A imprensa livre do dinheiro do poder público e das estatais: seria melhor ou pior? – Parte 15 – por Osvaldo Euclides

A remuneração sempre foi um problema para os profissionais do jornalismo, seja no passado em que as empresas eram pequenas, seja hoje quando ganharam porte. Era preciso ter grande brilho próprio para ter força para negociar salário digno. Para os que não eram estrelas, sobrava a alternativa de complementar a renda com uma posição na máquina pública (uma nomeação que governadores e prefeitos e presidentes de parlamentos faziam com frequência e algum prazer, às vezes a pedido dos editores). Alternativamente, dedicavam-se a dois patrões. Ou trabalhavam nos três veículos, rádio, jornal e televisão do mesmo grupo ou não. Logo depois, surgiram os colunistas e âncoras, e eles ganharam notoriedade. Essa notoriedade era usada para empreender formas de complementar o orçamento: promoção de eventos, edição de cadernos e revistas etc. Nas grandes redes de comunicação hoje, âncoras e colunistas se transformaram em celebridades e autoridades em assuntos gerais (opinam sobre política, sobre economia, direito, além de distribuir sua produção para três veículos) e, para faturar alto, dão palestras a muito bom preço. Essas palestras são contratadas pelas entidades empresariais (destaque para o Sistema S) e pelo sistema financeiro.

Evidentemente, com o passar do tempo, a independência do jornalista e do próprio veículo de comunicação foi sofrendo desgastes. Claro, o jornalista passou a conciliar sua leitura de mundo com a do mercado contratante. E isso só é possível quando os três estão alinhados (mercado, editor, jornalista). A qualidade do jornalismo de opinião foi declinando — perdendo profundidade e variedade. Para agradar ao mercado contratante é preciso encantar plateias e falar o que elas querem ouvir. Ao final, fica tudo igual: o que se diz, o que se escreve, o que se debate, o que o patrão pensa, o que o profissional acha, o que o mercado quer.

Parece natural e inevitável. Não é. De fato, isso é o absurdo. Não é sem custo e sem enorme prejuízo que um país em construção se vê jogado num falso consenso, num pensamento único, numa única visão dos fatos atuais, da história, dos números e da ideias. Os próprios empresários de comunicação são os primeiros prejudicados com a queda de audiência e (consequentemente) de anúncios. O jornalista profissional só se realiza financeiramente quando se torna celebridade aos olhos do mercado de palestras e de patrocínios. O profissional da reportagem perde espaço, atenção e prioridade no veículo. Sua remuneração e sua motivação declinam. E a fragilidade da reportagem vira elemento adicional do enfraquecimento do jornalismo de opinião.

O jornalismo de opinião respeitável parece estar morrendo, na medida em que todos pensam, falam e escrevem igual, na mesma linha e no mesmo tom político e econômico.

Por essas e outras é preciso saudar as exceções.

Janio de Freitas, três vezes por semana, na Folha de S. Paulo, consegue elevar o nível do jornalismo de análise e opinião que pratica a um quase único farol de luz em enorme escuridão. Nunca se furta a enfrentar os temas mais delicados e a adotar pontos de vista inesperados e certeiros. A consistência do seu texto e a linha reta de sua trajetória profissional dispensam e dificultam adjetivos, tão substantivo é seu jornalismo.

Luis Nassif construiu uma carreira original, modelou em si mesmo um estilo singular. Penetra os assuntos como um especialista, aprofunda a análise, enriquece os contextos, põe cada ator no seu papel e no seu devido lugar. Age como um obstinado pela qualidade e pela necessidade de jogar mais luz do que calor sobre cada questão.

Reinaldo Azevedo consegue desagradar gregos e troianos ao assumir posição, mas o faz depois de proceder a uma razoável análise e apresentar uma coerente (coerente com ele, segundo ele) argumentação. Tem bagagem intelectual, estuda o assunto que aborda, é um liberal que respeita e valoriza os princípios e valores liberais.

Goste-se ou não de cada um deles, fazem um jornalismo de opinião que merece atenção e respeito, porque respeita o leitor, telespectador ou ouvinte. A análise e a opinião deles costuma elevar o nível do debate. Mas eles são poucos…

Por isso, registramos a decisão divulgada hoje pelo jornalista Valdemar Menezes, que anunciou o fim da sua coluna. O jornalismo regional perde uma opinião profissional séria e independente, texto de um dos mais qualificados editorialistas desta terra, perde o que é talvez a melhor coluna semanal em termos de densidade e conteúdo. O jornalismo de opinião de qualidade está desaparecendo também regionalmente.

Aliás, cabe registrar ainda em nível local a tentativa de reviver com Plínio Bortolotti (jornalista) e Rui Martinho (intelectual) o melhor momento do jornalismo de opinião do Ceará, no programa de rádio Debates do Povo. Aconteceu na segunda metade dos anos 1980, sob a iniciativa e o comando de Demócrito Dummar, exatamente em momentos política e economicamente muito difíceis e de ânimos aquecidos. Sob a batuta do escritor e professor Carlos D’Alge, pessoas de formações e visões diferentes de mundo faziam um debate dinâmico, profundo, duro e independente. Eram Adísia Sá, Auto Filho e Temístocles de Castro e Silva os debatedores mais frequentes. Centro, direita e esquerda reunindo saber acadêmico, profissionalismo jornalístico e experiência de vida. Talvez não seja exagero dizer que a cidade parava para ouvir o confronto de argumentos, os governantes e a administração pública, com certeza, temiam os ‘Debates’. Jornalismo de opinião feito com compromisso, com qualidade, com independência.

Quanto dessa independência ainda temos?

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.

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