FORTALEZA: 5,59

Adquirido ainda na juventude, certamente em face de reveses com que a Vida pôs à prova a minha resiliência, ou seja, a capacidade de reagir em situações extremamente adversas, mantenho o hábito de parar e olhar para trás – não raras vezes diante de espelhos físicos ou incorpóreos que refletem com absoluta clareza o objeto da minha sempre rigorosa autocrítica – e, então, permitir-me rever (no sentido de ver novamente) pontos específicos da trajetória percorrida: atitudes e atos que poderiam ter tido um outro rumo (encruzilhadas, bifurcações de caminhos, quando me vi obrigado a decidir por qual deles deveria prosseguir… e, sem titubeios e profundas e desgastantes avaliações, prossegui); fugas e omissões por inexperiência ou temeridade (passagens ao longo da estrada, sem disposição para sequer olhar de esguelha o que se me oferecia às margens, percebido apenas pelo sistema sensorial, ora impossível, obviamente, de qualquer reconstituição no plano tangível); assunção comigo mesmo de razoáveis e até factíveis compromissos – promessas nunca cumpridas, louvável é logo adiantar –, todos eivados de firmeza de propósitos, de vontade inabalável, de desejo de mudar, de ser diferente, de ser melhor (encontros e reencontros dos principais personagens cujos papéis – dramáticos, cômicos, farsantes – cumpre-me interpretar no teatro da minha prodigiosa existência terreal; em outros termos, que tudo isso resumem, os meus “eus” vários e inimitáveis porque só a mim pertencem; nada de egoísmos ou egocentrismos; nada de romantismos, só realismo nu e cru). Assinalo que tais solilóquios independem de motivação específica para ocorrer; não guardam relação com fato marcante, com evento significativo – passagem de ano, por exemplo. Eles vêm quando querem vir; não se submetem ao meu controle.
E isso ocorreu recentemente.
Eu, que poderia ter abraçado a vida religiosa, ter-me ordenado padre salesiano, discípulo de Dom Bosco – a oportunidade me visitou, bateu-me à porta; eu é que não a abri –, hoje não consigo ser sequer católico praticante, a rigor não professo qualquer tipo de fé, embora não me considere ateu, agnóstico, cético, acesse regularmente – e sem intermediários – os meus canais de contato com o Altíssimo, em ato de reconhecimento de sua onisciência e onipotência, muito mais para pedir que para agradecer. Eu, que poderia ter ingressado na Polícia Federal, na condição de agente, aprovado em concurso público e impedido de iniciar os procedimentos de qualificação por quem detinha poder para tanto – o meu saudoso pai –, hoje percebo não havia em mim um resquício sequer de “talento” para tal mister. Quanta confusão isso teria causado na construção do meu perfil profissional, com desvios consequentes no psicológico! Reconheço que arroubos de lucidez afloram de quadro comportamental tendente à loucura; nada a ver com decisões pontuais assumidas no passado.
Acho que nasci para ser professor, com boa dosagem de carga hereditária, parte materna do DNA. Acabei sendo bancário. Lembro-me até de que, em evento do Programa de Desenvolvimento Gerencial (PDG) promovido pelo Banco Central, conduzido em Fortaleza pelo professor César Wagner, da área de Psicologia da UFC, e por mim coordenado na função de Agente de Desenvolvimento e Treinamento (ADT), o Nivardo Gentil, Chefe-Adjunto do então Departamento Regional de Fortaleza (DEFOR), quis saber o que eu, ainda criança, teria pretendido ser quando crescesse. Respondi-lhe, de pronto: “Bancário”. Ele não acreditou e ainda questionou: “Ninguém sonha em ser bancário. As pessoas preferem ser médico, engenheiro, advogado; mas bancário, duvido!”. Em verdade lhes digo, ó diletantes leitoras e leitores, eu sonhei em ser bancário, do Banco do Brasil, na minha terra natal, de camisa branca de mangas curtas e gravata azul escura lisa. Por duas vezes tentei; muitos puseram fé em mim; mas o banco não me quis. Alcei outros voos.
