IDEIAS E PRECONCEITOS NÃO SE CONSTROEM EM PRETO E BRANCO

“É tão raro o homem de uma só época como raro é hoje o homem de uma só cultura ou de uma só raça, ou como parece vir sendo, o indivíduo de um só sexo”. Gilberto Freyre, “Casa Grande e Senzala”.

Para consolidar a legitimidade revolucionária de Marighella, a sua imagem, foi apresentada no filme, discretamente (o que direi para não ser enquadrado entre racistas?), como afrodescendente. De fato, branco euro-caucasiano puro ele não era. Nem carecia sê-lo.

Ninguém precisa ser branco para ter ideias e pretender tê-las respeitadas. Tampouco, assumir a sua negritude para prover respaldo às suas lutas assumidas na militância, seja ela qual for, ou fora dela. Marighella era etnicamente fruto da rica miscigenação que “construiu” o brasileiro e dos mesmos sentimentos com os quais edificamos perversamente os nossos preconceitos. No seu caso, acrescido do mérito ou demérito (quem julgará o significado dessa causalidade histórica?) de tornar-se símbolo da escravatura colonial e das migrações da pobreza peninsular.

Interessei-me pelo livro de Antônio Risério (“As sinhás pretas da Bahia, suas escravas, suas jóias”), envolto em acrimoniosas controvérsias de coletivos exaltados, na mesma medida que me encantam o seu pensamento livre, a sua curiosidade visceral e as discordâncias que podemos alimentar, autor brilhante e leitor em busca de revelações de inteligência, para lá das persignações dos dogmas e das astúcias da fé.

A história deste atrapalhado país não se aclara, nem se resolvem as dúvidas acumuladas por tantas certezas nesta peleja binária black&white, pois não. Não há porque, nem como encontrar respostas para as nossas hesitações e fantasias na contraposição dos dissensos de classe, nas motivações de gênero, nos escamoteios das razões de fé e dos consensos ideológicos. A pós-modernidade não nos trouxe respostas, antes cimentou dúvidas e, sobretudo, aprofundou dissensões, com respostas complexas sobre razões provisórias que a muitos encantam, como se fossem revelações definitivas sobre questionamentos de uma sinuosa dialética em motu continuum. As questões continuam as mesmas, assim como as perguntas. Mudaram as respostas, como, assim, fosse possível alterar o conteúdo das dúvidas, o alcance da memória e as restrições impostas pelas lembranças, ao sabor da verbalização e da retórica.

Em tempo: não sou louro dolicocéfalo, habituei-me com minha morenidade, não a percebo. Afinal, afirmam os que detêm a visão do progresso na modulação cativa das suas mentes amestradas, o reconhecimento da própria raça, da sua etnia, ocorre tão somente pela percepção dos sinais exteriores mais visíveis da cor da pele e das formas. A cor da tez, sem a rotulação de raça, que poucos a querem ver declinada, é direito individual, intransferível e imprescritível. Cada um escolhe, por direito, a etnia que lhe mais fala à alma. Ainda que assim não fosse ou devera ter sido, a epiderme não poderá ser indicador social e cultural de diferenças essenciais. ​Curioso, entretanto, como se mostra usual a ressalva feita por historiadores acima de qualquer suspeita ao se referirem à condição ultrajante imposta pela prática colonizadora que fez de negros escravos a cobiça abjeta dos que impõem a outros a sujeição a que, por sorte, não se obrigam. É quando, penalizados pelo padecimento das criaturas negras apresadas, deploram os procedimentos iníquos de submissão escrava impostos a jovens príncipes e princesas da realeza iorubás, jejes e malês, recolhidos nas costas africanas e trazida a ferros para o Brasil…

