Imagine um mundo sem fronteiras

Pense globalmente e atue localmente.

John Lennon

Num dia de inspiração musical e sentimento de fraternidade humana John Lennon criou uma das letras de músicas mais emblemáticas do sentimento transnacional da emancipação humana.

Disse ele:  Imagine que não há países; não é difícil; nenhuma razão  para matar ou para morrer.

Por que a Rússia invadiu a Ucrânia? Não há outra resposta para isto senão uma motivação de poder nacionalista que se consubstancia na pretensão de maior hegemonia de poderio econômico centrado num Estado que regulamenta e protege o capital, e dele se alimenta e se nutre; trata-se da relação social capitalista one world.

O capital é, na atualidade, a expressão mais claramente definida da guerra; e a guerra é o mais bestial sintoma da irracionalidade que ainda domina as mentes humanas.

O capital é assassino!

A etnia eslava, comum a russos e ucranianos, com laços históricos de culturas, costumes, idiomas, e de relações familiares, se vê trucidada numa demonstração de brutalidade fratricida criminosa.

O capital é nacionalista!

O Estado nacional como hoje conhecemos foi criado pelo capital.

Assim o foi para que uma determinada região, orientada pelo sentimento de acumulação do capital em seu benefício e em detrimento dos habitantes de outras paragens compradoras de mercadorias que não as produziam, e ainda unida sob um mesmo idioma e interesses mesquinhos dos seus habitantes, fechassem suas fronteiras e passassem a considerar os seus vizinhos, próximos ou distantes, contingentes humanos a serem explorados.

Antes, as guerras de conquistas tiveram o Império Romano como o mais exemplar tipo de organização militar cuja única função era escravizar os povos derrotados pelas legiões romanas. Os soldados romanos não produziam riquezas materiais; pilhavam-nas.

Na Roma antiga, com seus cerca de 1 milhão de habitantes e códigos jurídicos opressores, havia cerca de 800.000 escravos, trazidos dos povos derrotados.

Hoje, na escravização pelo capital, o objeto da guerra é o controle do Estado nacional arrecadador de impostos e esfera de poder político militar que dá sustentação à relação social capitalista. A pilhagem se dá sob a forma de um padrão monetário qualquer, ainda que o poder militar esteja à espreita.

Quando dizemos que a guerra da Ucrânia é mais monetária do que belicista, estamos afirmando que o móvel dos ataques militares genocidas, tanto pelo ar (que são sobretudo covardes), como por terra, são apenas a forma cruelmente exposta pela televisão e celulares de algo que, paradoxalmente, parece tão natural e ontológico à vida humana, a relação social capitalista.

Assim, sequer notamos que a guerra de agressão serve ao capital, justificada que é sob falaciosas explicações de legítimas defesas de interesses nacionais e patrióticos que nada mais são do que a expressão mal acabada de algo que avilta a natureza humana: a inversão do verdadeiro sentido de solidariedade humana.

Esquecemo-nos que foi a solidariedade e espírito gregário aquilo nos fez chegar até aqui enfrentando situações profundamente adversas como o clima, a ignorância científica, e o enfrentamento de feras selvagens mais numerosas e mais fortes do que eram os humanoides.

Mas, paradoxalmente, estamos invertendo a essência do ser humano. Ao invés de sermos solidários uns com os outros, tornamo-nos adversários de nós mesmos.

Competimos entre nós sob o destrutivo critério da meritocracia capitalista no qual quem produz mais e melhor num mesmo espaço de tempo e lugar ganha mais (e produz mais capital acumulado nas mãos dos controlados controladores capitalistas), e assim, tornamo-nos constantemente adversários do nosso semelhante na busca pelo dinheiro, que passou a ser o objeto da moderna adoração, e funciona em detrimento do homem que o criou.

Quando falamos da relação social capitalista estamos nos referindo ao fetichismo da mercadoria (expressão metafórica usada por Karl Marx, para expressar a esquizofrenia humana capitalista) que domina a mente humana de tal forma que a usa para matar o próprio ser humano, e em circunstâncias que podem nos levar a uma hecatombe nuclear definitivamente destruidora da espécie humana.

Não é por menos que hoje se fala tanto em padrão novo monetário internacional e em guerra nuclear.

Observamos hoje mundo afora o maior fluxo migratório da história da humanidade. Seja nas Américas ou na Europa, os escravizados pelo capital de todo o mundo fogem da tirania nacionalista de seus próprios países pobres, e tentam entrar nos países nacionalistas detentores da hegemonia capitalista sob as formas mais arriscadas para as suas próprias vidas.

Os imigrantes buscam moradias nos países beneficiados pela lógica capitalista one world (mas só até certo ponto, porque até lá o capital já faz água) que os oprimem, e estão morrendo no meio do caminho em meios de transportes precários, ou sendo deportados, porque o conceito de cidadania somente prevalece para quem tem capital e pode comprar passagem de avião com passaporte e visto de turista de lazer ou comércio.  

Aliás, disse, com razão, o filósofo grego Sócrates, que “o cidadão é o cadáver do homem”. Na sociedade cidadã do capital, o cidadão é explorado duplamente: pela extração de mais valia e pelo pagamento de impostos para a manutenção de uma estrutura estatal que o oprime, e não raro émandado para os campos de batalhas para matar um seu semelhante que sequer conhece, e que nunca lhe fez mal.

Quando criticamos a guerra de agressão não estamos incluindo em tal crítica o direito à legítima defesa de si ou de outrem (como fazem os contingentes de voluntários estrangeiros que defendem os povos agredidos) justamente porque o direito natural considera como sagrado o direito de manutenção da vida, e por um padrão moral elevado de busca de realização do ideal de justiça: o direito à vida.

Os revolucionários que pegaram em armas no Brasil do AI-5 e foram tratados pela ditadura militar como terroristas, apenas revidavam ao terror estabelecido pelo poder totalitário que se instalara, ainda que sob os aplausos populares (principalmente da classe média que forma opinião e raciocina pelo bolso) do falso milagre econômico do início dos anos 70.

Agora temos novas apologias ao terror de Estado e pela volta do AI-5, mesmo sem falso milagre econômico e com todas as agruras que ora sofremos (estagflação, desemprego estrutural, queda do PIB, aumento da dívida pública com juros altos, crise entre os poderes institucionais, esquerda pusilânime, direita afoita, nacionalismo patriótico deslocado no tempo e espaço, etc., etc., etc.).

Mas voltando a Lennon, ele criticou também o capital quando pediu para que imaginássemos um mundo sem propriedade, no qual todos pudessem usufruir dos bens servíveis à satisfação das necessidades humanas de forma equitativa quando disse: “imagine que não existam posses; eu me pergunto se você consegue; sem necessidade de ganância ou fome; uma irmandade dos homens; imagine todas as pessoas compartilhando o mundo inteiro”.

Sim, John Lennon, sei que alguém pode nos chamar de sonhadores por querermos e defendermos uma relação social definitivamente humana e na qual sejam os humanos, coletivamente, sem qualquer traço de esquizofrenia sobre o seu pensar, aqueles capazes de criar mecanismos horizontalizados de participação nosseus próprios destinos, errando e consertando; voltando a errar e voltando a consertar, e de modo que sempre caminhe no sentido da sua própria evolução enquanto ser pensante.

Mas nós não estamos sozinhos, e tudo contribui para que se crie uma consciência de unidade na diversidade do pensar, e o mundo seja uno.

Dalton Rosado.

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;

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