Poderia ter-me formado em Ciências Econômicas – descobri-me inapto tão logo ingressei no Nível Profissional, exatamente numa desgastante, para mim, aula de Econometria; corri sério risco de me internarem no Mira y López, hospital psiquiátrico sediado na avenida da Universidade, bem ao lado da igreja da Senhora dos Remédios –; em Ciências Contábeis – perdi o interesse a dois semestres da conclusão, após greve de professores que se alongou por quase um ano, em meio ao caos estabelecido em sala de titular da disciplina Auditoria Contábil, frustrado ante o retorno sem ganhos, que, em meio à balbúrdia, expulsou-nos dali, sentenciando: “Todo estudante é vagabundo. E eu não acolho vagabundos!”. Ele era também funcionário do Banco do Nordeste; eu, servidor do Banco Central; professor e aluno: a corda arrebentou do lado frágil –; em Direito – simplesmente abandonei a aventura após uma semana de experimento, quando me senti um estranho em ninho de gênios –; e acabei me graduando, já cinquentão, em Letras – língua portuguesa e suas literaturas. Sou monolinguista de raiz. Adolesci e virei gente no curso do regime militar. Curvo-me, em reverência, aos símbolos da Pátria: a bandeira, o brasão, o hino, o selo e a língua (este último, lancem ao meu crédito). Ao me aposentar, propus-me ser o que deveria ter sido: professor. Obtive aprovação em certame na rede pública estadual de ensino. Fatores supervenientes – coisas do Destino – tolheram essa iniciativa; assumi a aposentação; as horas vagas ou ociosas, eu as preenchi e preencho como escritor temporão – um quase Saramago, por assim dizer. ​
Num dia, aí pelos idos de 2018, uma colega de ofício me propôs a criação de um grupo no Facebook, um perfil que abrangesse os “Aposentados ativos de Fortaleza” com o propósito de proveitosa aproximação de seus membros, naturalmente dispersos, em reuniões regulares para almoços e troca de ideias. Eu deveria ter aceitado; não foi o que aconteceu. Nem sequer dispensei à proposta a devida atenção. É o que revela a resposta dada, via Messenger, e agora recuperada, a qual ora transcrevo literalmente:
“Antes de qualquer coisa, devo pedir-lhe desculpas por não haver respondido a sua consulta com a presteza de que você se faz merecedora. Vivo um momento de tempo corrido… por demais corrido. Alguns projetos de prazo determinado, que se aproxima velozmente, têm-me envolvido de tal forma que me venho sentindo sem tempo até para ‘navegar’ pelas redes sociais com as mesmas frequência e intensidade de antes.
“Quanto à sua proposta, considero-a interessante. Reencontros de velhos amigos, resgates de momentos importantes de nossas vidas, tudo isso carrega uma carga emocional revivificante. Eu aplaudo iniciativas de tal gênero.
“Infelizmente, amiga, um misto de hipertensão (por mais branda que seja), colesterol (considerado alto para o meu perfil) e hiperglicemia (o velho diabetes, amigo inseparável – chega até a dormir comigo!) impõe-me um tratamento medicamentoso agressivo (sem falar numa dieta exageradamente restritiva) que afeta inclusive os meus humores: as reações oscilam, ao sabor do tempo, entre a delicadeza de uma jovem dama, a gentileza de um garboso cavalheiro e, o pior, a rudeza de um indômito vilão.
“Assim, resta-me apenas, amiga, fugir das lojas de produtos de porcelana por haver risco iminente de eu me comportar como um indomável e bagunceiro elefante.
“Quando o quadro se tornar mais sociável, procurarei você para fazer a minha inscrição e saudavelmente participar dos encontros de tão seleto grupo que, certamente, você vai conseguir reunir.
“Um abraço fraterno.”
E isso nunca aconteceu. Acho até que a ideia se tornou natimorta. Sinto haver contribuído para tal desfecho. A inexorabilidade do tempo não nos permite pretéritas correções de rumo. É como assinalou o filósofo Heráclito de Éfeso: “Nenhum homem pode banhar-se duas vezes no mesmo rio”. As águas serão outras. O homem será outro. Ou como diziam os mais velhos quando nós éramos os mais novos: “Pra frente é que as malas batem”. De nada adianta chorar o leite derramado. Impõe-se melhor cuidar das vacas que o produziram. Que subsista, portanto, algum aprendizado!
