Garota Cais do Porto – Daniella Cruz

Serviluz, é assim que muitos moradores do local chamam o meu bairro. Tanto que esse nome já se naturalizou pela cidade. De fato não é aleatório, teve uma motivação por volta de 1950 quando os moradores usavam a Companhia de Serviço de Força e Luz de Fortaleza (Serviluz), como ponto de referência para identificar o local, porém, o seu nome oficial é Cais do Porto e eu realmente prefiro.

Entre a Beira Mar e a Praia do Futuro, estamos nós. Como se percebe, estamos no litoral de Fortaleza, CE. Fomos crescendo paulatinamente pelas mãos de pescadores e apesar do bairro ter sido considerado aldeia por muitos anos, hoje, o Cais do Porto tem escolas, posto de saúde, praça, igrejas, associação de moradores, ONG’s e projetos sociais com cursos de capacitação profissional, teatro, música, fotografia, informática, pré-vestibular e alfabetização para adultos. Me beneficiei com alguns deles quando adolescente.

Mas o que quero dizer é o seguinte: Se você nunca visitou o meu bairro, você não faz ideia do que é ser uma garota Cais do Porto.

Quando criança era uma emoção só. A Rua Odalisca foi cenário para a minha primeira pedalada. Na Murilo Borges eu brincava de pega-pega, bilas e pião. Na Zezé Diogo eu apanhava o ônibus de todos os dias.

Eu consigo lembrar de muitas coisas como: O do ritual das 16h, onde nesse horário as famílias podiam sentar na calçada para conversar. Era quando tínhamos permissão para brincar na rua. Lembro também de caminhar alguns passos e pronto! A praia era nossa. E apesar do surf ser o esporte mais incentivado do nosso bairro devido as incríveis ondas do Titanzinho, na minha família ninguém aprendeu a surfar, então, a brincadeira era futebol na praia.

Quando via meus tios formando os times, era comum meu questionamento: E eu?

Por quase sempre ser a única menina do grupo, ser goleira era o que me restava. Uma forma que os tios encontravam de me poupar de um massacre.

Mas, quer saber, eu sempre achei que aquilo era pouco para o que eu podia fazer, e por mais que eles tentassem me explicar, somente anos mais tarde eu fui entender a importância de um goleiro.

Naquele tempo eu não queria defender bolas, eu nem era boa nisso.

Eu queria mesmo era fazer o gol!

Essa forma de pensar se estendeu para a minha vida. O meu bairro é um dos que tem o menor índice de desenvolvimento humano, nele 80% da população tem apenas o ensino fundamental. Mas foi lá que eu dei o primeiro passo da minha carreira: Aprendi a ler.

Quando se é criança tudo é nice e o bairro é a única referência de mundo que temos, só que por mais que a gente goste do lugar, quando chegamos na adolescência, nossa visão crítica se amplia. Temos a pretensão de mudar tudo, pois nada parece ser como queremos.

No Cais do Porto a gente cresce com uma sensação de angústia que só nós entendemos. De um lado temos grandes distribuidoras e refinarias de gás, combustível e petróleo, na outra ponta temos o mar. Nossas casas estão no meio disso. “Ter” o mar era para ser algo incrível, mas para mim só foi até o momento em que comecei a ouvir os falatórios dos adultos sobre o risco de ondas que poderiam destruir tudo, e ainda, as possibilidades de explosões e incêndios devido à proximidade com as distribuidoras gás.

Bom, só me restava torcer para que o mar nunca reivindicasse seu espaço e que nessas distribuidoras nunca houvesse vazamento de gás. Vocês não fazem ideia de como isso desenvolve nossas habilidades estratégicas. Muitas foram as rotas de fuga traçadas por mim na minha inocência.

O tempo passou e eu vi a droga chegar ao meu bairro e junto com ela a prostituição se evidenciou ainda mais, criando uma espécie de rótulo inclusive para as garotas que em nada tinham relação com essa forma de viver. Isso já mudou muito, mas muitas de nós por volta de 2005, ainda tínhamos que ser bastante audaciosas ao preencher formulários com nosso endereço, e se fosse necessário dizer em voz alta, descia sobre nós uma convicção de quem nós éramos para que isso se estendesse a quem recebia a informação. Creio que já dá para começar a entender como era ser uma garota do Cais do Porto.

Com o pensamento ainda jovem e carregado de preconceitos bobos que ainda seriam banidos de mim, eu me perguntava como eu fui parar ali. Sentia tudo diferente de mim. Se me expunha ao sol praiano tão badalado – tinha insolação, eu não curtia o surf e a maresia ainda destruía nossas coisas, inclusive o meu computador tão difícil de conquistar. Eu continuava querendo fazer o gol, mas como eu conseguiria ser uma garota comum vivendo no Cais do Porto?

