FIQUE EM CASA, SENÃO… (3)

O ato governamental que, já no avant-première do plano de retomada da Economia – embora a Saúde ainda se mostre bastante fragilizada, sem indicativos promissores e convincentes de que a crucial curva da pandemia tenha sinalizado para uma fase decrescente de casos da letal Covid-19 –, promoveu recentemente a inserção das barbearias no rol dos serviços considerados essenciais, com a consequente liberação para a prestação de serviços à sua agora clientela de cabeludos mascarados, sob a condição sine qua non de observância rigorosa de protocolo específico, o que inclui, além dos procedimentos já tidos como habituais – tais como a ininterrupta e escorreita utilização de máscaras, de tal sorte a garantir a necessária proteção de narizes e bocas, e a disponibilização de álcool em gel para a assepsia das mãos e a desinfecção de equipamentos e instrumentos de uso individual ou coletivo –, a higienização do ambiente, o atendimento mediante agendamento, o distanciamento regulamentar mínimo entre as pessoas e a adoção de medidas preventivas contra aglomerações de qualquer ordem, aludida decisão oficial provocou em mim, de imediato, dois efeitos circunstancialmente naturais.

Um. Acometeu-me a sensação de que essa essencialidade, só agora legitimamente reconhecida, deveras me incomodava já há algum tempo, especialmente nas vezes em que me via projetado em todo e qualquer objeto com alguma capacidade de espelhamento, revelando-me, invariavelmente, como alguém recém saído das trevas, muito embora já se manifeste em mim, na parte mais superior da minha quebrantada estrutura física, no alto do meu promontório cefálico – a que o povo costuma chamar de cocuruto –, uma acentuada calvície, cujo “campo de pouso”, ia, aos poucos e em face do inarredável descaso, se enchendo de ervas daninhas, ou melhor, de esparsos fiapos de cabelos, anêmicos e esvoaçantes, a enfear-me além das naturais carências de estética. Um Adônis qualquer jamais pretendi ser.

Dois. Apoderou-se de mim a disposição, resoluta e incontida, de aproveitar, logo ao abrir dos salões, a oportunidade de dar uma repaginada no visual – um upgrade, para empregar terminologia mais atual, embora se trate de vocábulo aqui tomado de empréstimo da informática, mais apropriado às maquinas e aos sistemas de computação eletrônica –, de forma a readquirir a imagem largada à porta da quarentena, lá quando, temeroso do pior, isolei-me no meu mundinho bem particular, no meu simplório e antiviral bunker de superfície. Assim, tratei logo de ligar para o cabeleireiro que tão zelosamente sempre cuidou dessa importante parte da minha já desbotada aparência pessoal e agendei atendimento para a primeira hora do dia seguinte, até porque tenho observado ser o despertar da manhã, ainda com o sol se espreguiçando após o cotidiano descanso, o período de menor movimento nas ruas e, por conseguinte, de mais baixo risco de contaminação. (E que Deus me livre disso para sempre!).

Na terça-feira, 2 de junho, agi como dispõe o meu perfil, ou seja, rigorosamente de acordo com o que programara e devidamente protegido, conforme mandam as vigentes regras do recomendável comportamento. A cidade ainda não acordara e, se alguém já estivesse de pé, ainda não saíra às ruas. Trânsito livre. Trajeto coberto sem quaisquer percalços. Algo, porém, destoou das minhas conjecturas. Com efeito, um pequeno contratempo, fora do previsível, na busca por vaga de estacionamento impôs-me um inesperado e indesejado atraso. Tanto é que, ao adentrar a barbearia, ali entre a Praça José Bonifácio, em frente ao 5º Batalhão da Polícia Militar, e o Instituto Doutor José Frota (IJF), o vistoso relógio de parede, bem ao alcance de quem se interessar quisesse, mostrava que cinco minutos já se passavam das sete, o horário para mim previamente reservado.

