Flor e som – por Pedro Henrique

 

[Flor renitente]

 

é preciso ser radical como uma flor

que irrompe o asfalto

e o enfeiamento do mundo;

que envergonha a música presente

(cada vez mais barulhenta);

que contorna a barbárie de quem a alimenta

e por ela é consumido;

que cora a face da poesia ruim, medíocre;

que realiza o que pintores e mais pintores tentam enquadrar,

o que artistas e mais artistas intentam

representar,

expressar,

encenar;

que subverte a consciência dos que lutam por migalhas

e desfalece de alegria aquela moça triste;

que apaixona a multidão de solitários

e faz amor com a lua;

que flerta com o perigo de ser crítica, cortante

e educa até mesmo os educadores;

que vaga nua ao meio-dia

e é consumida pelo fogo à meia noite;

que faz a alma de ferro ter leveza

e alçar voo quando não encontra nenhum caminho traçado;

que reúne em si, e para além,

o desejo,

o ímpeto

e o conteúdo

de por abaixo o velho mundo, mercantil…

que grita inebriada de tamanha beleza

porque se desabrocha em algo mais que flor:

é vida em meio à morte

é fúria em meio à passividade

é desejo em meio à apatia

é consciência em meio à sujeição

é dança

espírito

encontro, festa, esperança:

eu, você, todos nós.

urge sermos, sem medo, cada um, uma flor

(rosas, margaridas, violetas)

um jardim, uma floresta, um bioma,

um planeta.

 

”Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde

e lentamente passo a mão nessa forma insegura.

Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.

Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.

É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio”

(DRUMMOND, A flor e a náusea)

 

[Canção inaudita]

 

Uma canção que todos cantem,

que encante a todos:

todos quanto puder, todos quanto houver.

Uma canção que não toque somente o coração;

que não toque somente a alma;

que toque a nós, algo tão em falta.

Que não seja pranto

nem mero encanto:

que toque tudo quanto puder,

tudo quanto houver.

Uma canção que seja mais

que um simples refrão,

reproduzido continuamente…

Que irrompa não só a degradação da audição,

mas também a solidão.

Que seja uma espécie de capoeira,

maracatu,

quadrilha.

Que embale o ladrilho da rua

não só para o meu amor passar,

mas para a “locomotiva ativa da emancipação”

que passará…

Com esse canto bem mais que pranto.

Com esse espanto bem mais que encanto.

Com o espírito dessa ávida vida que advirá.

Espalhando no ar

o cheiro,

o tato,

o gosto,

o som de um tempo sem contratempo;

anunciando a todos grandes momentos.

Uma canção que não é

erudita

nem popular.

Uma canção em permanente construção:

por mim, por você e tudo quanto houver

(pássaros, rios, vento nas folhagens).

Uma canção que ainda apenas prenuncia

o ritmo da emancipação.

 

“Eu preparo uma canção

Que faça acordar os homens

E adormecer as crianças”

(DRUMMOND, Canção amiga)

Pedro Henrique

Pedro Henrique

Mestre em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará (UECE) e Terapeuta Holístico em formação pelo espaço Ekobé.

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