FUTEBOLÊS EM DIA DE CHOCOLATE – Ao leite, pra nós; amargo, pra eles

– Professor, recentemente ouvi o Grafite, ex-jogador de futebol e ora comentarista de esportes da Globo, enfatizando que um desses entendidos de Português teria recriminado o uso da expressão “orelha da bola”, usada, às vezes, por quem narra o chute ou passe mais conhecido como “de trivela”, porque de “três dedos”, se com o lado de fora do pé, ou “de bandinha”, “de bandola”, se com o de dentro, na parte mais lateral da bola, de forma a ela impor um efeito especial, com giro em torno do próprio eixo e curva no trajeto, em relação ao chutador ou passador, para dentro, côncavo, ou para fora, convexo. O crítico afirma que não há lógica na expressão porque “bola não tem orelha”. E aí, o que você acha disso?

– Coincidentemente, amigo, eu também ouvi, numa transmissão de jogo do brasileirão. Quanto ao “entendido”, trata-se, no caso, do professor Sérgio Nogueira, que, respeitosamente, eu o incluo no “time” – já que falamos de futebol – dos paragramáticos, ou seja, estudiosos da nossa língua que produzem e lançam ao público livros que, a rigor, subsidiam as produções legitimadas como Gramáticas, cujo ícone é o midiático Pasquale Cipro Neto. Desde já, ressalto que o seu questionamento, na forma como você o fez, me estimula a resgatar da memória uma primorosa cobrança de falta, em jogo do Brasil contra a França, em torneio de preparação à Copa de 1998, ganha pela turma do gênio Zinédine Zidane, em solo francês, quando o lateral esquerdo Roberto Carlos desferiu um petardo de trivela; a bola, em velocidade de bólido, perfazendo um trajeto convexo, de curva por fora da barreira, contornando-a, aninhou-se no fundo das redes de Fabien Barthez, goleiro dos “bleux”, todos eles, então, com cara de “abestados”, como costuma dizer um sertanejo de raiz, amigo de infância. Um golaço, amigo. Uma verdadeira obra de arte, de impossível reconstrução, objeto de pesquisa acadêmica. Pois bem. Cuidemos da sua questão. É óbvio que a bola não tem orelha; mas, por acaso, ela tem cara? Só que, quando alguém chuta, atingindo o “peito do pé” (E pé tem peito?!), em cheio, no meio dela, é comum afirmar que ele acertou a “cara” da bola; ou, como narravam ases da locução esportiva em passado não muito distante, “enfiou o cadarço da chuteira na cara da redonda”. Embora, no caso hipotético ora trazido à baila, a tentativa do atacante não tenha surtido o efeito desejado, porquanto o “bólido” passou rente ao “pé da trave” (E trave tem pé?!) ou “explodiu” na “testa” do travessão (E, por acaso, trave tem testa?), com o jogo provavelmente sendo paralisado até que recuperassem os estragos então causados pela “explosão” que a ninguém assustou.

– Interessante. Há quem diga, eu incluso, que o pênalti indefensável é o que faz a bola atingir a “bochecha” da rede. Não há goleiro que consiga interceptar o trajeto da bola.

– E rede não tem bochecha, né amigo! A língua portuguesa, na sua vertente mais musical, melódica – a brasileira –, é generosa, é pródiga sem ser perdulária. Vasto e variado é o seu campo de atuação. Inúmeras são as variações postas em prática pelos usuários, de etnias multifacetadas, de culturas diversas na origem e nos costumes, embora sempre mantidos pontos de contato com a vertente padrão, a forma clássica, submissa ao rigor das normas gramaticais. A Sintaxe, parte da Gramática que se debruça sobre as estruturas das frases e, por extensão, sobre as relações entre seus componentes, prova isso. Na Semântica, que cuida, a rigor, dos significados contidos e expressos nas palavras, muitos são os instrumentos de criação de novos vocábulos, novas expressões. Sábado, amigo, passei em frente a um shopping –, na esquina da Professor Otávio Lobo com a Padre Antônio Tomás, no Cocó, a poucos metros da Unichristus do Parque Ecológico, onde a minha neta cumpria atividade curricular da graduação em Biomedicina –, cujo nome – Portugaleria – me chamou a atenção pela criatividade no tipo de composição (amálgama), com o encaixe, a fusão acontecendo no conjunto das três letras centrais “gal”, comum (fim e início) aos dois vocábulos (Portugal e galeria) que dão origem à palavra nova (neologismo), de agradável estética. E isso resulta da função poética da língua viva, em uso. E o futebol é campo fértil neste particular. Lá, onde “matar” não constitui pecado ou crime, seja no peito, na coxa e até na “canela”, ocorrem tanto o “drible de corpo” quanto o “drible da vaca” ou o “arrodeio”, a “caneta” (a bola metida no vão das pernas do incauto adversário, ora em situação vexatória), o “elástico” (o original com a assinatura de um craque, o Roberto Rivelino; até a bola fica tonta!), a “pedalada” (que serviu até para justificar o impeachment de Dilma), o “facão” (que consiste em o canhestro avançar pela ala direita, ou o destro pela esquerda, driblar de través a marcação e posicionar-se para o chute ou cruzamento com a perna que mais o favorece), a “fatiada” (o “tapa com estilo e sem maldade” num lançamento em linha reta), o “corta-luz” (o lance do Pelé contra Ladislao Mazurkiewicz, goleiro do Uruguai na Copa de 70, tornou-se memorável), o “lençol” ou o “chapéu” (o velho e humilhante “banho de cuia”), o passe ou o gol “de letra” (as pernas do artista em xis na ora do cometimento do ato), a “bicicleta” (acrobacia circense cujo inventor, Leônidas da Silva, era conhecido como Diamante Negro ou Homem-Borracha), “a puxeta” (a recuperação genial de lance quase perdido), o “míssil” (cabe aqui citar frase de Marinho, então santista, que assim conceituou um forte chute seu ao gol, na vitória sobre o Botafogo carioca: “Aí foi um mini míssil aleatório”), a “ponte” ou “voo” do goleiro (o Aluísio Linhares, goleiro do Vozão, era catedrático em defesas do tipo, o que o fez merecer o cognome Caravelle, o avião a jato da época) o “tostão” ou a “paulistinha” (a joelhada, proposital ou ocasional, na coxa do adversário; e como isso dói!), o “carrinho” (atualmente considerado ato faltoso, cabível até a advertência ao agente, ante o risco por que passa o paciente), a “cama de gato”, o “ferrolho” (a retranca quase intransponível, que me faz lembrar o Dimas Filgueiras, seguidor de Parreira), o “arco e flecha” (o construtor e o finalizador), o “catar cavaco”, o “tomar frango”, e por aí vai.

– Pelo que entendi, professor, você não descarta a expressão “orelha da bola”. É isso mesmo?

– É isso mesmo. Não descarto, não. Com todo respeito ao professor Sérgio Nogueira, se é que ele defende mesmo tal entendimento sobre a bola não ter orelhas, mas, em todas as citações ou referências aqui por mim feitas, sinto haver nelas um apreciável odor de metáfora, a figura de linguagem verificada na comparação implícita de palavras ou expressões, em face de uma relação de semelhança havida ou estabelecida entre elas. Eu acho até que, nos cruzamentos – a cobrança de escanteio, por exemplo –, o jogador chuta a parte da bola mais próxima da grama, ou seja, atinge o “queixo da criança”. E, não raro, ela vai agasalhar-se no “seio” da torcida. É isso aí, amigo.

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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