A mãe de todas as ‘fake news’ – Parte 4 – por Osvaldo Euclides

Vamos falar de poder.

Em política, nada é dito ou feito ao acaso. O Parlamento é composto por pessoas qualificadas e capazes – não é fácil chegar lá, e lá manter-se. A palavra deste ‘profissional’ é sua arma e sua ferramenta de trabalho. Todos os atores envolvidos nesse jogo partem do pressuposto de que as palavras e os gestos transmitem, sempre, de maneira clara ou sutil, as intenções e os objetivos diretos de cada um, de cada grupo, de cada partido. Daí, a frase que sintetiza esta ideia é aceita por todos: “Jabuti na árvore. Ou houve enchente na véspera, ou alguém o pôs lá”. Simples assim: jabuti não sobe em árvore, tudo tem significado, intenção, resultado.

Respeitadas as diferenças e guardadas as devidas proporções, a mesma ideia poderia ser usada para explicar a sintonia fina da tradicional imprensa brasileira nos grandes temas políticos e nos enormes interesses econômico-financeiros, que são o desdobramento natural da disputa política. Sim, o discurso político ganha concretude na economia e nos negócios. Essa sintonia ideológica da imprensa brasileira é histórica, vem de longe, é contínua, mostra sempre os mesmos princípios e valores (ou a falta deles). Em outras palavras: a grande imprensa trabalha unida, e forma rápida e facilmente consensos em ‘petit comité’.

O Poder Judiciário tem também tendências, direcionamentos e ritmos próprios. Administrar esses vieses de preferências e empatias nas decisões e gerir no cotidiano a velocidade do processo de aplicação da Justiça costuma ser a forma suficiente de colocar-se em afinidade com o que dele esperam as figuras e instituições articuladas em manter a ‘previsibilidade’ e confirmar as ‘expectativas racionais’.

A presidência da República tem o poder do orçamento, o poder da máquina administrativa e o poder de polícia, entre outros menos citáveis. O presidente eleito costuma ter excepcional legitimidade – concentra numa pessoa muitos votos. É a figura máxima do Poder Executivo e o responsável por (digamos) tomar a iniciativa, agir. Idealmente, a iniciativa e a ação deveriam ser em busca do avanço e da melhoria da qualidade de vida das maiorias.Não costuma ser.

A estes quatro poderes, um novo se somou, o ‘mercado’, com ou sem aspas. Certamente, essa instituição (de constituição e formato incertos) sempre existiu, mas no passado foi mais discreto. Suas intenções e seus interesses eram colocados e defendidos de maneira indireta. E sua ação de lobby e pressão sempre foi mais discreta, porque submetia-se a alcançar os resultados de forma paciente e sutil. Hoje tudo se faz de maneira mais aberta, impaciente.

As redes eletrônicas, que se dizem sociais, prometiam a democratização da informação – todos poderiam falar com todos, a custo zero ou tendente a zero, todos poderiam ser editores e ter audiência global. Esta seria uma instância de poder popular, o grande contrapoder. Todos íamos ler mais e melhor, escrever mais e melhor e ver e ouvir mais e melhor. Nem se passaram duas décadas e a internet já é mais comercial, mais concentrada e mais segmentada que os veículos de comunicação mais tradicionais. Estamos todos jogados em guetos, lendo a verdade, a mentira, o absurdo e a grosseria. Tornamo-nos intolerantes, apressados e superficiais. Aderimos facilmente ao erro e ao falso. E tudo dento do discurso do mérito e da livre escolha.

Nos últimos três anos o Brasil foi colocado de cabeça para baixo, posto ao contrário e virado ao avesso. Os poderes deixaram de ser independentes e se tornaram majoritariamente parceiros (harmônicos?) de um mesmo projeto, que foi executado (e não era colocar um jabuti na árvore), jogando por terra a ideia de pesos e contrapesos, tão cara à democracia. A verdade foi relativizada. O falso e o verdadeiro se confundem, explicitamente, propositalmente. A política não tem mais força para mediar, o Congresso não tem ideias, nem palavras, nem líderes, e corre o risco de virar uma instituição carimbadora de decisões tomadas Deus abe onde e por quem. A Justiça, por vários de seus membros, arranhou várias vezes o cristal mínimo de sua autoridade, fugiu ao equilíbrio, apaixonou-se. E tudo fez sem cuidar de manter as aparências. A imprensa viu cair sua audiência, enfraquecer a sua força e quase zerar a sua capacidade de mediar o grande jogo, ao manipular excessivamente a sua função de esfera pública. Nesses três anos, todos dizem, para o bem e para o mal, as instituições estão funcionando.

Está difícil dar garantias de que alguma coisa que se diz hoje é verdade e não ‘fake news’. Diga: em que você acredita?

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

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