MÃOS IMPURAS E INDECOROSAS, MÃOS QUE APASCENTAM E FORNICAM

Salvo a rotina a que já vamos nos acostumando, nada digno de registro deste lado do Planeta.

Da minha parte humílima cuido do corpo que da alma, não seria agora que haveria de dar cobro aos desvios de personalidade acumulados.

Dos nossos defeitos, só os outros dão-nos conta e os apontam. Não sabemos ajuizá-los; quando o fazemos por força da inércia das nossas vaidades, erramos no diagnóstico e na complicada terapêutica dos “ids” e dos “egos” em atropelo. Loucos, esquizoides e toda a classe de pacientes a cujas ansiedades incontidas Freud deu nome e classificação, seríamos, todos nós, piores caso aceitássemos por salutar redução clínica e comodidade, a condição de seres desviantes que nos imputam.

Os normais, vistos de perto, surpreendem: são como nós, criaturas perfeitamente desviantes, desajuizadas. Seguem os mesmos impulsos como nós nos deixamos conduzir, recolhem-se a suas cavernas aparentemente seguras do assédio ameaçador dos “outros”, imagem conjecturada em nossas defesas mínimas.

Por esta razão, abandonei buscar a salvação da alma, fosse pelos árduos caminhos da fé, fosse, no melhor das alternativas, ou pelas trilhas da psicanálise.

Dominado pelo “mal de mer” ou pelas injúrias dos vazios das tripas, em mar aberto ou sob os lençóis da libido em maré baixa, decidi-me pelas emergências de uma artrite descuidada, presumida perempta, que maltrata a mão direita, eleitacinstrumento de trabalho contingente.

Com este aparelho anatomicamente perfeito — já o víamos no indicador imperioso de Jeová, na Origem do Mundo de Michelangelo — tenho cometido grandes e honoráveis gestos e surpreendentes. Mas não poupei, entretanto, por culpa minha, minha máxima culpa, meus carpos, metacarpos e as falanges de impulsos menos nobres. Fi-lo pelas imposições incontornáveis da anatomia humana. Quem não percorreu, nos verdes anos adolescentes, esses adoráveis caminhos, íngremes e misteriosos, que a topografia feminina expõe aos praticantes de atividades radicais deste porte?

Percebem os leitores quão perverso é o destino? Por que a artrite, prenúncio de artrose, com variantes de alegadas suspeitas, corriqueira ou de respeitável posição hierárquica no ramo, atacaria justamente a mão esquerda de quem dela se serve por hábito e necessidade?
A esquerda, que ela é, no meu caso, compassivamente ignorante, sem serventia de registro, a não ser no plano simbólico e político-ideológico das grandes Revelações e (revoluções) anunciadas?

Preferiu a direita, dotada de alguns impulsos e atributos de inteligência, hábil manipuladora de conceitos e acepções; a mão indesejável, segundo os povos árabes que as reservam para tarefas impuras do pecado e das humanas contingências. O lavar-se as partes íntimas são habilidades da mão direita. Tocar as teclas do computador, também. Acusar e apontar alguém por pecados e culpas negligenciados , para tanto o indicador — o index fatal — é peça essencial.

As carícias serão privilégio da direita ou da esquerda? A fornicação e os impulsos da libido, praticamo-los com a direita ou a esquerda? O comer fazem-no os filhos do Profeta com a mão esquerda, por segurança e cuidados de limpeza. Que por estas questões de asseio, a direita não apresenta comportamento exemplar.

Não tenho ideia formada, tampouco opinião, sobre as vantagens do uso da direita ou da esquerda para questões que não sejam apenas as da denúncia e a hostilidade dispensada aos outros, aos que se atrevem a pensar diferente de nós. Hei de descobrir outras serventias que não sejam impuras ou desprezíveis.

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.

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