 

Pacientes leitoras e leitores, permito-me aqui abandonar, por um lapso de tempo plenamente aceitável, o curso normal da narrativa, fenômeno a que costumam os outros rotular de parênteses. Pois bem. Caso queiram saber o que pode acarretar, até na literatura, esse tipo de descumprimento de horário compromissado, recomendo a leitura do conto de José de Alencar, de sua fase inicial, cujo título é, exatamente, Cinco minutos, do qual extraio o seguinte excerto, de boa relação, a meu ver, com o que logo adiante pretendo narrar-lhes: “Podia dar-lhe outra resposta mais breve, e dizer-lhe simplesmente que tudo isso [no caso do personagem-narrador, a felicidade de uma grande paixão – Carlota – e uma viagem de um ano pela Europa; e que o mestre Alencar me desculpe pela desrespeitosa intromissão!] se sucedeu porque me atrasei cinco minutos.” Quanto ao que decorreu do meu imperdoável atraso, posso agora adiantar que não me permitiria jamais concordar com a conclusão do prefalado romancista, cearense de celebrado reconhecimento no universo literário brasileiro, segundo o qual “Isto prova que a pontualidade é uma excelente virtude para as máquinas, mas um grave defeito para um homem.” Vocês hão de acolher como no mínimo defensável esse meu entendimento, diametralmente oposto ao do consagrado escritor.

 

Retomemos, pois, o curso normal da narrativa. Reposicionemos o fio da meada no tear de cosedura da trama, sempre na busca da melhor tessitura.

 

O profissional já havia iniciado o primeiro atendimento, com justa razão, ante a minha injustificada falta. Mesmo assim, desculpou-se:

– Amigo, vi-me obrigado a fazer este atendimento especial. Trata-se também de um cliente de muitos anos. E, ainda mais, ele é médico e está prestes a iniciar plantão ali no IJF. Espero que entenda…

– Que é isso, Zé? É até prazeroso pra mim ceder lugar a um profissional da saúde. Fique tranquilo. Eu espero a minha vez.

– Ah, infelizmente, por conta da pandemia, tive de suspender a assinatura do jornal. Pra ler, nada tenho a oferecer… mas, espere um pouco… vou ligar a televisão. – Disse isso já se dirigindo ao gaveteiro em cujo tampo dispõe os seus apetrechos de trabalho. Pegou o controle remoto, apontou-o para o televisor em suporte fixado na parede, bem próximo ao relógio, e acionou os devidos comandos. Então, completou. – Já está no jornal…

Enquanto o doutor, com um sorriso amigável, agradecia a minha obsequiosidade, sentei-me na mais afastada das quatro cadeiras dispostas na ampla área de espera, com distâncias intervalares seguindo os critérios preestabelecidos pelas autoridades que ditam os procedimentos de enfrentamento ao novo coronavírus. Pus-me, então, a assistir ao primeiro telejornal local do dia, o que, assinale-se, já faço cotidianamente, desde a suspensão das aulas dos meus netos, ao tempo em que assumo a cozinha, ora desprovida de comando devidamente habilitado para o mister, e preparo o café matinal para nós, eu e a minha eterna parceira. O silêncio só não se fazia absoluto porque o barbeiro e o médico tinham muito o que conversar, principalmente quando se dispuseram a invadir a vida de personagens que, de alguma forma, vivenciaram situações marcantes em seus relacionamentos sociais, ora abandonados com a pandemia e a consequente redefinição da dinâmica social, agora bem mais restrita.

– E o Fernandes? Você sabe por onde ele anda, Zé? Tem alguma notícia dele?

– Doutor, o Fernandes, pelo que eu sei, contraiu a Covid-19 e chegou até a ser internado no hospital de campanha montado no PV. Após isso, dele nada mais sei.

– Zé, eu não sei se você soube do caso, mas o Fernandes me livrou, um dia desses, de uma situação que certamente viria a ser constrangedora, no mínimo isso, quando eu me dispus a adquirir um carrinho pra minha filha mais nova.

– É! Ele era muito bom nisso… quero dizer nessa questão de compra e venda de carro usado…

E a conversa prosseguiu em igual toada, sem que eu lhe dispensasse a devida atenção, o olhar fixo no televisor e os ouvidos atentos ao que jovens repórteres repercutiam sobre o mal que ora grassa por este mundo de meu Deus, os sertões e os sertanejos pelo meio, obviamente. Logo, as pálpebras pesaram e, malgrado o interesse pelas notícias então veiculadas, sucumbi à intermitência do sono a desoras, num jogo de quase dormência entre cochilar e acordar e cochilar novamente, numa sequência que me suprimia o entendimento do que se passava ao meu derredor.

Concluído o corte propriamente dito, os preparativos para uma rápida hidratação dos já grisalhos cabelos do distinto esculápio me resgataram do estágio de sonolência inoportuna, ou seja, me despertaram, definitivamente, ante a proximidade da minha vez. Mais alguns minutos foram dedicados ao aparo do vistoso bigode, repetidas vezes pelo dono cofiado, tão logo o barbeiro deu-se por satisfeito em sua ação reparadora, como se pretendesse imprimir nas pontas dos dedos a nova contextura de tão significativo adorno varonil.

