Lula e a nova Rota da Seda

“A desvalorização do mundo humano aumenta em proporção direta com a valorização do mundo das coisas”.

Karl Marx

Sempre fico a me perguntar se Mao Tse Tung, que tinha o Josef Stalin como exemplo de pragmatismo pretensamente comunista a ser seguido, diria ao constatar que sua revolução armada contra os nacionalistas de Chiang Kai-Shek, ao invés de superar as categorias capitalistas, iria aprofundá-las no capitalismo mais selvagem do Planeta Terra e com isto solapar o próprio capitalismo sob o qual o país dos Mandarins e com Deng Xiaoping desde 1976 estaria envolvido.

A nova rota da seda chinesa, ou belt and road iniciative, na tradução em inglês, é uma tentativa do capitalismo chinês de sobreviver a partir da tentativa de alcançar uma hegemonia capitalista mundial para fazer face ao natural e presente emperramento do crescimento do seu Produto Interno Bruto, causado pelo inevitável limite interno da expansão da forma valor, e com isto poder tornar solvável a sua proibitiva dívida pública e privada que ascende a quase 300% deste indicador econômico sobre o qual incidem juros de 2,75% a 3,00% ao ano em dólar dos Estados Unidos.

Para pagar os juros sobre uma dívida colossal calculada em US$ 51,8 trilhões de dólares, que corresponde a cerca de US$ 1,5 trilhões, ou R$ 7,5 trilhões, ou seja, valor correspondente a pouco mais do PIB anual do Brasil, há que haver lucros empresariais capazes de aguentar a remuneração ao capital internacional globalizado.  

A economia chinesa (como de resto a economia no mundo ocidental) que parece portentosa em termos econômico, na verdade é um grande Titanic indo ao encontro do iceberg capaz de furar o seu casco e fazê-la naufragar irremediavelmente.

A China procura expandir os seus negócios capitalistas nas regiões a partir da Rússia; na Ásia Maior e Menor; da América latina, como agora com o Uruguai, Argentina e Brasil, como forma de criar laços capitalistas tão volumosos que possam causar uma relação de recíproca dependência capitalista mundial ao sistema financeiro internacional capaz de inverter a cara exigência de remuneração cobrada por este mesmo capital bancário globalizado à própria China (enquanto o Japão rola sua dívida com juros negativos, à China são cobrados juros extorsivos).

Paradoxalmente, porque o capitalismo não sobreviverá ao avanço tecnológico aplicado à produção de mercadorias, a China vem desenvolvendo avanços tecnológicos nas áreas da comunicação eletrônica e robótica que ao mesmo tempo em que lhe oferece grandes oportunidades de negócios, cria a substituição acelerada e substancial do trabalho abstrato, único produtor de valor que é a base de sustentação da economia capitalista na qual está inserida.

Como dizia Karl Marx, o capitalismo cava a sua própria sepultura, e os chineses, na sua tentativa desesperada de sobrevivência dentro da lógica capitalista, ao invés de tentar superá-la, está cada vez mais dentro do Titanic, e continua a tocar a música antes do naufrágio, tal como fizeram os músicos naquela tragédia marítima do início de século 20.  

A velha China agrícola deu lugar a um processo de industrialização urbana com os ganhos e prejuízos inerentes ao processo de desenvolvimento do capital e de sua lógica autotélica. De um modo geral a milenar miséria chinesa da época dos Mandarins deu lugar a uma nova configuração de classes sociais próprias ao capitalismo no qual se formam ilhas de riqueza rodeadas de pobreza.  

A renda per capita chinesa é hoje equivalente à renda per capital brasileira, situada em torno de US$ 12,500,00, com alguns milhares de bilionários empresariais em contrates com a vida de operários que trabalham num regime de produção de valor próprio à rígida disciplina e obediência cultural chinesa à hierarquia administrativa, com baixos salários que promovem a vitória dos seus produtos na guerra concorrencial da economia de mercado internacional.  

Para entrar no mercado mundial a China desenvolveu o aprendizado do saber tecnológico destrinchando as estruturas de hardwares e softwares, para somente depois, pelo uso reiterado da imitação, chegar a uma produção tecnológica mais esmerada a partir de sua própria criatividade.  

O envio de chineses para universidades do exterior (Deng Xiaoping é fruto do início desse processo de apreensão do saber fora da China, já que estudou em Moscou, em 1926, antes da revolução chinesa a qual se integrou) foi e ainda é parte deste processo cognitivo industrial que tem proporcionado o desenvolvimento em diversos campos do saber, como nas seguintes áreas:

– da tecnologia da informação cibernética e de satélites (adaptadas à terceira revolução industrial microeletrônica, inclusive com a criação do LIFI, um novo tipo de comunicação superior ao WIFI);

– da biotecnologia, com a indústria farmacêutica (a vacina contra a civid19 é bom exemplo desta última faceta industrial chinesa);

– da produção de energias limpas (eólica e fotovoltaica) e mecânica (os carros elétricos chineses).

Este processo denominado de engenharia reversa de imitação já ficou para trás dando lugar ao avanço da criatividade industrial chinesa no campo da telecomunicação que em muitos casos supera aquela conhecida no mundo capitalista ocidental.  

A China investiu em pesquisa tecnológica cerca de US$ 344 bilhões, e para se ter uma ideia do que isto representa basta considerarmos que a União Europeia e seus 28 países investiu cifra inferior à chinesa (dados de 2014 da OCDE).

Mas a China, em que pese os seus esforços ecológicos, ainda é um dos maiores emissores de CO² na atmosfera, fato que se reflete na poluição atmosférica em várias das suas cidades industriais, e seu padrão salarial baixo em ternos coletivos, não permite a aquisição da casa própria face aos juros altos, o que tem causado graves problemas no setor imobiliário, como ocorreu com a quebra da gigante Evergrande, segunda maior empresa imobiliária do país, e dos imensos conjuntos habitacionais desocupados e construídos com dívida imobiliária, e que estão à espera de compradores habilitados ao pagamento da aquisição que não aparecem.  