Nesta altura do texto, cabível se torna, ó serenos leitores e leitoras, questionar se há alguma relação entre tudo até aqui exposto e a proposta contida no título que a ele atribuo. De pronto, esclareço: não há. Se fosse prova de redação em vestibular, em concurso, em qualquer tipo de exame de competência linguística, de avaliação de domínio da língua pátria, eu mereceria a nota “zero” por ter fugido ao tema. E isso me faz lembrar um fato envolvendo o filho de um suinocultor, profundo conhecedor, como o pai, de toda a técnica de criação e engorda de porcos, vivenciando a experiência de candidato a uma vaga na faculdade de Medicina Veterinária. Aparvalhado com o assunto a desenvolver na prova de produção textual – “A atuação dos políticos brasileiros na reconstrução da Democracia após o regime de exceção” –, o jovem assim tentou burlar a rigorosa apreciação dos corretores de prova: “É público e notório que políticos, sempre em proveito próprio, adoram extrair ouro da lama. E quem mais gosta de lama? Os porcos!”. Pronto. Estabelecido o “link” entre uma coisa e outra, discorreu sobre matéria de seu amplo domínio: as técnicas da suinocultura. Não sei que conceito obteve, mas a artimanha utilizada cruzou o país como atitude a evitar, como exemplo a não seguir em situações do gênero.
Quanto ao vertente caso, o caminho mais curto para corrigir tal inconsistência seria o de simplesmente substituir o título por outro que se adequasse ao texto. Prefiro mantê-lo. Sob justificativa, é claro. Pois bem. Ao defini-lo – Fortaleza: 5,59 –, pretendia ressaltar quão submissos somos à vontade de grupos econômicos e gestores públicos que nos fornecem bens de primeira necessidade ou nos prestam serviços essenciais – públicos ou privados –, especialmente em momentos cruciais, como o de passagem de ano. Não há a quem recorrer, a reclamar os aumentos de IPVA e IPTU, por exemplo, a elevação das tarifas de luz e água, a correção de preços dos planos de saúde, dos prêmios de seguros, das mensalidades escolares, tudo indexado, segundo os entendidos, ao novo valor do salário mínimo ou ao índice inflacionário apurado em período imediatamente anterior. Entretanto, o grande vilão do orçamento doméstico são, sem dúvida, os combustíveis. E é no mínimo incompreensível o que fizeram os donos de postos na reta final do ano que se foi. Senão, vejamos. Na segunda-feira seguinte à confraternização natalina, fizemos – eu, a minha eterna parceira e os netos que conosco vivem – uma viagem de visita a familiares em Baturité. Pelos meus cálculos, havia gasolina em quantidade suficiente para cobrir com tranquilidade todo o percurso – ida e volta. Já na bifurcação da CE-060, que segue para Capistrano e cidades adiante, com a CE-356, a 9 km do destino, decidi por simples impulso parar no posto à esquerda e reabastecer o carro – o preço do litro (R$4,74) mantinha-se no patamar dos então praticados em Fortaleza. No retorno, à boquinha da noite, surpreendi-me com o que vi em todos os postos às margens das avenidas ou ruas da iluminada capital: gasolina a R$5,59, “no dinheiro, débito ou pix”. Tratava-se de reajuste de uns 12,5%, sem qualquer base plausível. A Petrobras não havia anunciado qualquer variação de preço para entrega às distribuidoras; portanto, não cabia falar em repasse. Existia apenas a possibilidade do fim da desoneração dos combustíveis na virada do ano. A explicação dada por representante da categoria careceu de poder de convencimento, lembrando um pouco a “inflação do chuchu” na era Delfim Neto.
Em verdade, já consumimos um terço do mês inaugural do ano e, pelo menos na banda de cá, a coisa se mantém inalterada – Fortaleza: 5,59!

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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