Inocência? Por Luana Monteiro

 

É interessante como a inocência, um sentimento pueril, habita naqueles que se recusam acreditar no rumo que a política brasileira está tomando. Inocência não em um sentido depreciativo, mas um sentimento que reflete a benevolência daquele que fala. Digo isso pensando nos ocorridos mais recentes em nosso país.

Primeiro e segundo turno das eleições presidenciais aconteceram e trouxeram às claras uma realidade até há pouco obscurecida em nossa sociedade: a de que o brasileiro é um povo preconceituoso, segregacionista, racista, misógino, violento e inconsistente.

O povo caracterizado pelo “racismo estrutural”, e isso é facilmente estendido a outros preconceitos, e pela cordialidade mortificante que esbraveja – sempre que necessário – a máxima: “política, futebol e religião não se discutem”. Reúne-se em um único ser a incapacidade de pensar criticamente a sociedade e suas implicações com a justificativa de que realmente não é preciso questionar o social, porque afinal são questões tão pessoais, não é mesmo?

Como aluna proveniente do ensino público que sou e conhecendo um pouco as condições estruturais e intelectuais de uma escola pública estadual cearense, sempre me questionava acerca da realidade nas escolas públicas nos outros estados, quando via que o ensino cearense ocupava as primeiras posições nos índices de qualidade do país. Se a minha realidade não era favorável, eu me colocava a pensar na situação dos demais brasileiros.

Sem sombra de dúvidas, a ignorância generalizada sobre a história do próprio país é um fator decisivo para a eleição de um indivíduo que menospreza os processos político-sociais vivenciados até hoje e que preza sobretudo pelo autoritarismo como medida de gestão pública.

Partindo dessas prerrogativas eu mesma me senti impelida a tratar de questões que são cruciais para o entendimento do regime democrático e por que sua ameaça não se configuraria em um bom cenário para a maioria da população. Até perceber, finalmente, em minhas investidas, que aqueles com quem eu tentava falar não só não sabiam, como não se importavam. Se comportavam como se tudo aquilo parecesse distante demais e não coubesse na realidade palpável do cotidiano. “Eles continuam sem entender”, pensava então. Ou “eu ainda não fui tão clara”.

Comecei a me questionar de onde vinha a lógica autossuficiente capaz de explicar a realidade para aquelas pessoas. Busquei, então, nos Estudos Culturais e no Interacionismo Simbólico[1] um caminho capaz de explicar a organização racional da população. Isso porque o caminho de entendimento passa principalmente pelo conhecimento dos valores e dos sentidos atribuídos pelos indivíduos no ato do processo de socialização. Levando em consideração também a tríplice que norteava tais pesquisas: as relações entre cultura, história e sociedade. Em síntese, tais correntes contribuem para que visualizemos a cultura como resultante de processos de intervenções ativas, que não possui um único direcionamento. A história, como resultado, pode ser transmitida, mortificada, esquecida ou mesmo ressignificada.

Em tempos onde a própria verdade é desafiada com declarações públicas que depois são desmentidas, não fica difícil imaginar como as diferentes associações entre os indivíduos é capaz de gerar múltiplas significações para uma mesma realidade. A questão que me ponho a pensar nesse momento é: que tipo de informação tem alimentado as verdades defendidas por esses grupos sociais? Em sua maioria opiniões que passam a ocupar o lugar dos fatos.

Continuo ainda tentando entender quais elementos estão por detrás do pensamento do senso comum. Podemos afirmar que pauta-se sobretudo em defesas autoexplicativas, na análise imediata dos fatos – nunca uma análise dos pressupostos, mas das evidências –  e acima de tudo pautado na emoção.

Isso mostra como o senso comum não significa o vazio total de ideias, mas a realidade analisada de modo diferente. Uma mesma pessoa que não consegue explicar o “crime” cometido por Dilma Rousseff que levou ao seu processo de impeachment, teria argumentos para explicar porque ela mereceu ou não perder o cargo de presidência ou mesmo conseguiria expressar algum tipo de sentimento em relação ao ocorrido.

Essa argumentação me leva à conclusão: o apoio demonstrado ao então presidente fascista não é justificado apenas pela incapacidade de leitura da realidade brasileira, mas por um viés autoritário e segregacionista que baliza os discursos desses indivíduos.

Existe aí, então, uma auto identificação entre aqueles que acham que a mulher é burra, que os nordestinos são inferiores, que negros moram na favela porque são bandidos, que educação se faz jogando a história do país no lixo, que bandido bom é bandido morto, mas não expressam isso diretamente porque sabem que podem sofrer as consequências por crimes de racismo, assédio ou feminicídio. Essas mesmas pessoas agora possuem um ídolo, uma pessoa que fala todos os tipos de atrocidades em entrevistas gravadas, mas que não sofre consequência nenhuma pelos seus atos. E esse mesmo indivíduo promete sua própria liberdade aos demais quando afirma que o Estado não é laico, que mulheres devem receber menos e que se expressar ideologicamente é crime.

Não estamos falando de eleitores que desconhecem seu candidato, estamos falando de pessoas que encontraram um espelho e que acreditam piamente na defesa desse indivíduo que promete o fim da violência com mais violência. Não é crível, portanto, achar que essas pessoas estão perdidas em meio a desinformação. Uma ideia fascista ganha corpo por ser bem aceita. O candidato eleito não usa de nenhuma metáfora, meias palavras ou artimanhas para tentar dificultar seu discurso, acredito que ele não possua essa sutil capacidade. O seu discurso é direto, seus preconceitos são claros, assim como seu modus operandi. Não existe inocência nessa história, exceto daqueles que se recusam enxergar a crueldade dos nossos concidadãos.

Luana Monteiro.

[1] Correntes de pensamento de origem inglesa e norte-americana que buscam na interação entre os indivíduos a chave de compreensão para os aspectos culturais da sociedade.

Luana Monteiro

Cientista social, mestre em Sociologia (UECE) e pesquisadora.