Gestação literária

Concluo a leitura do rascunho de O CARÃO CANTOU, livro do escritor cearense Humberto Rodrigues Lima.

Posso dizer que o li de um só fôlego, sem arquejar.

A parte central da obra são as conversas de homens simples do campo que se reuniam na década de 50 para falar sobre suas alegrias e tristezas do cotidiano.

O “hang-out” era a bodega do Rodrigues, lugar favorito para fazer compras, “matar o bicho”, prosar e conversar, sempre aos sábados.

Há também belos lances sobre o carrossel movido à força humana. Aí a pinga rolava solta, muita gente ficava tonta e as raparigas ajudavam a animar a festa.

Humberto descreve com realismo comovente os diálogos de Zacarias e Ana, casal exemplar que suava para criar com zelo seus 10 filhos e educá-los. Ressalte-se que Zacarias foi um bravo enfermeiro na época da malária; ajudou a salvar muitas vidas, colocando a sua em risco.

No útero de sua obra em gestação bem cuidada, Humberto não esqueceu de inseminar o espermatozóide de episódios dramáticos da seca de 32 que produziu êxodo, campos de concentração de retirantes e muitas mortes – de fome e de sede.

O pássaro carão, que dá nome ao compêndio, é o ícone maior no imaginário dos profetas populares da época que adivinham invernos e secas.

A fé inabalável dos sertanejos é de arrepiar. Plantavam, a seca matava as plantações; plantavam novamente, a enchente levava; replantavam e colhiam com a força de suas orações.

Entusiasmado com o bebê literário que virá, com o DNA de informações linguísticas relevantes, anuncio seu breve nascimento para o seleto público do Segunda Opinião.

Preparem-se. O pré-natal está sendo bem feito. O CARÃO CANTOU está sendo gestado e nascerá mexendo com o coração e os neurônios do mundo literário.

Gilmar Oliveira

Gilmar Oliveira, Professor Universitário.