FHC e a “marcha à insensatez”, por Emanuel Freitas

Na semana que passou, precisamente na quinta-feira (20/09), o ex-presidente da República e presidente de honra do PSDB, Fernando Henrique Cardoso, tomou posição no pleito em curso, por meio de uma “carta” publicada em sua conta no facebook. Assim como havia feito em maio, por meio de um documento assinado por políticos e intelectuais que lhe são próximos (em que clamava por uma “urgente unidade política nas eleições” frente ao suposto perigoso de uma “eleição complexa e indecifrável”, movida por uma direita de “inspirações antidemocráticas” e por uma esquerda com “uma visão anacrônica que alimenta utopias regressivas de um socialismo autoritário”, referindo-se à candidaturas de Bolsonaro e “Lula”, respectivamente), agora o ex-presidente também se refere ao atual momento como o momento de “uma marcha à insensatez”, que ainda pode ser contida. Nas duas ocasiões, nenhuma referência ao candidato de seu partido, Geraldo Alckmin, como o aglutinador dessas “forças democráticas”.

Agora, FHC enuncia a “marcha para a insensatez” afirmando que podemos ter, em outubro, “o remendo eleitoral da escolha de um salvador da Pátria ou de um demagogo, mesmo que bem intencionado, nos levará ao aprofundamento da crise econômica, social e política”.Obviamente, refere-se, novamente, às candidaturas de Bolsonaro e Haddad. O sociólogo paulista conhece bem o significado das palavras. Sabe que “demagogo”, antes de tudo, é aquele que sabe falar às massas, que sabe comunicar-se, algo imprescindível às democracias de massas, como é a nossa. Tanto o candidato do PSL, com seu simplismo discursivo, quanto o cabo eleitoral do PT, portam tal capacidade que, aliás, FHC afirmou, há alguns dias, que Geraldo precisava dela: “saber cacarejar”, foi o que disse, usando uma figura de linguagem negativamente valorativa para referir-se aos que sabem comunicar-se.

Encenando reconhecer o fato de que todos “os partidos têm responsabilidade nessa crise”, falando mesmo de uma “desmoralização do sistema político inteiro”, FHC dirige-se aos partidos que “lançaram-se com voracidade crescente ao butim do Estado, enredando-se na corrupção, não apenas individual, mas institucional: nomeando agentes políticos para, em conivência com chefes de empresas, privadas e públicas, desviarem recursos para os cofres partidários e suas campanhas”. Ou seja, responsabiliza, apenas, os partidos que fizeram parte do condomínio governista do PT-PMDB, sem lembrar que seu partido faz parte do governo Temer. Mais do que isso, esquece a grande responsabilidade do PSDB com a “crise política” ora em curso; um partido que, ao julgar pelas palavras de Aécio Neves (no áudio de Joesley Batista) e de Tasso Jereissati (em recente entrevista), transformou-se em um partido “para encher o saco do PT”. Encheu, produziu uma grave crise para o governo de Dilma, produziu o impeachment, salvou Temer e não soube congregar as famigeradas “forças do Centro”.

Assim, se nos encontramos numa “marcha à insensatez”, foi o PSDB quem engatou a primeira marcha, ao não reconhecer, pela primeira vez, sua derrota.

Interessante notar que FHC vê problemas na “polarização” do país somente agora, em que seu partido está, ao que parece, fora do jogo. Desde 1994 as eleições presidenciais têm sido polarizadas entre PT e PSDB; mesmo assim, nunca vimos FHC a tratar de tal polarização como um “perigo” à democracia ou a conclamar “forças” do centro para assegurar a continuidade democrática. Não nega, em absoluto, que uma vitória do candidato do PSL, a julgar por suas próprias palavras e de sua entourage (e também pelo desejo expresso de seus mais fervorosos seguidores) apresenta-se como uma séria ameaça à democracia. Isso é inegável. Contudo, pôr no mesmo “perigo” a candidatura do PT, com quem o PSDB duelou nos últimos 24 anos, é forçoso demais para quem conhece bem a história de nosso país. Ver no PT uma ameaça “socialista” ou é desinformação (que não é o caso de FHC), ou má fé, retórica ou coisa semelhante. O PT no governo, nem de longe acenou para um viés socialista.

Ademais, há uma pergunta a ser feita (mas, não respondida): o que de bom produziu o “centro” no Brasil até hoje? É mesmo democrático o nosso “centro”?

Emanuel Freitas

Professor de Teoria Política (UECE/FACEDI)

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Emanuel Freitas

Emanuel Freitas

Professor Assistente de Teoria Política Coordenador do Curso de Ciências Sociais FACEDI/UECE Pesquisador do NERPO (Núcleo de Estudos em Religião e Política)-UFC e do LEPEM (Labortatório de Estudos de Processos Eleitorais e Mídia)

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