A mãe de todas as ‘fake news’, por Osvaldo Euclides

Quando em plena audiência no Congresso se discutia o ‘mensalão’, em 2005/2006, o publicitário Duda Mendonça, dono da empresa que fizera a campanha vitoriosa do PT de 2002, a DM-9, disse que recebeu dinheiro depositado em contas em paraísos fiscais, o fantasma do ‘impeachment’ de Lula apareceu na seção.

Foi um corre-corre. Isto aconteceu, é fato histórico.  O tucanato se reuniu para deliberar o pedido de impedimento do presidente da República. Consta (não é fato) que pelas razões a seguir, desistiu. Razão 1 – Fernando Henrique teria dito que derrubar Lula traria instabilidade, melhor seria deixar Lula ‘sangrar’ até morrer politicamente, e tomar o poder de volta facilmente na eleição que se daria em meses; Razão 2 – os banqueiros teriam dito que não aceitavam que o vice de Lula, o empresário José de Alencar, assumisse o comando (Alencar era um combatente do juro alto, da especulação e da concentração bancária); Razão 3 – debateu-se o argumento de que Lula não era “exatamente um Collor” que pudesse ser derrubado sem consequências dramáticas, e José Dirceu teria dito: “se tentarem impichar Lula, boto um milhão de pessoas nas ruas” (e eles acreditaram); Razão 4 – a economia estava muito bem, não se derruba um governante que administra bem a economia. Fato é que a confissão de Duda Mendonça deu em nada. Lula até sangrou um pouco, mas reelegeu-se.

Quando Dilma Roussef surpreendeu Aécio Neves e venceu a eleição de 2014, e o tucanato percebeu que ficaria fora do poder por mais quatro anos, começou a articular a sua derrubada. As quatro razões que protegeram Lula em 2005/2006 não se colocavam a favor de Dilma Roussef no início de 2015. Em primeiro lugar, Dilma está longe de ser “um Lula”, mesmo que não esteja tão perto de ser um “Collor”. Em segundo, apesar de não haver uma crise econômica real (basta ver os grandes números), a imprensa, a oposição e o mercado batiam bumbo da “maior crise da história” já há tempos. Terceiro: o vice de Dilma não era um José Alencar, era apenas um insignificante Michel Temer, mas que podia ser vendido como um grande jurista, constitucionalista de renome, um fino articulador político, um homem sério e equilibrado, suficientemente experiente (apesar de nunca ter administrado nada) que pacificaria o Brasil e recuperaria a economia instantaneamente. Quarto: Zé Dirceu estava presinho da silva e os banqueiros estavam a favor (afinal, em 2012/2013 Dilma baixou os juros, fechou a porta giratória dos diretores com o mercado e colocou Banco do Brasil e Caixa Econômica para concorrerem com os bancos privados).

Quem pensou no impeachment em 2006, aprendeu com os erros e agora (dez anos depois) o golpe teria que ser certeiro, cirúrgico. Quando, dois meses depois das eleições, (em fevereiro de 2015), Eduardo Cunha se elegeu presidente da Câmara dos Deputados, o impeachment virou apenas questão de tempo. Cunha era o homem certo, na hora certo, no local certo, para a missão. O resto se resolveria politicamente, ou de outra maneira pragmática, com amplo apoio do mercado, da imprensa e do próprio Congresso, sem falar da eventual disposição do STF de não interferir, nem da incapacidade (ou seria impossibilidade?) da presidente de reagir, seja por razões certas, seja por razões erradas.

Chegamos onde queríamos chegar: é neste contexto que nasce o discurso e depois a infinita e interminável propaganda da “maior crise da história”. Crise econômica, crise política, crise moral, crise das instituições…tudo com a contribuição da fraqueza política da presidente, através de inúmeros erros pequenos e médios, vendidos e percebidos como gigantescos talvez até pelo próprio partido dela. Se você mina dia após dia a confiança de empresários, investidores e consumidores com a ideia da “maior crise da história”, a crise acontecerá de fato nos negócios. O empresário adia investimentos, o consumidor adia compras, as empresas reduzem as contratações, demitem…está feita a crise real, com desemprego e tudo.

A maior crise geral da história (com base na dita maior crise econômica de todos os tempos), ou, nas palavras de hoje, o “desastre econômico do PT”, ou a “herança maldita”, ou “a destruição do país pelo PT”, tudo isso, até o início de 2015 era uma “fake news”, repetida desde os dois últimos trimestres de 2013. A maior e mais longa “fake news” da história. Mas foi tão repetida e comentada que tomou ares de verdade.

Crises econômicas, mesmo, e das grandes, aconteceram nos anos 1980 e 1990. Nas mãos do presidente José Sarney (1985-1989), o Brasil quebrou e declarou moratória. Com o presidente Fernando Collor, o país viveu em choque e com pires na mão no primeiro ano, até articular a inclusão do Brasil no ‘Plano Brady’ (uma consolidação das dívidas com a bênção dos EUA e da banca privada internacional) no segundo ano. Itamar Franco (1993-1994) fez o Plano Real e só, o que não foi pouco, um choque brutal que deu certo no final. Nas mãos de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), o Brasil quebrou três vezes e pediu socorro ao FMI, ao Banco de Paris e a um ‘Comitê’ de bancos privados comandado pelo Citybank. FHC teve que pedir ao presidente dos Estados Unidos para interferir junto ao FMI. E, apesar de ter vendido as empresas estatais de siderurgia, de telefonia e de distribuição de energia, entre outras, aumentou a dívida interna líquida em quase cinquenta por cento em relação ao PIB, sem falar que aumentou a carga tributária de mais ou menos 24% para 32% do PIB.

Lula, eleito em 2002, recebe o país com inflação e desemprego em torno de quinze por cento, juros da Selic em vinte e quatro por cento, sem crescimento do PIB e quebrado em moeda forte e assinando o terceiro acordo humilhante com o FMI. Uma gerente do FMI vinha a Brasília dizer ao governo brasileiro o que o país podia e o que não podia fazer.

Oito anos depois, o Brasil já tinha pago antecipadamente tudo o que devia ao FMI, acumulou 380 bilhões de dólares em reservas, manteve a inflação nos limites da meta, aproximou-se da taxa de pleno emprego, baixou a relação dívida interna/PIB, cresceu o PIB, não fez nenhuma privatização relevante e praticamente manteve a mesma carga tributária (saiu de 32 para 35% do PIB). Mágica? Não, só um pouco de bom senso, confiança e sorte.

A imprensa ainda hoje refere-se ao “desastre do PT” e nunca diz uma palavra sobre o “sucesso do FHC”. Esta é a mãe de todas as ‘fake news’.

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

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