Longe de pretender insinuar-me entre os vikings que andaram, segundo estudiosos respeitados, a multiplicar-se pelo Ceará. Sou jagunço do Cariri, daquela mistura de negros, índios e aventureiros lusitanos perdidos como missioneiros da fé e dos negócios, para os lados de Porteiras. É verdade que, alguns dentre os meus ascendentes, houve quem fizesse do trabuco ganho de vida e até prosperassem à sombra da Igreja e das indulgências do Estado. O que dizer? Até os admiro, devo confessar desajeitadamente, pois tinham eles lá os seus códigos de honra, tão curtos entre os nossos homens públicos, republicanos e democratas por vocação… O que lhes faltava da destra manobra das palavras dos bacharéis das boas famílias, sobrava-lhes nas artes guerreiras, à solta pelas caatingas, presos a dogmas de conduta alimentados na prestação ancestral de serviços e de lealdades combinadas com os que os acolhiam e davam, guarida, proteção e cobravam-lhes os serviços prometidos.
Portanto, não me venham de borzeguins ao leito. Não teria eu competência étnica em um país de bastardos e miscigenados para pretender ser branco. Muito menos discriminar os que, menos brancos e mais escuros, ou menos escuros e mais brancos, se houvessem agregado às surpresas da sorte e à distinção dos homens de poder.
Por que esses torneios literários, em torno de arriscadas opções de distinções étnicas e culturais em um país que pretende visivelmente ser o que nunca foi e não se dá conta do que poderia ter sido? Porque está a complicar-se, no Brasil, a discussão das nossas origens étnicas e culturais com fórmulas e paradigmas criados em explicações que mutilam o essencial da questão, em favor de conceitos e preceitos arrancados a categorias intelectuais elaboradas com a habitual arrogância dos que pretendem tudo explicar e reduzir sua ambiguidades recolhidas a uma operação simplificada de extração de uma raiz quadrada…

Preto e negro são substantivos proibidos pelos vigilantes ideólogos. Tornaram-se adjetivos sem terem sido, antes, advérbios… Crioulo, mulato, cafuzo, nem pensar. As mulatas do Lalau (criação inspirada de Stanislaw Ponte Preta) foram estigmatizadas como excrecência branco-discriminatória intolerável. O “samba do crioulo doido”, essa deliciosa descrição cultural da confusão mental do brasileiro, branco, preto, inzoneiro, foi enquadrada, “enquanto expressão” (fórmula literária abominável usada por intelectuais orgânicos uspeano-brasileiros”) como crime previsto em lei. Apareceu , até, no governo Dilma, em uma onda avassaladora de patriotismo nacionalista étnico, que parecia ter desaparecido, uma senhora, inquilina dos valores culturais do petismo evanescente, que se aprestava a “traduzir” o texto original do “Sítio do Pica-pau Amarelo”, de Monteiro Lobato, para o vernáculo brasileiro pós-moderno, com a eliminação da figura da tia Nastácia e pretendia, em desvelada obra missionária de catequese didático-pedagógica, arrancar de um livro primoroso todo e qualquer resquício de discriminação e preconceito… Não cumpriu, por graça, o que poderia ter sido obra sua definitiva para gáudio perante a posteridade por muito pouco.

Antônio Risério aflora uma questão delicada em “Sinhás pretas da Bahia”, aquela que descobre vilões entre as próprias vítimas da sua pertinaz porém, dissimulada discriminação. Curioso lembrar, entre os rasgos de memória e as imposições das lembranças e do esquecimento, o padecimento dos negros apresados em costas da África e trazidos a ferros para o eito nas fazendas e as imposições dos caprichos das sinhás das casas-grande. Sofrimentos e penúria de quem perdera a liberdade, as famílias e as próprias origens. Muitos cronistas, narradores de uma oralidade presente, compadeciam-se de príncipes e princesas, arrancados da sua nobreza ancestral, feitos escravos de famílias abastadas. Já não era só a cor da pele, uma cultura desconhecida e costumes interrompidos que contavam, a rigor. Sobressaía a condição social de uma nobreza tornada escrava, a serviços de homens de posse e de rala tradição civilacional. Se tanto não importava no cotidiano das relações da casa-grande, não lhe faltavam, todavia, a reverência pela condição nobiliárquica de origem. Assim, tornaram-se as sinhás “pretas” da Bahia, negras, porém, ricas, madrinhas de uma nobreza construída na colônia com amparo nos bens acumulados, até mesmo no mercado negreiro, como referem alguns historiadores.

Gilberto Freyre mergulhou com maior profundidade nessas águas toldadas e turbas, por onde muitos deixaram a marca firme de conceitos e preceitos, ideias e doutrinas, amarrados a categorias alinhadas a dogmas e perseverantes lealdades. Foi o bem dito (oxalá, bendito intérprete de amenos entendimentos sobre realidades severas) “mestre de Apipucos” capaz de construir, como poucos o fizeram, armados de tantos instrumentos de prospecção teórica, um nexo essencial entre relações ambíguas, ainda que verdadeiras, entre realidade e concepções, raça, gênero, classes, cultura e identidade sexual, em uma nação entregue a continuado processo de construção, relutante e demorado, moroso e vazio de vontade e fé.

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.

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