O Zé, após a minudente desinfecção com álcool em gel, posicionou a cadeira giratória voltada para o televisor, para que eu continuasse a assistir ao jornal, na qual me sentei, de costas para as duas entradas do salão, uma delas com a porta de enrolar abaixada a meio termo. Faltavam uns dez minutos para as oito, quando o atendimento enfim se iniciou. No amplo salão quase vazio, ouviam-se apenas o som do televisor e o abafado barulho da maquininha de cortar cabelo, ajustada no nível 1. Sem conversa, por enquanto.

De repente, à minha desprotegida retaguarda, assustou-me o abalo de tsunami ou a explosão de vulcão jorrando lavas e fumaça sobre a tranquilidade do ambiente.

– Zé! Ó Zé! Você não tem mesmo jeito, cara!

Virei-me de imediato e até onde me permitiu o giro da cadeira. E isso foi suficiente para ver, a uns dois passos de mim, a fera fugida da jaula, sem máscara, a vasta e negra cabeleira esticada para trás e presa, na altura da nuca, por algum tipo de liga, o olhar enfurecido, dois grossos sobrolhos, nariz grande e levemente achatado no centro do rosto meio ovalado, bigode ralo e sem trato, barba por fazer, o corpo atlético entrajado em camiseta de time americano de basquetebol, ombros largos e braços musculosos, bermuda de jeans desbotado, tênis desgastado pelo uso e sem meias, mochila às costas, em resumo, um quase branco metido a besta, em posição de enfrentamento, impondo-nos, dois sexagenários, a ameaça da robustez e da jovialidade.

O barbeiro desligou a maquininha e avançou calmamente até o rapaz, advertindo-o:

– Tiagão, por favor, não me coloque em situação difícil. Você sabe que tem de usar máscara. Você sabe que se a fiscalização me flagra acolhendo cliente sem máscara, quem vai sair prejudicado no caso sou eu. Portanto, amigo, ou você põe a máscara ou passa reto. Entendeu?!

– Tudo bem. Me desculpe. – O jovem depôs a mochila em uma das cadeiras vazias, dela retirou uma máscara e, quando já a ia levando ao rosto, o barbeiro interveio:

– Calma! Passe o álcool em gel nas mãos antes. – E fez jorrar alguns jatos do antisséptico nas longas mãos espalmadas do Tiago.

Agora, devidamente protegido e aparentemente tranquilo, provocou em mim a expectativa de que retomaríamos a calmaria de antes. Ledo engano. O rapaz, mal acomodou-se na cadeira que escolhera, recomeçou as reprimendas:

– Zé, eu não já lhe disse, não sei quantas vezes, que essa Globo é lixo. E quem perde tempo assistindo esse lixo, Zé, é simplesmente um ser desprezível. Mas como você é teimoso, cara! Muito teimoso! – Ele levantou-se e mostrou-se peremptório, beirando a grosseria. – Você vai desligar essa porra, agora!

– Calma, Tiago! As coisas nem sempre funcionam assim do jeito que a gente quer.

– Peraí, você está insinuando que não vai desligar essa merda?!

E aí eu comprei um espaço na confusão. Ou melhor – ou seria pior?! –, atraí os holofotes para mim. E o Zé assumiu o papel de figurante, mas preocupado com o desenrolar da trama.

– Não. Não vai. Mesmo porque, jovem, o Zé não tem culpa nenhuma nisso. Quem pediu pra ligar o televisor fui eu e quem está assistindo ao jornal sou eu… lembrando bem que, quando você chegou, aqui eu já estava. Portanto, a rigor, já tenho direitos adquiridos sobre o que o salão tem a me oferecer, enquanto aqui eu permanecer. E você há de concordar com isso.

O rapaz engoliu em seco a contestação. Olhou-me com desdém, obliquamente, e voltou a sentar-se, pondo a mochila no colo. Lembrei-me de meu pai que dizia, em entreveros como este: Pra doido, só doido e meio. Mais uma vez, invadiu-me a sensação de que a tranquilidade voltaria a imperar ali. O Zé reiniciou o trabalho, a maquininha zunindo e lançando nacos de cabelos ao chão. Na TV, via-se o normal prosseguimento do jornal local, agora repercutindo as últimas do futebol cearense, com os times de maior envergadura em plena fase de testagens de atletas.

