Hastag, somos todos Miriam Leitão? – por EMANUEL FREITAS

Dias depois dos ataques orquestrados contra o jornalista Glen Greenwald durante sua presença na Feira Literária de Paraty, por parte das hordas bolsonaristas, sempre prontas a calar opositores com uso da ilegítima força física, foi a vez da jornalista Miriam Leitão, e seu marido, o renomado cientista político Sergio Abranches, serem alvos dos rugidos perigosos da matilha bolsonarista.

Convidados para a 13ª edição da Feira do Livro em Jaraguá do Sul, Santa Catarina, os dois tiveram de ser desconvidados por “questões de segurança”; isso porque uma petição, com mais de 3 mil assinaturas, declarou-os como personas non gratas na cidade e que, caso fossem, seriam recebidos com “ovadas”, o que causou medo e surpresa na organização. A petição, como se viu, havia sido organizada por bolsonaristas inconformados com as reiteradas críticas da jornalista, já desde a campanha, ao “mito” Bolsonaro que, para seus áulicos, como se sabe, é intocável.

O organizador da petição, Danilo Faggian (advogado e simpatizante de Bolsonaro), justificou sua petição afirmando que a presença de Miriam “não se coaduna com os valores éticos, morais e culturais do povo jaraguaense”, o que estaria ancorado na decisão da “maioria” do povo da cidade.

Segundo o último Censo do IBGE a cidade tem em torno de 130 mil habitantes, o que põe os 3.600 que assinaram a petição bem longe de falarem em nome da “maioria”. Além disso, estão longe de representar todo o conjunto de valores da cidade. Contudo, a cidade garantiu 83% dos votos válidos a Jair; é, pois, dessa “maioria” que fala?

Mas, gostaria de ir um pouco além na análise, curta, do fato. Em tempos de militância apressada e imediata, via redes sociais, não se subiu nenhuma hastag #somostodosmiriam, tanto pelo fato de ser uma mulher, como pelo fato de ser uma jornalista (para ser mais polêmico, não vimos a pressa com que se defendeu Najila no caso Neymar, nem os horrores do que se fez com Glen).

“Óbvio”, dirá o leitor. “Você não sabe quem é Miriam Leitão?”

Sim, sei, assim como sei quem é Reinaldo Azevedo, Rachel Scheherazade, Demétrio Magnoli, Marco Villa e tantos outros arautos do baronato midiático que deram sua ilustrada contribuição para “o que está aí”.

É de sua autoria o prefácio do livro de Deltan Dallagnol, onde se leem palavras hagiográficas ao procurador, agora desmistificado pelos vazamentos do The Intercept. Seu filho, o jornalista Vladimir Nero, é autor de uma outra hagiografia da Lava Jato. A lista poderia ser ampliada.

Ocorre que, para mim, Miriam é diferente.

Em 2017 o então deputado referiu-se a ela, em seu twitter, como uma “marxista de ontem” que, caso viesse ele a vencer, iria “querer lamber” suas botas, e que o lugar da jornalista era “no lixo da História”. Ele chegou lá, mas Miriam não está a lamber-lhe as botas. Pelo contrário, continua suas pertinentes críticas, à direita, ao desgoverno do Capitão, este, sim, um lambe-botas de Trump.

Seus textos no O Globo têm sido importantes para mim como críticas inteligentes aos desmandos do governo, diariamente, como é dever de ofício de quem, mesmo tendo partido (no sentido de “parte”), busca compreender a realidade social e auxiliar seus alunos a também o fazerem, da forma mais plural possível. Por isso, minha lista vai de Miriam a outros, e incluía o saudoso Paulo Henrique Amorim (que saudade!).

Durante as sabatinas com os candidatos e seus vices era a jornalista a mais crítica em relação a Jair. Como não lembrar a saia justa em que a emissora a colocou, obrigando-a a repetir, por meio de ponto auditivo, uma nota em que defendia-se, diante de Jair, das mentiras ditas por ele durante entrevista na Globo News em relação à ditadura?

Em suas redes sociais, durante a campanha de 2018, teve de ler comentários de chacotas com o fato de ter sido torturada grávida e sugerindo novos episódios desumanos a ela.

Em junho deste ano as redes bolsonaristas espalharam fake news informando que a jornalista recebia R$ 27 mil reais de pensão por ter sido presa política, ao que o próprio Ministério da Família, sob a chefia de Damares Alves, tratou de desmentir.

Na última sexta, para não deixar seus abobados, mas nem por isso menos perigosos, seguidores sozinhos nos ataques à jornalista e à verdade, e para não deixar dúvidas do quanto de identidade há entre eles e si, o próprio presidente tomou a frente e proferiu novos ataques mentirosos a Miriam, desta vez tentando desqualificá-la como “terrorista do Araguaia”.

Observe, pois, que é como “ex-marxista”, vítima da tortura do Regime de 1964, militante, sob a “acusação “de ser “esquerdista” e “viúva do PT” que Miriam tem sido atacada. Há muito Miriam, por assim dizer, mudou de lado. Sei muito bem disso. Eles, os bolsonaristas, dada sua limitação cognitiva, ou sua vontade mesmo deliberada de torcer a realidade a seus abjetos interesses, também o sabem.

Nem as feministas do “nenhuma a menos”.

Mas, prestemos mais atenção ao fato: recorrem as hordas bolsonaristas a qualificativos de acusação e ataques que, amanhã, podem ser direcionadas a mim e, quem sabe, a você.

Por isso, sou Miriam Leitão. #soumiriamleitão.

Emanuel Freitas

Emanuel Freitas

Professor Assistente de Teoria Política Coordenador do Curso de Ciências Sociais FACEDI/UECE Pesquisador do NERPO (Núcleo de Estudos em Religião e Política)-UFC e do LEPEM (Labortatório de Estudos de Processos Eleitorais e Mídia)

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