos discutir finitude?
Tudo aquilo que nos rodeia é substituível. Não adquirimos responsabilidade eterna ao comprar um celular, uma calça jeans ou um carro. Não nos comprometendo a utilizar o objeto até que ele perca sua função. Fazemos proveito somente até o momento que nos convém, depois descartamos, vendemos ou doamos – o que a meu ver é uma saída bem plausível, apesar de ainda não trazer necessariamente educação sobre o uso das coisas. De alguma forma retiramos aquele artigo “velho” das nossas vidas e colocamos um “mais potente”, “mais bonito” e “mais completo” no seu lugar.
A comparação de mercadorias com vidas humanas é injusta e deficitária, mas serve-nos como vitrine para visualizar as relações mais frequentes que realizamos cotidianamente, a mediação com as coisas.

Da mesma forma, reproduzimos o repertório ensinado pelo mercado com as relações estabelecidas entre pessoas. As vezes é ate provável que humanizemos mais as coisas e coisifiquemos as pessoas. Não é uma inversão difícil de se constatar.

Por fim, acredito também que a religião cristã exerce um papel fundamental na nossa falta de conexão com a morte. Aprendemos tão somente a temer a deus e a valorizar uma vida de ideais santos inalcançáveis. O perecimento e a aflição são dados aos “pecadores”. Os merecedores viverão na eternidade ao lado de Cristo.

É muito difícil não sofrer quando alguém do seu meio social se vai se tudo o que nós aprendemos sobre a morte é que ela é um caminho de punição e nós somos seres emocionalmente despreparados para lidar com ela.

Em outras sociedades a morte já foi vista como uma passagem, como libertação e até mesmo como o simples curso que qualquer ser vivo trilha após a vivência terrena. Tudo é uma questão de ponto de vista e de como fomos socializados para lidar com acontecimentos de finitude.

Ainda a temo muito, quando criança me pegava horas triste e chorosa pensando no sofrimento que seria perder alguém próximo. A ideia não deixou de me assustar. Tenho essas raízes sociais muito bem fixadas em mim e sempre que possível, tento problematizá-las.
Mas questionamento não é necessariamente superação. Existe um jogo entre razão e hábito que pauta essa polarização. Busco somente não sofrer por antecipação por qualquer evento imponderável que possa acometer minha breve existência humana. E garanto esse “só” já é em si um problema enorme, pois trata principalmente de não cultivar expectativas. E essas têm sido o alimento principal na nossa forma de vida multifacetada e hiperconectada.

Enquanto isso é melhor ocupar a cabeça com as mais diversas teorizações sobre o cotidiano do que focar nos medos. O medo na verdade, não é de todo ruim. Tem o medo que nos deixa sem ação e tem o medo que gera cautela. “Apenas os tolos não temem” lembro dessa frase de algum lugar, ela me ajuda sempre que me vejo diante de uma situação nunca vivenciada.

Eu me perguntava, será que uma pessoa corajosa e preparada estaria sentindo medo no meu lugar? Eu achava que o medo era a ausência da coragem e mesmo da vontade. Até perceber que o medo é um dispositivo primitivo que pode ser ativado todas as vezes que nos vemos fazer algo novo e desafiador. Ele não existe somente para te desmotivar, mas para te oferecer a capacidade de agir com cautela no momento certo. Poderíamos resumir: tem medo que é ruim, mas tem medo que é bom. Como sabê-los? Isso é um desafio.

Luana Monteiro

Luana Monteiro

Cientista social, mestre em Sociologia (UECE) e pesquisadora.

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