A China se expande economicamente com suas exportações não apenas nos setores antes referidos, mas, também, na construção de infraestrutura como estradas, usinas elétricas, e grandes obras da construção civil, como se pode inferior dos seus investimentos em obras na África a partir de empresas chinesas ou empresas locais por eles financiadas.  

Este é um espaço capitalista que vinha sendo modestamente perseguido pelos governos de Lula e Dilma e que foram sobrestados pelos escândalos da Lava-jato envolvendo empresas e agentes públicos daqui e de lá.  

A guerra monetária capitalista em curso – quem detém hegemonia de moeda fiduciária na economia capitalista dita as regras do jogo.

Como sabermos, desde Bretton Woods, em New Hampshire, em 1944, com a segunda guerra mundial definida em favor dos aliados e com os Estados

Unidos com sua infraestrutura industrial incólume, o dólar estadunidense foi considerado como moeda internacional.

  Até 1971 as moedas eram lastreadas em ouro. Entretanto, como as moedas hoje são fiduciárias, a emissão desvinculada do valor que deveria representar, é a causa de termos, hoje, uma grande e proibitiva soma de circulação de moeda sem valor mundo afora, que não causam inflação aos seus emissores, mas provocam uma anomalia de reservas cambiais sem substância de valor que mais cedo ou mais tarde provocará um colapso internacional financeiro na hora da verdade.

A dívida mundial crescente dos governos já atinge cerca de US$ 300 trilhões, conforme dados do IIF – Institute of International Finance, e representa cerca de 225% do PIB mundial, tornando-se impagável se considerarmos os níveis de capacidade de geração de lucros dos países devedores.  

Tal fenômeno representa um impasse econômico sem precedentes e acarretará num futuro próximo um colapso monetário quando tanto as reservas cambiais acumuladas pelos países, como as suas dívidas representarem tão somente para os credores rentista um título de crédito de um devedor falido e insolvente.  

Esta bomba vai estourar no colo dos rentistas e do sistema financeiro internacional, que já demonstra fragilidade com a quebra de alguns bancos vez ou outra que ainda estão sendo passíveis de socorro, mas que quando a avalanche ocorrer isto não será mais possível.  

A china tem reservas monetárias em dólar americano num montante de cerca de US$ 3 trilhões, para uma dívida de US$ acima de US$ 50 trilhões, o que significa que precisa gerar lucros para conservar a credibilidade seu crescimento econômico e capacidade de solver o serviço da dívida que, como vimos, é equivalente a cerca 50% de todas as suas reservas cambiais.  

Entretanto, tanto as reservas cambiais chinesas como sua dívida, nada significarão para a economia global no momento do colapso final claramente previsível, mas escamoteado pelo otimismo infundado dos analistas econômicos atrelados à ordem capitalista de onde tiram seu sustento.    

Assim, a investida chinesa de criar uma vida monetária paralela ao dólar estadunidense, a partir do yuan, ou  renminbi (RBM), nome oficial da moeda chinesa, é algo vital para sua sustentabilidade e independência financeira, bem como para o seu crescimento a partir de relações com países que adotem negociações sob tal critério financeiro.  

Registre-se que o crescimento do PIB chinês anda enfraquecido por conta de vários fatores conjunturais (a pandemia foi um deles), mas tem como principal fator a incapacidade de consumo que é delimitada pelo poder de compra da população mundial e pela própria necessidade de consumo desta (ninguém usa dois sapatos por vez).

A necessidade de crescimento da produção de valor obedece a um critério ad infinitum, mas a capacidade de consumo é definida pelos fatores acima expostos, e isto se constitui como uma equação irresolúvel para o mundo capitalista e seu dilema existencial lógico.  

Não é por menos que a China tenta atrelar as suas relações financeiras ao China Interbank Payment System, alternativa chinesa ao Ocidental Swift, que conecta milhares de instituições financeiras mundo afora, paras, assim, livra-se (pelo menos num primeiro momento) dos grilhões monetários do ocidente capitalista com o qual disputa hegemonia com as mesmas armas.  

O governo brasileiro acaba de assinar acordo para fazer parte deste sistema chinês e adotar a moeda chinesa como forma de pagamento de suas exportações e importações, o que deverá incomodar os Estados Unidos, apesar de que isto não representa muito financeiramente, se considerarmos que o dólar estadunidense corresponde a 88% das transações cambiais do mundo, e o Brasil é peixe pequeno neste campo da riqueza abstrata (valor), ainda que seja importante geopoliticamente.    

Lula, tal como a China, tenta desesperadamente encontrar alternativas para o crescimento econômico sem o qual sua popularidade desabará e isto poderá representar no médio prazo um fortalecimento da elitista direita brasileira que demonstrou força no último pleito eleitoral.  

Mas o capitalismo é uma guerra concorrencial de mercado, e nele não há parceiros generosos, mas sempre alguém que quer levar vantagens (como diria a Lei do Gerson, numa antiga propaganda), e num mundo em depressão a melhor alternativa seria uma nova relação social, sem a hipocrisia das relações internacionais capitalistas, mas com a solidez de relações sociais contributivas transnacionais e ecologicamente sustentáveis.

Os líderes mundiais buscam no incremento da forma valor a solução dos seus problemas tal qual um viciado busca na droga o alívio do mal que o aflige.  

Querer uma virada de chave brasileira seria querer demais de um Lula, que tal qual Xi Jinping, acredita na possibilidade da prosperidade linear capitalista.  

O pior cego é o que não quer ver.  

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;