GALINHAS E CORDEIROS DEFENDIDOS POR RAPOSAS E LOBOS?

Desci pela Pontes Vieira e pisei forte no acelerador em direção ao bairro de Fátima. Seis meses estacionado, o carro estava preguiçoso e tive a impressão de que queria parar. O cinto de segurança causava-me desconforto como uma corda me amarrando. Fui ligar o ar e acendi a luz. Será que desaprendi, pensei criticamente. Seis meses de molho em casa, sem sair e sem dirigir não é pra menos.

Sintonizei o rádio na estação do Senado e passei a ouvir mansos discursos de senadores com vários apartes. Nobre senador, vossa excelência, sua excelência, data venia, eram as frases mais ouvidas.

Inflação, mortes pela pandemia, reforma administrativa, direitos retirados e desgoverno, compunham frases lindamente adornadas com forma e conteúdo sofisticados, anestesiando a profunda dor da realidade.

Fora Bolsonaro, governo homicida, misógino, homofóbico, lambe-botas do Trump, expressões comuns nas manifestações do povo nas ruas, inexistiam no repertório linguístico dos “representantes” da massa de eleitores.
Que representantes são esses? A quem representam? Imaginei assistindo a um filme mental e vendo o povo sendo ludibriado.

Parlamentares de vários partidos se revezavam na “defesa” do povo sofrido. Representantes venais, endinheirados e cheios de privilégios, falavam em nome de representados famintos, desempregados e desassistidos. Paradoxo total. Diferente das vozes roucas e/ou estridentes das ruas amplificadas por megafones.

O PT, meu partido, parecia um dos mais bem comportados naquele momento. Envergonhado, vi Lula nos anos 70 com a barba preta e seus cabelos despenteados; ouvi também sua voz gutural dizendo: – Companheiros, a classe trabalhadora tem que ser respeitada pela elite. Ela é quem constrói esse país.

Cheguei ao meu destino, estacionei e fiquei ouvindo mais um pouco as falas generosas dos “defensores” dos pobres. Eram gritos sonoros de homens instruídos que manipulavam elegantemente palavras e ideias. Um verdadeiro malabarismo retórico e vazio, distante da realidade concreta da vida da maioria dos brasileiros.

Macaqueação da grossa, falei baixo e com torpor ao desligar o rádio e descer do carro apressadamente, pois estava em cima da hora.

Como pode representantes da burguesia, com salários e benefícios altos defenderem os explorados?

Que negros, prostitutas e LGBTs; moradores de rua, desempregados e ambulantes; micro, pequenos e médio empresários; sem terra, sem teto e sem vez … se organizem e assumam os parlamentos com coragem e independência. Os discursos frouxos dos poderosos deve desaparecer, enxotados pela voz autêntica do povo.

Acordemos, camaradas! Vamos fazer a primeira revolução do Brasil …sem sangue. Polarização e enfrentamento de ideias é a palavra de ordem. A arma é a língua e o gatilho a certeza da mudança.

Abaixo o Capitalismo que separa, explora e mata; viva o Socialismo que une, compartilha e fortalece.

Excluídos, organizem-se e coloquem suas vozes nas Câmaras de Vereadores, nas Assembleias Legislativas, na Câmara dos Deputados e no Senado. Não permitam que os eleitos pela força do dinheiro lhes representem.

Enquanto galinhas se deixarem representar por raposas e cordeiros por lobos, isso não vai mudar e o povo continuará na peia.

Avante, Camaradas!

Gilmar Oliveira

Gilmar Oliveira, Professor Universitário.