“Maternando” e “Paternando” 

Colocar uma criança no mundo não é nada fácil. Na verdade, desde a concepção tudo se faz mais difícil para aquela que carrega em si uma outra vida. 

Qualquer assunto em relação aos direitos do corpo da mãe se tornam um tabu, porque ela passa a ser enxergada socialmente como existindo exclusivamente para gestar a nova vida. Visto de certo ângulo, parece-nos em um primeiro momento, que essa percepção é justa e necessária para com aquelas que são responsáveis por perpetuar a nossa espécie. Mas é falaciosa, a tal noção e, também, muitíssimo perigosa.

Em nenhum momento, enquanto grávida, senti que tivesse mais privilégios sociais nem nos espaços públicos e nem mesmo nos serviços de saúde. 

A tutela patriarcal incide mais forte sobre o corpo da mãe que além de se vê influenciado a cumprir os preceitos morais socialmente estabelecidos também passa a estar sob o domínio do conhecimento médico, além de já ser um corpo regido pela biopolítica. 

Somente ao passar pela experiência de gestar um novo ser eu percebi o quanto a sociedade, que tanto defende a vida acima de tudo, apaga as particularidades das mulheres e as diversas relações de aceitação ou não ao fato de estarem grávidas. O Estado fecha seus olhos; a religião fecha seus olhos; a moral, no entanto, os mantém abertos que é para não deixar de culpar essas mulheres por cada pequeno ato fora do socialmente aceito. 

Somente sendo mãe percebi o quão difícil é o ato de “maternar” e “paternar”. Percebi como é difícil se doar, destinar tempo e atenção a outra pessoa. É cansativo e você descobre que o significado do amor é o cuidado e que amar é um verbo e exige dos indivíduos ação e iniciativa. 

Dar à luz a um filho é algo que vai muito além do momento que reveste o nascimento, pois exige renúncia e comprometimento constantes. A responsabilidade chega e se instala e a vida muda. Ela chega, mas não como um peso insuportável e penoso, para aqueles que a recebem e acolhem, é um chamado a despertar para formas menos egoístas e mais empáticas de ter afeto pelos outros. Ser mãe me tornou uma pessoa melhor.  

Luana Monteiro

Luana Monteiro

Cientista social, mestre em Sociologia (UECE) e pesquisadora.

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