A Identidade Bourne: E um cinema de ação reconfigurado

O cinema de ação se reconfigurou de várias formas desde o início do século XX. De O Grande Assalto ao Trem (1903) à 007 – Um Novo Dia para Morrer (2002), um longo percurso de quase um século fora trilhado entre códigos aperfeiçoados e revisitados no gênero. Partindo desses conceitos e revisitando elementos do cinema independente e da indústria mainstream hollywoodiana foi que o nova-iorquino Doug Liman lançou A Identidade Bourne (2002).

Na trama, um homem chamado Jason Bourne (Matt Damon) é pego por um barco de pesca no meio do oceano. Crivado de balas e sofrendo de amnésia, ele terá de recuperar sua identidade ao mesmo tempo em que se envolve em uma trama de espionagem internacional que colocará sua vida e a de todos ao seu redor em grande risco. Quarto trabalho dirigido por Liman, o longa pode ser considerado um dos mais importantes deste século para o gênero de ação.

Importante analisarmos este filme dentro de um contexto. Enquanto obra cinematográfica, ele consegue reunir as características necessárias à sua vitalidade ao longo dos anos. Uma direção e equipe afinadas com o propósito da estória a ser contada, aliada a uma equipe de roteiristas e elenco que extraem e empregam o que há de melhor nas suas competências exigidas, entre outros pontos. Mas o que faz deste longa, especificamente, uma referência para os quadros deste nosso século?

Sua intenção, poderíamos dizer, inicialmente. É claro que Duro de Matar (1988) e Fogo contra Fogo (1995) hoje são considerados expoentes desse cinema de ação “entre décadas” exatamente pelo capricho no trato com a linguagem e sua consequente atualização. Em “A Identidade”, Liman realiza mais que o filme como produto, ele apresenta uma nova abordagem para um visível desgaste que se abatia à época sobre o gênero.

Acima, Bourne (Matt Damon) e Marie (Franka Potente), um par criado organicamente na trama do filme. Crédito: Lisa Tacher

Ele recua, trazendo a praticidade do cinema independente ao mesmo tempo em que usa os recursos que os grandes estúdios provêm. Em números exatos, algo em torno de um orçamento de 60.000.000 dólares. Apesar da alta cifra, não são aspectos comerciais que fazem deste longa um trabalho a se lembrar. E sim a sua veia de rompimento com a lógica estabelecida com a noção estabelecida para obras daquele contexto.

Em linhas gerais, sob o filme que adapta o livro de Robert Ludlum e recria o telefilme de 1988, “A Identidade” aparece a partir de uma narrativa que dialoga com o drama e a estória de espionagem, sem ceder aos excessos da caricatura ainda presentes em diversos longas de ação contemporâneos. Ele é sofisticado porque não subestima seus personagens ou seus espectadores.

Bourne, assim como nós mesmos, não sabe ao certo que teia conspiratória é essa que se desenrola cena a cena. Mas junto a ele, vamos montando um complexo quebra-cabeça formado por um trabalho repleto de boas referências ao cinema de gênero e seus mais diversificados códigos. O filme é ágil no desenvolvimento das suas situações, mas consegue igualmente imprimir um ritmo mais lento nos momentos onde a perspectiva dramática pede mais espaço. A interação criada entre esse agente amnésico e Marie (Franka Potente), é um exemplo disso.

O filme é repleto de boas referências ao cinema de gênero e seus mais diversificados códigos. Créditos: Fandom

Mas quando a ação pede mais espaço, a tradição é retomada e aí vemos isso na tela de forma revigorante, seja pelas cenas de luta cuidadosamente coreografadas, pelas sequências de perseguição que retomam o freneticismo clássico de longas como Bullitt (1968) ou pelos arquétipos dessas personagens que evocam toda a força dos westerns e dos thrillers policiais. Mas essa aventura traçada por esse herói é realmente inspiradora pelo traço que Bourne reforça nesse novo protagonista da ação.

Ele é íntegro, mas passível dos erros cometidos. Ele é obstinado, mas encontra-se aberto às colocações que o mundo traz ao seu redor. Pode eliminar seu oponente, mas reconhece também dentro desta figura um lugar onde ele mesmo se dispõe a extrair e partilhar um ideal de alteridade. Ele é a “morte” e “renascimento” do cinema de ação como conhecemos na contemporaneidade.

E quando Bourne pergunta: “Quem sou eu?”, a interrogação não dá a ver apenas a dúvida sobre sua identidade enquanto personagem de uma ficção, mas sobretudo da natureza do próprio gênero como nós conhecíamos. O cinema de ação se reconfigurava e reformulava a partir deste ponto. Esse pode ser considerado o maior legado de A Identidade Bourne.

 

 

FICHA TÉCNICA

Título Original: The Bourne Identity

Tempo de Duração: 119 minutos

Ano de Lançamento: 2002

Gênero: Ação, Thriller, Drama

Direção: Doug Liman

Daniel Araújo

Daniel Araújo

Crítico de Cinema, Realizador Audiovisual, e Jornalista.

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