Passados alguns minutos, o Tiago, tendo recuperado o fôlego perdido e ainda não convencido de que encontrara um adversário difícil de vergar, voltou a manifestar-se, sem elevar muito a voz e mantendo-se sentado.

– Senhor, já entendi. A ficha caiu. O senhor é petista, esquerdopata, e gosta de ser enganado, de ser roubado.

Nessa hora, observei que a máscara do rapaz era caseira, de pano verde, com duas grandes letras bordadas em amarelo vistoso, bem ao centro, unidas por um ampersand ou “e” comercial: J&B. Ele percebeu o meu estranhamento e, antes que eu dissesse alguma coisa, esclareceu.

– Essas duas letras anunciam ao mundo que sempre andam comigo, lado a lado, as duas entidades em que ora ponho toda a minha confiança e esperança: Jesus e Bolsonaro.

– Certo, jovem. A minha percepção era outra, mas tudo bem. Quanto a ser petista, lamento contrariá-lo. Embora eu tenha votado no Lula em todas as vezes em que ele se candidatou à presidência da República, por razões que não vale a pena aqui enumerar, eu sou, desde criancinha lá em Baturité, minha saudosa terra natal, apartidário. Não levanto bandeira de qualquer um dos quase quarenta partidos que compõem o cenário político brasileiro, sejam eles de direita, de esquerda, de centro, de meia, de lateral, de líbero, do escambau. Não defendo políticos, não os aplaudo pelo que fazem ou deixam de fazer, não acredito neles. Apesar de entender, por obrigação, que se trata de um mal necessário. É bem provável que tenhamos bem mais do que realmente necessitamos. E que invistamos neles muito mais do que eles mereçam.

– Tudo bem. Eu vou acreditar nisso pra não perder o amigo… – E sorriu sarcasticamente.

– Que quase já perdeu! Ou melhor, que nem competência teve para conquistar.

– Isso. Agora me responda uma coisa: por que o senhor defende a Globo, mesmo sabendo que…?

– Porque é a melhor empresa de comunicação do país, a excelência reconhecida pelo mundo afora. A melhor imagem, a melhor tecnologia, as melhores telenovelas, os melhores seriados, os melhores programas de auditório, a melhor transmissão esportiva – apesar do Galvão! –, o melhor jornalismo…

– O melhor jornalismo?! Isso é um absurdo! O senhor é louco…

– Olha, garoto, você tem ideia de quem defenestrou o Collor? De quem revelou os meandros do Mensalão? De quem desvendou os mistérios do Petrolão?

– O senhor devia era observar algo mais interessante. Veja bem. Quem assiste uma hora de noticiário em qualquer outra rede de televisão se enche de esperanças quanto a vencer essa pandemia; mas quem assiste dez minutos de jornais globais se desespera. Sabe por quê? O senhor sabe por quê? Porque a Globo enfia a morte dentro das casas das pessoas. E agora? Vai continuar me questionando, seu alienado?

– Vou lhe dar uma lição, jovem, que vai lhe servir muito pro resto da vida. – O Zé, ao ouvir isso, petrificou-se diante de mim, fixou os apavorados olhos em mim, a face exprimindo temor. Prossegui, com ar professoral. – E de graça. O respeito ainda é o melhor azeite em meio ao mais amplo cardápio de relacionamentos humanos. A vida, Tiago, se faz em multiplicidade, numa dinâmica que não nos permite, em momento algum, a plena satisfação com uma única leitura. A vida é plural e, por isso, é apetitosa. E é singular e, por isso, é exigente, rigorosa, implacável. Procure deitar seu olhar sobre os fatos por vários outros ângulos. E certamente formulará conclusões bem mais robustas, defensáveis.

– A que ponto o senhor quer chegar?

– Ao seguinte: é na desgraça que a verdade nos faz ser fortes. A realidade, vista como tal, deixa-nos perceber o problema em toda a sua integralidade, com todos os seus vieses, com todos os seus contornos. E é isso que nos possibilita a busca de soluções adequadas, na medida certa. Assim, é mostrando os reais efeitos da pandemia que a Globo e qualquer meio de comunicação que aja de igual forma nos estimulam a ficar em casa, nos fazem usar máscaras, álcool em gel, água e sabão. É o medo da morte, queiramos ou não, que nos impõe a prática das medidas de proteção. E isso significa lutar pela vida – a minha, a sua, a do Zé e a de tantos outros. As outras mídias – televisivas ou não – que minimizam o problema, que mascaram uma realidade duramente crucial, vendem-nos, assim, um panorama irreal, induzem-nos a, irrefletidamente, retomar uma normalidade de alto risco, concorrem para o afrouxamento das regras, tudo isso em face da convicção – errônea, infelizmente – de que lá fora está tudo bem, tudo sob controle. Dessa forma, somos estimulados a abandonar a quarentena, a fugir ao isolamento. Tiago, é aí onde reside o perigo, potencializado por um dado crucial: o inimigo é invisível, ágil, rápido e letal.

