Incerteza ou estratégia? por Marcos Paulo Campos

Armínio Fraga, Marcos Lisboa e Míriam Leitão, economistas nada simpáticos ao PT, dizem não ter captado qual rumo o governo Bolsonaro dará à economia. O senador eleito Cid Gomes afirma não durar seis meses a equipe econômica do capitão reformado. O que permite a economistas e políticos levantarem dúvidas profundas sobre um governo em formação? Na verdade, isso decorre da ausência de discussões eleitorais sobre política econômica, provocada pela recusa do candidato vencedor em ir a debates.

As declarações do presidente eleito são, talvez, as maiores razões para as incertezas. Críticas à China e a possível transferência da embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém provocaram tensões com a gigante comunista, que hoje é a maior parceira comercial individual do Brasil, e com os países árabes, importantes para o setor de carnes do país. Internamente, a proposta de fusão das pastas da agricultura e do meio ambiente provocou alvoroço em ambientalistas, mas também em agroexportadores cientes de que, no comércio mundial, a preservação ambiental é um termo relevante. Ao recuar em todos esses temas e, mais recentemente, ao assegurar que o trabalho seguirá com status de ministério, Bolsonaro apontaria para um estilo de governo no qual o anúncio de direções inviáveis é, quase sempre, substituído por decisões parcialmente aliviantes?

É possível, contudo, perceber um rumo em construção. Aproveitando os termos de Habermas em “A Nova Obscuridade”, Paulo Guedes no (Super)Ministério da Fazenda, Joaquim Levy no BNDES e Teresa Cristina no Ministério da Agricultura formam uma aliança neoconservadora entre os setores mais atrasados da produção agrícola e o setor financeiro da economia. Isso indica reforço à pauta de exportação com produtos de baixo valor agregado e a perspectiva de aumento dos juros em médio prazo, sendo assim uma combinação em desfavor da indústria, da demarcação de terras indígenas e da produção de alimentos saudáveis. O passado nos diz que seguir com o país centrado na exportação agrícola nos deixará como estamos. O eleito fala errático por incerteza ou por estratégia de distração dessa verdade histórica? Vai saber…

Marcos Paulo Campos

Marcos Paulo Campos

Doutor em Sociologia pelo IESP-UERJ e Diretor do CCH-UVA

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