Homem-Formiga: E a permanência exitosa da fórmula Marvel

Antes mesmo de iniciar o projeto do seu universo cinematográfico com a realização de Homem de Ferro (2008), a Marvel Studios pretendia que seu primeiro longa-metragem desse processo fosse baseado nas aventuras do Homem-Formiga. Com uma mudança de planos, o filme baseado no herói criado nos anos 1970 por David Michelinie e John Byrne nos quadrinhos, sairia apenas 7 anos depois quando o estúdio lançaria Homem-Formiga (2015), dirigido inicialmente por Edgar Wrigth, que acabou sendo substituído no meio do processo por Peyton Reed.

Armado com um super-traje que confere a incrível capacidade de encolher em escala, mas aumentar em força, o mestre em Engenharia Elétrica (e gatuno) Scott Lang (Paul Rudd) decide ajudar o cientista e seu mentor, Dr. Hank Pym (Michael Douglas), a planejar um arriscado assalto contra uma corporação com objetivos obscuros. O longa conta, portanto, uma narrativa de origem que reúne elementos já consolidados no modo de criação da Marvel Studios.

Um desses elementos é a leveza contida no enredo. Sendo o filme que encerra a fase 2 do Universo Cinematográfico Marvel (UCM), Homem-Formiga segue uma fórmula que aposta mais numa construção de variações tonais cômicas dentro do gênero de super-herói em detrimento de aventura com contornos mais político-dramáticos, como vemos no excelente “Capitão América – O Soldado Invernal” (2013), por exemplo.

Como filme de origem, o longa traz em sua gênese a ideia de apresentação do herói. Há alguns códigos que a própria Marvel já havia trabalhado em obras como Homem de Ferro (2008) ou Thor (2011). Mas aqui, esses elementos não surgem como meras reiterações de fórmulas já vistas. Há uma ideia de gênese no processo de feitura, claro. Mas também notamos o esforço de Reed como diretor e Wright como roteirista em manter um equilíbrio entre a apresentação do “novo” e a manutenção simbiótica que relaciona os demais longas do UCM.

A sequência que traz o encontro entre Scott e Falcão (Anthony Mackie), é exemplo disso. Interessante notarmos os detalhes. Ela não é uma parte do filme posta aleatoriamente ou enxertada de modo forçado. Há uma construção que perpassa a trilha sonora como ferramenta de ambientação narrativa e a sinalização de que a estória que acompanhamos desse herói faz parte de um universo compartilhado.E que igualmente diz respeito ao índice transmidiático, cuja premissa de hibridização entre as diversas formas de produção midiática faz com que, entre tantos pontos, a série cinematográfica da Marvel  seja tão distinta. Há logicamente uma massificação do fazer haja vista sua escala industrial de produção, mas há muito conceito também. E isso é sempre positivo.

Para além disso, temos o fator elenco. A obra conta com um Michael Douglas bastante à vontade no papel, além do peso que a sua inserção traz ao trabalho. Além de um Paul Rudd igualmente inteiro na sua atuação e bastante engajado  com o filme, haja vista as contribuições que o ator deu como produtor executivo à obra após a saída de Wright em função de divergência nos rumos do projeto.

Nada disso, no entanto, afetou o resultado final do longa. Temos aqui um bom filme de super-herói. Excepcional? Não, mas que nos garante bons 120 minutos de entretenimento. Afinal, é pra isso que o cinema (e os filmes da Marvel) existem também. E dentro da variada escala em que as obras do estúdio se mesclam, Homem-Formiga traz um balanceado viés entre tópicos que somam para a sua potência fílmica e os que a limitam diametralmente falando.

E por limitante, entendemos questões como a problemática construção do vilão Jaqueta Amarela. Interpretado por Corey Stoll, o personagem é sem dúvidas um dos antagonistas mais genéricos de toda a fase 2 no UCM. Falas como “sua existência é um insulto para mim”, entre outras são uma prova clara do quão mal desenvolvido esse personagem foi. Uma pena, já que Scott Lang, enquanto protagonista, é muito bem trabalhado em todas as suas motivações.

Esse desenvolvimento é ainda um coeficiente interessantíssimo dentro das produções da cultura pop na contemporaneidade. Porque naquilo o que algumas obras tomam como ousadia criativa, na verdade, nem sempre se reflete os contornos por elas desejadas. Star Wars – Os Últimos Jedi (2017) é um exemplo. Confuso e pretensioso, o longa de Rian Johnson acaba escorregando numa série de elementos entrecruzados, como a relação com o público e as divergentes variações tonais que podem acabar distorcendo o discurso de um filme.

Em Homem-Formiga, Peyton Reed conseguiu trabalhar noções clássicas, como a da Jornada do Herói* (quando Scott recusa um chamado de seu mentor). E também se utilizar dos recursos técnicos de que a Marvel dispõe atualmente para a construção do trabalho. O uso de uma fotografia imersiva utilizada na representação da dimensão quântica apresentado no longa, bem como o de técnicas de renderização fractais**, alinharam conceitos na consolidação do filme no seu todo.

O longa  se mostrou um exitoso exercício fílmico quando refletimos sobre as potencialidades contidas nas adaptações de histórias de super-heróis para o cinema. A contar os questionáveis Homem de Ferro 3 (2013) e Thor: O Mundo Sombrio (2013), Homem-Formiga se mostrou, por outro lado, um filme mais feliz no uso das referências das HQs e da cultura pop em geral, uma vez que conseguira elaborar uma saudável intertextualidade entre mídias, unindo informações já trazidas pelos quadrinhos junto a filmes como Missão Impossível (1996), Querida Encolhi as Crianças (1989) e Toy Story (1997).

* Jornada do Herói – Também conhecida como “monomito”, a Jornada do Herói é um conceito de jornada cíclica presente nos mitos. O termo foi estudado e estabelecido pelo antropólogo Joseph Campbell na sua obra “O Herói de Mil Faces”. De acordo com o teórico, o conceito divide-se em três seções: partida, iniciação e retorno. Para Campbell, todos os mitos seguem essa estrutura em algum grau.

** Técnicas de Renderização Fractais – Técnica usada na cinematografia para emular repetições de padrões fractais na natureza. Quando relacionada às produções cinematográficas, a técnica exige, em contrapartida, muito espaço de armazenamento e capacidade de processamento dos computadores, o que pode vir a ser um desafio, dependendo da natureza da produtora a executar os projetos fílmicos. No caso da Marvel Studios, o trabalho ficou a cargo da Industrial Light & Magic.

FICHA TÉCNICA

Título Original: Ant-Man

Tempo de Duração: 117 minutos

Ano de Lançamento (EUA): 2015

Gênero: Ação, Aventura, Sci-Fi

Direção: Peyton Reed

 

Daniel Araújo

Daniel Araújo

Jornalista, graduado em Comunicação Social (Jornalismo), Realizador em Cinema e Audiovisual pela Escola Pública de Audiovisual - Vila das Artes e colunista do Sala de Cinema no site Segunda Opinião.

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