A imprensa livre do dinheiro do poder público e das estatais: seria melhor ou pior? – Parte 12 – por Osvaldo Euclides

A qualidade do debate público depende diretamente da imprensa, mais do que de qualquer outra coisa. Não há democracia sem jornalismo plural e de qualidade.

O pedido formal de Recuperação Judicial da Abril, editora da revista Veja, foi, nesta segunda semana do sempre animado mês de agosto, um daqueles fatos que mostram o Brasil real que há por trás do Brasil formal. A revista Veja foi um marco importante da imprensa desde que foi lançada na plenitude da ditadura militar e, sob mãos de profissionais de raro talento (como Mino Carta) selecionados pela família Civita, obteve reconhecimento da qualidade do seu projeto editorial e gráfico, na comparação com seus escassos concorrentes, sucesso, como se diz, de público e de crítica em bons e longos anos. Veja chegou a vender mais de um milhão de exemplares semanais. Este é um número que impressiona àqueles que não acreditam que a revista O Cruzeiro vendia oitocentos mil exemplares na primeira metade dos anos 1960.

No meio profissional comenta-se de forma detalhada (o que confere alguma credibilidade) a opção da Revista, a partir de 2006, por um jornalismo partidário. Veja se tornou agressiva e intolerante com o partido que estava no comando do poder executivo nacional e apontou seus canhões para as lideranças desse partido (referimo-nos ao PT e a Lula, e depois a Dilma Roussef), desde o evento do ‘Mensalão’. E ajudou a vender, desde 2013, a ideia de que o Brasil estava atolado numa crise econômica de proporções oceânicas e dançava à beira de um abismo, onde inevitavelmente cairia na semana seguinte. Naquela ocasião, isso era falso como uma nota de três reais: a inflação estava no limite da meta, não havia recessão, o mercado de trabalho estava próximo do pleno emprego, nenhum problema com as contas externas, nenhum drama na dívida interna e ainda havia superávit fiscal nominal.

Os anunciantes acreditaram no jornalismo da Abril, supõe-se, perdendo confiança no Brasil, no mercado e, talvez, em si mesmos. A revista emagreceu, perdendo clientes. As assinaturas da revista foram diminuindo rapidamente. A venda avulsa decresceu no mesmo ritmo. A Veja continuava vendo só problemas na economia. Em 2015, o Brasil começou realmente a afundar numa crise, com a luxuosa colaboração de Dilma Roussef, que não soube reagir ao assédio comandado por Eduardo Cunha e adotou o receituário do ‘austericídio’. A Revista Veja afundou junto. A Revista levou doze anos semeando a própria crise com seu “jornalismo de guerra”, do qual em nenhum momento recuou ou minimamente cedeu.

Outra notícia deste agosto é a morte de Otávio Frias Filho, diretor de redação da Folha de S. Paulo. Sob as mãos hábeis de Claudio Abramo (e depois do próprio Otavinho), a Folha passou da posição medíocre de um jornal paulistano sem rosto e sem força para o posto inquestionável de maior e mais importante jornal do país. E fez isso em pouquíssimo tempo. O ponto de partida, o impulso indiscutível foi a adesão do jornal à demanda e às necessidades da população, que queria eleições diretas. Aquele jornal paulistano deu força, forma, voz e cor ao movimento das “Diretas Já”, sintonizando-se com as ruas democráticas. E com isso conquistou corações e mentes. O Brasil inteiro queria ler o jornal que “tinha o rabo preso com o leitor”. E em alguns momentos a venda avulsa e de assinaturas da Folha avançou rumo ao milhão de exemplares.

Hoje, a Folha não tem mais uma só bandeira capaz de arrebatar corações e mentes e, embora mantenha prestígio e a posição de mais vendido do país, não é mais objeto da admiração da comunidade. Do ponto de vista econômico-financeiro, a empresa (que jamais expandiu para rádio e TV, seguindo o padrão do setor) viveu problemas e teve que vender suas ações no jornal ‘Valor’. Recentemente, entretanto, consolidou no mercado de capitais um empreendimento na área de serviços financeiros da dimensão de bilhões de dólares. O jornal ficou pequeno, em vários sentidos.

Repita-se para ficar bem claro: o veículo de comunicação que sintoniza-se com corações e mentes da população cresce, ganha admiração e galga posições. A campanha das “Diretas Já” da Folha é, em décadas, a prova irrefutável. Por outro lado, a adoção de uma pauta de interesse radical (quase fanática) do 1% mais rico parece indicar estagnação, perda de prestígio e queda relativa de audiência. Se não indica perda de posição no rankink é porque a opção “pelo mercado” (e não pela população) é quase uma escolha editorial unânime entre as grandes editoras. O ranking nunca muda, a ascensão da Folha foi a exceção.

Como a Veja, a Rede Globo de Televisão também nasceu e prosperou nos anos da ditadura militar. Com os melhores equipamentos e processos, contratando os profissionais mais competentes, a Rede, com apoio do governo, inclusive no massacre a concorrentes, montou uma grade de programação básica que resistiu ao tempo e a levou à liderança absoluta de audiência e a verbas de propaganda – pública e privada – monumentais. Nos últimos anos, sobretudo nos últimos cinco anos, a Rede fez uma opção por atacar sem dó, sem limite e sem trégua o projeto Lula-PT-Dilma. Apoiada e apoiando outras instâncias do poder, foi decisiva na criação do clima negativo necessário à derrubada de Dilma (sem crime de responsabilidade). E há cinco meses conseguiu que Lula fosse acusado, julgado, condenado e preso (sem provas, numa velocidade atípica e contra o inciso LVII do Art. 5 da CF). A Rede mantém um apoio canino ao “mercado”, esse conjunto de ideias, empresas e pessoas sem rosto, que defende teses e práticas nada populares. Há cinco anos, dois de seus mais renomados colunistas fizeram no ar uma aposta sobre o destino de acusados no Mensalão, a indicar de forma nítida a aposta da própria Rede nos desdobramentos das investigações, nas decisões da Justiça e nas consequências político-partidárias.

Pode-se dizer que a Rede venceu. A questão é se a “vitória” é efetiva, definitiva e sustentável. E se essa vitória é como a vitória de Pirro. Talvez se possa dizer da Rede que “mais uma vitória dessas e a Rede estará destruída”.

É que, para vencer, a Rede paga um preço alto em qualidade jornalística. Para vencer, a Rede coloca suas operações num nível exageradamente alto de energia. Para vencer, ela colocou no pano verde a sua credibilidade e a honestidade de seus profissionais. Para vencer, ajudou a jogar o país no abismo de uma crise institucional. É possível e provável que ela, a Rede, tenha avançado tanto que, mesmo que queira, não possa mais recuar. O ódio prospera.

Considerando as vitórias obtidas (até aqui, agosto de 2018), o nível de radicalismo alcançado e o imbricamento com o poder que a Rede atingiu, pode-se dizer que não é mais possível a ninguém governar o Brasil com a Globo. A Rede é agora, praticamente, o próprio poder.

Os dois candidatos em melhor posição nas pesquisas já fizeram promessas de atacar diretamente a Rede, se vencerem. Um deles, dizendo literalmente que cortará em sessenta por cento as verbas publicitárias do orçamento e das estatais, o outro dizendo que mudará a regulação do setor.

 

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

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