HUMANIDADE: INUMANA?! por Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

(Texto produzido originalmente para postagem na minha página do Facebook, o que ocorreu em 16.10.2015, ou seja, quando ainda se mantinha politicamente correto – embora já apresentasse algumas rusgas, sinais de que a união já não era mais tão estável – o enlace republicano “dilmático-temerário”).

No princípio, a terra exalava o inefável aroma de sua exuberante virgindade.

Os campos verdejantes e floridos, as florestas vastíssimas e inconspurcadas, as águas cristalinas e abundantes, os mares e oceanos acolhedores e amedrontadores, o ar tão puro quanto o desejo divino ao sentenciar “Fiat lux” (leia-se: Faça-se a luz!): a vida fluía incólume e sem sobressaltos.

A tranquilidade então reinante no paraíso terreal sofre, entretanto, um grave abalo no instante em que a serpente, com sua sensualidade demasiadamente persuasiva e com interesses sub-repticiamente escusos, oferece uma apetitosa maçã ao solitário casal edênico. E a terra, ao receber como habitantes as primeiras criaturas assemelhadas ao Criador, expulsas que foram do Jardim do Éden com uma mão na frente e outra atrás (como essa expressão é antiga, meu Deus!), inicia um processo de degradação que se estende até os dias atuais.

A humanidade – conforme a corrente rousseffiana do pensamento antropológico avançado – ainda era inumana. Acreditem, se isso for de todo possível.

O homem e a mulher tratavam a Natureza como a fonte primária de sua sobrevivência. Procriavam. E isso lhes impunha a busca pela satisfação de sua primeira necessidade: a habitação, um teto todo seu. A caverna se lhes ofereceu como opção ideal – sem muito conforto, mas com um pouco de segurança e sem quaisquer custos de construção. E isso era um barato! (É o novo!).

E a humanidade permanecia inumana. Apesar de já alimentar-se de tubérculos – um tipo de raiz comestível de que se originou a atual mandioca ou macaxeira ou aipim, como queiram. Tudo era consumido “in natura” (ou seja, do jeito que era extraído da Natureza). E isso exigia um esforço inumano.

Algo tinha de ser criado.

O patriarca, num daqueles tediosos momentos em que a matriarca costumava queixar-se de enxaqueca (obviamente esse rótulo só surgiu muito tempo depois, quando a humanidade já dava demonstrações de ser humana – e olha que ainda não existia a máquina de fotografar e muito menos a Rede Tupi de Televisão, quanto mais as fotonovelas e telenovelas… –, mas as causas e efeitos eram os mesmos dos dias atuais), não tendo ele o que fazer além do nada produtivo “coçar o saco” (cabível aqui tudo o que se contém entre os parênteses femininos), começou a esfregar um graveto num pedaço de pau, de madeira, sem função alguma. Assustou-se com uns filetes de ar acinzentados que brotavam do pau, ou melhor dizendo, da madeira. Ainda agitado, grunhiu alguma coisa que linguistas, alguns milênios depois, desvendando o mistério, traduziram-no como sendo “Fumaça!”.

Entre curioso e teimoso – marca de inumanos que ainda permanece com os humanos –, ele prosseguiu com a esfregação… E fez-se o fogo (e aí surgiu uma outra expressão, bem clássica: “Onde há fumaça, há fogo!”). Daí ao cozimento dos alimentos, facilitando a mastigação e a digestão, passou-se o tempo de um salto de preá. Eureka!

Um problema continuava perturbando a humanidade que, diga-se de passagem, ainda se mantinha inumana. Todas as vezes que precisavam de fogo se obrigavam ao processo de esfregação do graveto num pedaço de pau. Aquilo era cansativo e já perdera toda a graça. Aí um dos indivíduos da tribo, na impertinência da juventude, percebeu um foco de luz no fim do túnel, ou melhor, da caverna… da sua caverna craniana. O indivíduo descobriu que podia pensar e isso já o ia transmutando em humano. E assim ocorria a primeira manifestação da Lógica: se penso, logo existo. Sou.

E ele pensou alto: temos de descobrir uma forma de aprisionar o fogo para, depois, estocá-lo. Estocagem de fogo?! Os mais velhos esbravejaram: isso é um absurdo! E o jovem pensador foi tachado de maluco, de doido varrido, de perigoso ao convívio social. Expulsaram-no da tribo. E ele virou eremita.

A humanidade já adquiria, assim, os primeiros elementos fundamentais exigidos por um sério e científico processo de humanização. Mas o jovem revolucionário morreu solitário sem ter podido experimentar o invento que resultou de sua fantástica e futurista ideia. Pois é.

Alguém aprisionou o fogo. Solidificou-o numa espessa massa de cor marrom escuro e adaptou-a, em pequeníssima quantidade, num dos extremos de um palito – um graveto estilizado. Aprimorou o procedimento “esfregatório”, já denominado por outros gênios de “atrito”. E ao invento deu o nome de “palito de fósforo” (o que os sertanejos por muito tempo – já não mais hoje – chamaram “pau-de-fófi”), acondicionando-o em caixinha cujas laterais tornou apropriadas ao atrito desencadeador do processo de reabilitação do fogo na sua forma mais original.

E a humanidade já havia demonstrado, em inúmeras situações bem corriqueiras do cotidiano, ser humana.

E a vida ia se tornando, cada vez mais, uma mão na roda.

E o homem passou a levar o fogo para onde bem quis.

Há quem diga – e prove até – que as grandes invenções da humanidade – tanto na Era dos Inumanos quanto na dos Humanos – sempre foram precedidas de ideias mirabolantes, produzidas por mentes confusas, de sinapses improváveis e, portanto, incapazes de persuadir os indivíduos tidos como normais. A loucura, por essa lógica, é quem sempre dispara o start da capacidade inventiva, criadora, do ser humano.

Assim, fosse eu o vento, trataria de ir-me adaptando a uma existência de clausura. Se alguém, num aparente – e preocupante, por que não?! – estado de questionável lucidez, aventa a possibilidade de encarceramento do vento para posterior estocagem, a bem de um louvável plus na produção de energia não-poluente e de fonte renovável, reza a lógica que não tardará a implantação de parques industriais destinados ao envasamento “do fluxo de gases resultante do deslocamento do ar que migra de regiões de alta pressão atmosférica para pontos em que essa pressão é inferior” ou, em apenas dois vocábulos, do vento.

E a humanidade, demasiadamente humana, sofrerá um terrível período de calor inumano.

Quem viver sentirá.

Luciano Moreira

Luciano Moreira

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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