Muita coisa no meu bairro mudou, vi o medo da violência recolhendo as cadeiras das calçadas, vi surgir oportunidade de negócio para os metalúrgicos da região com a venda de grades para as portas.

Continuávamos abrindo portas e janelas, só que agora as grades estavam lá. Ainda estão.

Na adolescência me decepcionei ao perceber que o Cais do Porto não era um porto seguro. Quis nesse tempo usar todas as vantagens de ser invisível, o que nem sempre funcionava porque quanto mais discreta tu for, mais tua existência é notada. Ainda assim passei um tempo no anonimato para algumas pessoas que nunca me viam pelo bairro. Eu saía muito cedo para os estágios, chegava muito tarde da faculdade e algumas pessoas não frequentavam a minha igreja. Era natural que não me conhecessem.

Sim, eu considerei o meu bairro limitado e não via a hora de cortar as raízes que me prendiam a ele. Felizmente consegui perceber a tempo suas qualidades e defeitos, cada coisa em seu lugar. Mas precisei ficar adulta para isso.

De fato a minha rua nunca me ofereceu uma bela paisagem, mas amarrou os meus dias àquele bairro de uma forma que eu não pretendo esquecer.

Meu bairro está em mim porque parte da minha história está nele.

Ali habitam gerações, problemas sociais, vizinhos que se gostam, outros que não se falam, além de diversos hábitos, estilos de vida e formas de se enfrentar a solidão e o vazio da alma. Existe gente feliz, honesta, esforçada. Temos uma realidade semelhante a outros bairros de Fortaleza. De um lado a fé dos cristãos, do outro o álcool camufla a dor de existir de algumas pessoas, e seguindo rua adentro, outras tantas formas de viver, cada um a seu modo. Ali eu tenho amigos e tenho família.

A verdade é que meu incômodo sempre esteve relacionado aos medos que eu tinha, mas nunca me senti marginalizada, nunca acreditei que por vivermos em um bairro da periferia precisávamos nos sentir e agir como pessoas excluídas da sociedade, isso era uma questão de consciência. E eu queria muito que todos os jovens do meu bairro entendessem isso. Nasci e cresci em uma periferia e posso dizer que eu nunca fui excluída do resto do mundo porque eu me esforcei para não ser, mas para isso eu precisei correr muito. Fiz bola na trave, caí, mas não desisti do gol. E fiz. Não só um, mas vários gols.

O Cais do Porto é cheio de garotas que, assim como eu, lutam todos os dias por uma vida melhor. Essas garotas mantêm seus interesses em questões substanciais, seja na busca de conhecimento ou na prática da indulgência, qualidade que nos torna pessoas melhores. Para essas garotas o amanhecer sempre é de esperança. Isso sim me representa.

Cheguei à conclusão que em todas as ruas do meu bairro existia poesia, e que, além de histórias lindas para contar, temos seres humanos incríveis povoando o Cais do Porto.

O meu bairro é bonito, é misterioso e tem seus encantos.

De tão encantado abriga uma das mais antigas edificações de Fortaleza: o Farol do Mucuripe, construído pelos escravos entre os anos de 1840 e 1846. Ou seja, até o velho “Olho do Mar” como era chamado o Farol, é nosso!

E se você quer saber… Sim, eu cresci em um bairro nobre.

Não sei se eu teria tanta coisa para contar se tivesse tido a vida que por um tempo eu pensei ser melhor que a minha; ruas silenciosas, prédios altos, onde embarque e desembarque acontecem dentro de uma garagem.

Na dúvida, me alegro com o que tive, pois Deus sempre capricha.

Os holofotes nem sempre se ascendem sobre essas garotas, porque infelizmente algumas pessoas acostumaram-se a dar mais ibope para o que é vulgar e desastroso, e a mídia nem sempre ajuda.

Mas nós existimos. A questão é que continuamos chegando no nosso bairro apenas para dormir, estamos ocupadas demais repetindo um ciclo que só nós sabemos quão difícil e prazeroso é. E na real, para muitas de nós, pouco importam os holofotes desse mundo. Nós sabemos de nossas conquistas.

Eu sou uma Garota Cais do Porto.

Daniella Cruz

Daniella Cruz

Daniella Cruz é Psicóloga, empreendedora, especialista em Gestão Estratégica de Recursos Humanos e MBA em Gestão de Pessoas e Liderança. Tem participação em antologias literárias e é colunista no SegundaOpinião.jor

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