A imprensa livre do dinheiro do poder público e das estatais: seria melhor ou pior? – Parte 9 – por Osvaldo Euclides

O Mito da Caverna, de Platão, ao propor que os homens vivem com a vista fixa numa parede onde imagens são projetadas a partir de um jogo de luz e sombras, formando a realidade (ou a percepção da realidade), pode ser usado mais de dois mil anos depois para retratar a submissão da sociedade aos meios de comunicação de massa, sejam eles visuais, impressos, digitais ou auditivos. As ideias platônicas, neste caso, seriam bem menos filosóficas, e muito mais pragmáticas.

O mundo novo da tecnologia da informação anunciava há bem pouco que todos estariam conectados, todos acessariam todos e todos falariam com todos, quebrando todas as barreiras geográficas, de tempo e de condições objetivas (o mesmo discurso da globalização). Uma democracia plena, afinal. E todos se abriram a ela, a essa novidade.

Nem se passaram duas décadas e já se sabe que a promessa era vã. Estamos todos isolados em pequenos guetos eletrônicos dominados por gigantes empresariais privados e que inovam apenas em busca de mais lucro e mais controle sobre pessoas. Nenhuma surpresa para quem leu Tim Woo, no livro Impérios da Comunicação, em que ele mostra que o rádio AM, o rádio FM e a televisão (aberta e a cabo) também se anunciaram (até estabelecer seu domínio) como a tecnologia definitiva de democratização. Tim Woo mostra todo o ciclo, da inovação tecnológica ao estabelecimento de monopólios ou cartéis.

Mesmo sendo uma democratização restrita, controlada, manipulada, como todas as outras, a internet e as “redes sociais” cresceram, continuam a crescer e ameaçam destruir e engulir os meios de comunicação tradicionais mais frágeis que, ingênuos, acreditaram nas promessas. E consolidaram a experiência do gratuito, a noção do custo tendente a zero.

Os meios de comunicação tradicionais perderam o domínio pleno das ideias, das imagens e das palavras, enquanto iam perdendo saúde financeira. A caverna não é mais deles, ou não é mais só deles, ou eles não a conseguem sustentar financeiramente, por causa dos novos padrões da internet, estão na iminência de serem as vítimas da caverna. Uma caverna maior, mais ampla, mais profunda, estratégica e financeiramente muito mais forte.

A caverna dos meios tradicionais é sua dependência dos grandes anunciantes, e os grandes são poucos. Jornais, revistas, rádios e televisões dependem do dinheiro público (os governos e as estatais são os maiores clientes) e das grandes corporações empresariais. Estão quase sem saída, porque jamais examinaram a sério a opção de mudar seus modelos editoriais e alargarem sua base de sustentação de audiência e financeira. São vítimas de escolhas ideológicas radicais. E continuam a apostar nelas e numa “saída política”, como muitas que foram construídas no passado em que crises cíclicas os ameaçaram.

Com a proximidade das eleições, o tema (do dinheiro público sustentando a mídia) pode vir à tona. E, por mais estranho que possa parecer, talvez seja hora de abrir uma janela na teimosia. Pode ter chegado o momento em que é interesse do próprio setor abrir espaço para uma nova regulação. A autorregulação é simpática e confere poder (aparente?), mas ficou inerte ao vendaval de mudanças. Uma nova regulação pode abrir novos caminhos e asfaltar novas estradas. O modelo atual é concentrador em excesso, termina por só favorecer os grandes tubarões, pois neles concentra o poder real e o dinheiro graúdo, além da audiência.

Dizem que as crises são parteiras do novo. Descartada a mudança editorial, em função do quase fanatismo, vira esperança a regulação econômica da mídia. Uma regulação inteligente e desconcentradora pode ser estimulante para os pequenos e médios peixes que hoje apenas seguem, obedecem e imitam os tubarões, servindo-se apenas do que da voracidade deles pode sobrar. Regionalização, produção independente, fim das redes e das participações cruzadas, por exemplo, não são propostas que se deve descartar sem avaliação. Estados Unidos, Canadá, México, Inglaterra e Argentina, por exemplo, podem mostrar como agiram e o que deu bom resultado.

Mas, será que, dentro do próprio setor, seus membros conseguem perceber-se como de fato são, como de fato estão? Quem realmente são os peixes, os peixinhos e tubarões? Será que todos se veem como tubarões?

Uma coisa é certa: a ecologia do meio não é mais a mesma, e ameaça.

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

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