Governo dividido, por GILVAN MENDES

Em pouco mais de um mês e meio o governo Bolsonaro já ostenta disputas internas e entreveros entre seus membros. Alguns destes conflitos são de natureza imediatista, uma busca competitiva para saber quem tem mais poder dentro do PSL, claramente o caso que rivalizou a deputada Joice Hasselmann e Eduardo Bolsonaro, outros têm uma característica ideológica e refletem visões de mundo diferenciadas, demonstrando a colcha de retalhos que sustenta os novos donos do poder. Se esse tipo de disputa prevalecer existe um grande risco do governo se enfraquecer e perder base de sustentação e  relevância no cenário nacional, fazendo a ‘’nova era’’ durar menos do que o imaginado. 

Virou lugar comum rotular o governo Bolsonaro como de extrema direita. Essa análise é acertada se observarmos o tom de falas passadas do atual presidente, quando este era um mero parlamentar do baixo clero, ou mesmo de observarmos os atos deploráveis de intolerância tão presentes em sua base. Porém, com este tipo de visão generalizante perde-se as nuances e particularidades que fundamentam uma administração de cunho direitista. Na tradição política liberal-conservadora em vários momentos a ‘’fé no progresso’’ dos liberais bateu de frente com a ‘’vontade de prudência’’ dos conservadores, fazendo com que certos autores  ressaltassem as diferenças entre essas duas tendências. Entretanto, alguns governos como os de Ronald Reagan nos EUA e Margaret Thatcher na Inglaterra conseguiram com certo sucesso ‘’misturar’’ essas duas correntes. Sem falar que  Paulo Guedes está mais preocupado em realizar suas reformas liberalizantes ficando completamente alheio a debates sobre moral e bons costumes tão reverenciados pela ministra Damares Alves, a capitã do time conservador em Brasília.   O chanceler Ernesto Araújo, que geralmente tempera de conservadorismo sua visão de política externa,  já se viu em saia justa com  os militares nacionalistas que possuem uma concepção mais pragmática em relação a posição do Brasil frente ao mundo, mais favoráveis a uma ligação com a China e com certas ressalvas as atitudes do ministro no caso Venezuela. 

O choque entre nacionalistas, liberais e conservadores pode tornar a ‘’nova era’’ uma caricatura cheia de ufanismo e bravatas que não consegue seguir uma conduta coerente. Além disso, as atuais denúncias de corrupção e práticas ilícitas entre membros do PSL, podem a longo prazo desfazer a imagem de transparência e anticorrupção alimentado com fervor  pela militância bolsonarista nas redes sociais. 

É possível que tudo isso seja contornado com uma guinada ao pragmatismo, fazendo o presidente botar ordem na casa e ditar os rumos do governo. Seria uma celebração da arte da política, tão demonizada por parte do bolsonaristas durante a campanha, baseado em sentimentos anti ‘’sistema’’ que consideram  a rotina de acordos político-partidários  meros veículos de  ”toma lá da cá”. Ora, não é nada mais do que a mal afamada prática política, que no final das contas pode dar um recomeço para o atual governo. Como dizia Max Weber ”a política é um esforço tenaz e energético pra atravessar grossas vigas de madeira”.

Gilvan Mendes Ferreira

Gilvan Mendes Ferreira

Graduando em Ciências Sociais pela Universidade Estadual do Ceará.Com interesse nas áreas de Teoria Política , Democracia e Partidos Políticos.

Mais do autor

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.