A mãe de todas as ‘fake news’ – Parte 2 – por Osvaldo Euclides

Em 1982,numa campanha política, um repórter perguntou a Lula de forma direta: ‘Você é comunista?”. Lula respondeu de bate-pronto, apesar da surpresa: “Sou torneiro mecânico”. Há quarenta anos, ser ‘comunista’ era, para dizer o menos,  um perigo, uma ameaça.

Em 1989, Lula disputando a presidência contra Fernando Collor, o então poderosíssimo presidente da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) forneceu a manchete dos grandes jornais: “se Lula for eleito pelo menos 800 mil empresários deixarão o Brasil”. Na véspera da votação, as autoridades paulistas de segurança mandaram os sequestradores do empresário Abílio Diniz vestirem camisas vermelhas para serem apresentados à imprensa. E a TV Globo fez uma edição do debate final Collor x Lula que deixou Lula muito mal e Collor muito bem.

Depois de eleito presidente pela primeira vez, em 2002, Lula fez uma visita ao jornal paulistano Folha de S. Paulo, onde foi recebido com frieza pelo editor, o jornalista Octavio Frias Filho, que realmente não simpatizava com o petista. Consta que depois de algum tempo calado, Frias Filho teria perguntado cruelmente: como alguém pode querer ser presidente sem ter formação superior? Lula, calado estava, calado ficou. Minutos depois, o mesmo Frias teria feito outra pergunta: ‘como alguém pode ser presidente sem falar inglês?’. Lula levantou-se e foi embora, seguido apenas pelo Frias de Oliveira, o pai.

Em setembro de 2008, a Folha faz um editorial avaliando o desempenho de Lula quase ao fim do sexto ano dos oito de seu mandato. O título é “Fortuna e Virtu”. Trechos selecionados: “Crescimento econômico, redução da desigualdade de renda, controle da inflação. Uma rara confluência de fatores positivos … Lula tem muito a agradecer, por certo, ao concurso da ‘fortuna’ – e a descoberta de grandes reservas de petróleo no oceano, abaixo da camada de sal, parece mais uma vez confirmar… ‘virtu’, noção difícil de definir, mistura de audácia e de oportunismo, de cálculo e de instinto, não faltaram ao presidente condições de demonstrá-la…Lula teve o mérito de contribuir para um ambiente de segurança econômica que, antes de sua posse em 2003, nenhum observador se dispunha a prognosticar…fundamentos econômicos mais sólidos, além de uma maturidade institucional mais nítida, tendem a colocar o país diante de expectativas menos sombrias…”. Imaginem o ‘cruel’ Frias Filho aprovando cada palavra deste editorial.

No segundo trimestre de 2013, já no terceiro ano de Dilma Roussef, o economista Mailson da Nóbrega coordenou a produção de um documentário de avaliação sobre a economia brasileira. Mailson é um insuspeito e emplumado anti-PT. E convidou para dar depoimentos sete ex-presidentes do Banco Central do Brasil, doze ex-ministros de Estado e três ex-presidentes da República. Pode ser visto no You Tube. Sabe qual é o sugestivo título: “O Brasil deu certo. E agora”. Para aqueles que, consciente ou inconscientemente, odeiam o PT, este filme é definitivamente esclarecedor.

Lula, o PT e Dilma Roussef cometeram erros, mas não afundaram o país, não foram arquitetos de nenhum desastre econômico-financeiro e sua gestão não é culpada de estarmos onde e como estamos. Pelo contrário. Erraram mais e gravemente pelo que não fizerem – e essa lista, sim, é dramática. Mas essa pauta não atrai as redações.

A grande e tradicional imprensa sempre se colocou como adversária direta de todo e qualquer partido trabalhista, assim como se colocou simpática aos partidos ditos liberais, o que é uma escolha que têm o direito de fazer, se respeitarem as boas regras do bom jornalismo. O que não cabe é dizer que banana é laranja e abacate é tangerina, e que os quatro são iguais, frutos da polarização e do extremismo.

Qualquer que seja o resultado da eleição que acontece amanhã, nem o jornalismo, nem a imprensa, nem as redes ditais sociais sairão dela acreditadas e fortalecidas, e Lula e o PT não terão sido destruídos.

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

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