– O senhor fala muito…

– Perdoe-me! Eu me empolguei.

– Ocorre que o seu discurso não me convence. Até agora não sei bem por que o senhor advoga em favor da Globo. A Globo que tudo faz para desmerecer o presidente mais popular de toda a história do Brasil. A Globo que no caso da Cloroquina, por exemplo, montou toda uma estratégia contrária só porque quem defendia o seu uso era o Capitão. E o tempo e os fatos vêm provando que o Mito estava com a razão.

– Tiago, eu me declaro – e sempre me declarei – desprovido de competência para ser contra ou a favor do uso responsável da Cloroquina e eventuais derivados.

– Então, vai ficar em cima do muro?!

– Não, não é bem isso. Não atuo, nunca atuei na área da saúde. Minha praia é outra. E, em se tratando de vida ou morte, eu deixo a decisão pra quem entende do assunto. Agora, você há de convir, amigo, que nós, os brasileiros, em grande escala somos impressionáveis. E o que quer dizer isso? Explico: se algo deu certo com o meu vizinho, então há de dar certo comigo também. E a coisa não é bem assim. A automedicação…

– Sinceramente, eu não entendi coisíssima alguma.

– Que bom, Tiago! Preste atenção, por favor! No final do século passado, eu era estudante universitário e, numa aula sobre argumentação persuasiva, ouvi de uma colega o seguinte caso. A avó dela havia contraído forte gripe que lhe rendeu, na sequência, tosse seca e crônica. O dono do cartório – estamos em cidadezinha do interior, há cerca de umas três décadas, não menos que isso – era um senhor respeitabilíssimo e exercia, por isso, forte influência nas pessoas. Dele, a avó da minha colega recebeu aconselhamento absurdo que, para ele, poria fim naquele perturbativo e constrangedor quadro clínico. A idosa devia tomar, em jejum e por três dias consecutivos, uma colher de sopa da mistura, meio a meio, de sumo de limão e querosene, isso mesmo, o gás de lamparina. Ela seguiu à risca a receita e acabou hospitalizada, com grave infecção em alguns órgãos vitais.

O rapaz levantou-se, acomodou às costas a mochila e encerrou a conversa assim:

– Bem, com essa sua historieta de Trancoso, muito sem graça por sinal, vou-me embora…

– Pra Pasárgada? – Eu brinquei.

– Pra onde? Ah, Manuel Bandeira! Não. Quem me dera! Nada mais há que me prenda aqui. Até mais, Zé! Fique aí com o seu lixo falante e a sua clientela indigesta e irritante.

– Até mais, Tiago! – O Zé se pronunciou cabisbaixo.

– Foi um prazer, Tiago! – E eu pretendi dissimular o meu incômodo.

– Amigo, desculpe. – É o Zé que abandona o inexpressivo papel de figurante, elevando-se, agora, ao de coadjuvante. – O Tiago é filho adotivo e único de um parente próximo e quase vizinho dos meus pais. Sempre foi assim. Rebelde. Nos encontros de família, ele é o contra tudo e todos. A gente já evita discutir com ele. Na faculdade, só vive metido em encrenca, por ser bolsonarista turrão. Mas tem algumas virtudes. E a principal delas é ser alvinegro, como a família toda. Já imaginou se não fosse?

– Zé, não se preocupe. Pior é amansar burro brabo.

– E você já amansou algum?

– A rigor, não. Mas vi meu pai em ação algumas vezes. E a técnica por ele usada era, em resumo, bater firme e bater rápido. E tem mais, Zé. Eu adoro esse tipo de peleja. Me rejuvenesce. Faz despertar as minhas caraminholas. Quanto ao fato em si, nós não o provocamos, não o procuramos; ele é que veio até nós. E tudo isso, amigo, por causa de cinco minutos.

– Cinco minutos?! Não entendi.

– O tempo do meu injustificado atraso. Da próxima vez, serei inglês. Prometo.

Paguei o corte, despedi-me e fui-me embora… pra casa, obviamente.

De onde não devia ter saído.

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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