Indignação, só depois da privatização

O Choque do Petróleo abalou as finanças de grande número de países na segunda metade dos anos 1970, drama que se arrastou pelos anos 1980, em forma de inflação, baixo crescimento e endividamento. Os anos 1980 acabaram virando a Década Perdida. Os preços do petróleo quadruplicaram, a dependência desse óleo era quase total e a inflação casada com recessão (a tal estagflação) desorganizou quase tudo, quase todos. O Brasil literalmente quebrou. Não tinha produção própria de petróleo (só produzia um quinto de suas necessidades), não tinha dólares para comprar, por isso endividou-se em dólar e em cruzeiros. Dívida Externa e Dívida Interna explodiram. E tome inflação e baixo crescimento. Nesse contexto e nessas circunstâncias, os militares começaram a abertura e a devolução do país a seu regime democrático.

Importa lembrar que o Choque do Petróleo acontece depois das três décadas de ouro, assim chamados os trinta anos que se passaram entre 1945 e 1975. Historiadores dizem que a Segunda Guerra ocorreu porque a Primeira Guerra foi mal resolvida. Declarada a paz, os acordos foram feitos para purgar pecados e punir pecadores, e não para construir o futuro. Ao selar a paz em 1945, a atitude foi outra. Construiu-se o futuro em cima de uma visão de democracia, liberdade e prosperidade para todos. Nos quatro continentes, projetos de desenvolvimento foram lançados com recursos fartos, financiamento adequado, criando riqueza (a especulação financeira não era prioridade), o investimento era produtivo, criava-se emprego e renda, o empresário prosperava, o trabalhador melhorava de vida. Os EUA financiaram a recuperação e a reconstrução da Europa e do Japão, o progresso espalhou-se.

O Brasil desenvolveu-se vigorosamente nesse período. Era o tal projeto nacional-desenvolvimentista, para o qual Getúlio Vargas e Jucelino Kubitschek deram enorme contribuição e, entre os militares, Ernesto Geisel. E chegamos até a Década Perdida, os anos 1980. Em 1989, a primeira eleição presidencial direta depois de vinte e nove anos. E em 1988 já fora votada a nova Constituição. A constituição cidadã, de Ulisses Guimarães.

O Brasil era dependente de bancos estrangeiros, do FMI, do Clube de Paris. Soberania zero. O país não tinha planos, o país fazia Cartas de Intenção ao FMI e aos banqueiros. E recebia doses calculadas de empréstimo em dólar para se manter respirando. Inflação chegou a 80 por cento ao mês (sim, ao mês). Em 1987, o Brasil declarou Moratória internacional.

No mundo, Ronald Reagan, nos EUA, e Margareth Thatcher, na Inglaterra, cortam os impostos dos ricos (dizendo que era para beneficiar os pobres), liberam o sistema financeiro de todos os freios e limites (dizendo que era para o bem dos empresários) e apresentam aos países pobres e endividados uma receita única (corte de gastos, corte de investimentos, privatização total, o estado mínimo).

No Brasil, o senador Mario Covas, da tribuna, faz o discurso do Choque de Capitalismo. E se coloca como o candidato a presidente que vai executar esse programa. Fernando Collor termina eleito e imediatamente aprofunda e dá objetividade ao discurso de Covas.

É este discurso e esta plataforma que vão  trazer para o Brasil os olhos e o desejo do investidor estrangeiro. Eles querem as empresas estatais. Empresas gigantescas, donas de mercados consumidores gigantescos, com ativos gigantescos, frutos de gigantescos investimentos já realizados e com potencial para gerar lucros gigantescos. E por tudo isso querem pagar só um pouquinho.

Collor dá a partida, mas cai, derrubado pelos que o apoiaram. Itamar pisa no freio e interrompe tudo. Fernando Henrique se elege com o Plano Real de Itamar Franco e retoma com força as privatizações. Mas, administra a velocidade e vacila em algumas transações mais ousadas. Imagina-se ele dizendo uma frase para acalmar os interessados – Calma, ficaremos no poder por 20 anos, faremos tudo a seu tempo, paciência.

Aí vem Lula e ganha a eleição, e interrompe as altas transações de privatização. Lula e Dilma ganham quatro eleições seguidas. E os investidores interessados nesses gigantescos negócios, ficando cada vez mais impacientes.

É nesse contexto que surge a proposta que poderia ter evitado o impeachment de 2016. É a Ponte do Futuro. Dilma recusa. E cai. Michel Temer assume e avança com a Ponte do Futuro. Um escândalo armado por um burocrata o enfraquece, e a Ponte para de andar.

É nesse contexto que surge a Agenda do Guedes. É a Ponte para o Futuro rebatizada, atualizada e ampliada. Gigantescos negócios a preços camaradas.

Quem quer que olhe com olhos abertos para o Brasil só pode se indignar. Mas, a indignação só produz movimento e ação quando se espalha pela população, que faz agirem as instituições.

Indignação, então, só depois da Agenda do Guedes, leia-se a privatização desejada e esperada desde os anos 1990.

Capablanca

Ernesto Luís “Capablanca”, ou simplesmente “Capablanca” (homenagem ao jogador de xadrez) nascido em 1955, desde jovem dedica-se a trabalhar em ONGs com atuação em projetos sociais nas periferias de grandes cidades; não tem formação superior, diz que conhece metade do Brasil e o “que importa” na América do Sul, é colaborador regular de jornais comunitários. Declara-se um progressista,mas decepcionou-se com as experiências políticas e diz que atua na internet de várias formas.

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