“Jair, eu confio em vós: o catolicionarismo em ação”

Tarde de sábado, 18 de abril. No calendário do catolicismo romano, sétimo dia da “Oitava da Páscoa”; mas também, desde o final do pontificado de João Paulo II, era a véspera do “domingo da misericórdia”.

Para um grupo de católicos, porém, era o momento de usar a devoção à “Jesus misericordioso” como disfarce para externar a devoção a outro messias, o Jair.

Uma live publicada nas redes sociais do presidente, neste sábado, nos permitiu ver esse (barulhento) grupo a saudar o messias terreno, tão logo apareceu, com um estridente “viva jesus Cristo misericordioso!”. Não dá pra saber, de fato, a qual Messias (que também é outro nome de Jesus) eles estavam a saudar.

Para não deixar dúvidas, na mesma série de gritos se escuta um “viva o nosso presidente!”

Logo depois se observa a repetição da jaculatória propagada pela devoção à “misericórdia divina”: “Jesus, eu confio em vós”.

Diante do mito, a reafirmação da confiança em Jesus. Mas, será mesmo em Jesus que eles estavam a proclamar a confiança?

“Ei, ei, ei, Jesus é nosso rei!”, ouvimos.

“Inha, inha, inha, Maria é rainha!”, ensaiaram, sem sucesso, alguns. Devia ser alguns desavisados que esqueceram que mulher, no bolsonarismo, é apenas fraqueza.

O grupo era pequeno, mas barulhento o bastante para servir como “voz das ruas” para o mito.

Depois de ensaiarem a suposta exposição da fé católica, vem a revelação: “ô Bolsonaro, cadê você, eu vim aqui só pra te ver”. Pronto, revelada a intenção. Jesus, o misericordioso, era apenas instrumento para se cultuar o outro, odiento.

Para “ver Bolsonaro” vale tudo, até usar a fé no Cristo. Vale, mesmo, fazê-lo assumir o lugar do Messias, com M maiúsculo.

Ao fundo se escuta um pai-nosso e uma ave-maria, antes dos gritos de amor e entrega ao líder.

Aos poucos o “ei, ei,ei” foi suplantando por outro grito, mais verdadeiro: “ente, ente, ente, Bolsonaro é nosso presidente!”.

Bingo! É esse o clamor de suas almas: a devoção a este messias, não ao outro.

“Estamos com o senhor até o fim”, diz uma mulher.

Parece ter mudado o conselho de Jesus, de permanecer, com Ele, até o fim; importa, agora, ser fiel a Jair.

O terço da misericórdia, propagador da festa da misericórdia, faz católicos repetirem: “pela sua dolorosa paixão, tende misericórdia de nós e do mundo inteiro”. Não demorará até que esses sujeitos mudem a oração, e clamem: “pela sua dolorosa facada, tende misericórdia do Brasil e do mundo todo”.

Por isso, já trocaram, em seu íntimo, o “Jesus, eu confio em vós” pelo “Jair, eu confio em vós”.

Jair não fez o mínimo gesto de devoção ao receber um quadro com a imagem de Jesus misericordioso; apenas ergueu-a, sabedor que era dos efeitos midiáticos do ato.

“Viva nosso messias”, disse uma mulher, enquanto outra completa chamando-o de “nosso Josué”, “nós somos seu exército”.

Na semana anterior, um grupo de carismáticos, da Canção Nova, também tratou de dirigir-se à Brasília para adorar o salvador. Também não fez questão de nenhum cumprimento de devoção à imagem de Fátima que estes traziam.

Desenha-se, assim, um novo ramo do catolicismo: aquele que adora Bolsonaro em vez da Trindade, o catolicionarismo.

Vai ficando claro slogan “deus acima de tudo”; para alguns, é Jair esse deus, cuja vontade paira acima de tudo, sobretudo das instituições.

Emanuel Freitas

Professor Assistente de Teoria Política Coordenador do Curso de Ciências Sociais FACEDI/UECE Pesquisador do NERPO (Núcleo de Estudos em Religião e Política)-UFC e do LEPEM (Labortatório de Estudos de Processos Eleitorais e Mídia)