John Wick: E o exercício da microfísica no filme de ação

O cinema de ação, antes mesmo de ser pensado como gênero, pode ser refletido como um universo microfísico. E essa reflexão nos leva a um posicionamento de quem olha para o filme não somente como produto classificatório numa escala genérica, mas a partir do olhar onde a síntese parte como pressuposto da coerência de uma obra. E foi com base nessa premissa que Chad Stahelski e David Leitch realizaram seu exitoso John Wick (2014).

Afora seu terrível título em português, uma vez que por aqui o longa se chamou “De volta ao jogo”, o longa concentra em sua gênese uma série de elementos que o colocam numa escala onde já habitam trabalhos como a franquia de James Bond na era Daniel Craig (2005-2015) ou em trabalhos menos ambiciosos como “O Protetor” (2014).

Aqui, a dupla de realizadores consegue unir códigos universais de gênero somados ao trato de uma estória contada fluidamente. Após a morte da esposa, o assassino de aluguel Jonh Wick decide se aposentar e vive uma vida em reclusão. Após um incidente com um grupo de mafiosos, no entanto, ele decide retornar à sua antiga vida travando uma verdadeira cruzada contra o homem que roubara seu carro e assassinara sua cadela de estimação.

 

Chad Stahelski e David Leitch conseguem unir códigos universais de gênero somados ao trato de uma estória contada fluidamente

A síntese e objetividade são tópicos-base do longa. E é interessante percebermos como os elementos detonantes das motivações do protagonista são também a base na qual o próprio filme se desenrola. Em sua 1 hora e 40 minutos de duração, a obra avança em curso sem digressões ou quebras de ritmo. Fruto perceptível de uma montagem bem executada.

E aí falamos de uma série de elipses que trazem ao trabalho uma enxuta caracterização na dispensa de tudo o que não é necessário na sua execução. Não precisamos conhecer e história de John com a falecida esposa. Ou numa esfera mais técnica, os flashbacks de sua memória. O que por sua vez só desembocariam num tom fadado dos não eficientes melodramas.

E a eficiência é certamente um dos traços mais fortes do filme. A ação é a matéria-prima de um trabalho de gênero. E já que o excesso nesses casos se torna o verdadeiro vazio da narrativa fílmica, a dupla de diretores miram nesse agir enquanto técnica.

Ou seja, seus personagens reagem dentro de uma lógica de causa e efeito e isso é levado também para dentro da obra enquanto argumento no processo artístico. Eles não precisam ser rasos por serem criação de um longa de gênero. Sim, eles obedecem códigos universais como a vingança e o não recuo ante a provocação da moral.

Nesse caso, é interessante vermos que é em consequência do sentido desses verossímeis, esses caracteres não se curvam ante qualquer risco da descaracterização da estereotipia que o próprio gênero cria entre si. Eles seguem um código. Os diálogos dispensam as desnecessárias “piadinhas” que sugerem sempre um ar de superficialidade que despontecializam tantos trabalhos do gênero ação. Não há mocinha para que John venha a salvar na horrível construção da lógica do Star System americano.


OS personagens reagem dentro de uma lógica de causa e efeito e isso é levado para dentro da obra enquanto argumento no processo artístico

Jonh Wick é um filme sobre violência. E de como ela está amarrada à condição do homem que por ela se envolve. Tudo isso, obviamente, não se apresenta por meio de um pano de fundo sociológico.

Mas é parte da construção fílmica de uma obra que tranquilamente pode ser tomada como o descompromissado exercício do “grau zero” da percepção audiovisual. Ou seja, da apreciação que parte de um olhar despretensioso em termos de análise mas que subsequentemente pode se desenvolver e tornar-se mais complexificado à medida que a experiência da apreciação fílmica vai se transfigurando por parte do espectador.

Assim sendo, é por essa e por outra dúzia de razões que o longa pode sim ser tomado como um novo clássico do cinema de ação de nosso tempo. 

 

FICHA TÉCNICA

Título Original: John Wick

Tempo de Duração: 110 minutos

Ano de Lançamento (EUA): 2014

Gênero: Ação, Thriller

Direção: Chad Stahelski e David Leitch

 

Daniel Araújo

Daniel Araújo

Jornalista, graduado em Comunicação Social (Jornalismo), Realizador em Cinema e Audiovisual pela Escola Pública de Audiovisual - Vila das Artes e colunista do Sala de Cinema no site Segunda Opinião.

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