Jair Bolsonaro representa o povo brasileiro?

Vi recentemente no facebook um texto que me deixou intrigado. O autor refletia sobre os motivos da razoável popularidade de Jair Bolsonaro.Sua popularidade, dizia o texto, se dava pelo fato do presidente espelhar as ações e sentimentos da maioria da população.Nós brasileiros, ainda presos numa mentalidade do século XVII, somos preconceituosos e intolerantes; não aceitamos a autonomia e empoderamento das mulheres ,a sexualidade de integrantes da comunidade LGBTQI+, além de sermos recorrentes no crime do racismo. Como o capitão do planalto representa estas tendências magistralmente, se orgulhando disso, o povão se sente identificado com o mandatário. Não raro vemos seus apoiadores afirmando que o mito ”fala a verdade” é ”gente como a gente” e não existe outro político assim.

 A discussão sobre a formação do Brasil e da sua gente fazem parte de importantes discussões no campo das Ciências Sociais.Autores clássicos e contemporâneos da sociologia brasileira refletem sobre constituição da nação e do povo tupiniquim.Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil(1936) trata  do homem cordial como o retrato do brasileiro, que emaranhado em um círculo familiar provinciano, é mais passionais e emotivo, estranhando a razão abstrata, dando base para casos de violência e autoritarismo, com a sociabilidade moderna e democrática sendo apenas um mau entendido.Gilberto Freyre, em Casa-grande e Senzala(1933), analiza a colonização portuguesa com doses de idealismo, postulando sobre o equilíbrio entre os contrários(senhores e escravos, latifundiários e trabalhadores vivendo em uma harmonia moderada) e o hibridismo cultural fruto da mistura das raças como a vantagem do Brasil perante o mundo, dando munição bibliográfica para os defensores da diversidade racial brasileira.
No seu Formação do Brasil contemporâneo(1942) Caio Prado Júnior destaca a lógica do Brasil Colônia como mola fundamental de entendimento da realidade nacional pós independência,ressaltando como que por estas terras a dominação colonial nunca bateu em retirada completamente. Por essa via não é difícil entender o quanto que nossa vida social continua tão arcaica e perniciosa, explicando como um certo político fala coisas como ”o índio agora quer viver como ser humano normal”.Raymundo Faoro (Os donos do poder,1958) disserta sobre o estamento burocrático, suas origens portuguesas e ramificações na vida pública brasileira, ensejando uma interpretação sobre como o patrimonialismo ao se apropriar do público por vias privadas cria uma ética corrupta e antidemocrática nos corações e mentes do povo,que naturaliza sem peso na consciência a trapaça mais comezinha como subornar o funcionário do Detran para que seu filho tire logo a carteira de motorista. Jessé de Souza, com a verve de polemista que descobre a roda, critica todas estas interpretações em obras como Elite do Atraso(2017) e A tolice da inteligência brasileira(2015) colocando a problemática da desigualdade e da exploração econômica como central para entender o modo de pensar e agir das pessoas deste lado do mundo, que por estas e outras naturaliza a barbárie social contra  pobres e desprivilegiados.
 Com a crise econômica e a derrocada política do PT de 2015 para cá, grupos de extrema direita tiveram uma ressonância avassaladora por aqui.Youtubers e colunistas de jornais e blogs influenciados por Olavo de carvalho e sites como Misesbrasil ocuparam com virulência o espaço das redes sociais resultando em uma profusão de pessoas que se identificam com a direita, moderada e extrema. Entretanto  uma  leitura crítica e aprofundada dos textos clássicos conservadores e liberais muitas vezes não é feita pelos postulantes ao rótulo, o debate teórico levantado pelos autores é simplificado e manipulado por grupos  como MBL, anarcocapitalistas, monarquistas e apoiadores do já citado guru da Virginia e etc. Assim, alguém que se rotula como ”conservador” ou ”liberal” em muitos casos não possui arcabouço teórico para se firmar como tal, e sabendo ou não é manipulado a repetir mantras dos grupos acima mencionados. Por incrível que pareça, a ignorância ganhou ares literários de uns anos para cá.
A boçalidade, autoritarismo e a intolerância com o outro é algo que sempre existiu por estas bandas.Com a difusão da direita bruta mais pessoas foram contaminadas com o vírus da estupidez orgulhosa tão bem ostentadas por bolsonaristas. Estas tendências não contemplam a realidade da maioria da população, apenas sua  parte tosca.Sem querer cair no sentimentalismo, vimos muitas provas de bondade e consciência neste momento da pandemia como jovens ajudando idosos a fazerem as compras, solidariedade com pessoas em vulnerabilidade social e etc.O espirito nacional não pode ser reduzido a sua franja mais podre e histérica. O que não quer dizer que temos que abandonar uma abordagem crítica de nossas contradições, sem perder a sensibilidade e os pés no chão.
Gilvan Mendes Ferreira

Gilvan Mendes Ferreira

Graduando em Ciências Sociais pela Universidade Estadual do Ceará.Com interesse nas áreas de Teoria Política , Democracia e Partidos Políticos.

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