FACULDADE DE ESCRITOR

Depois de ler o artigo/ entrevista do Sr. Manchado de Assim, vou deixar de ser escritor. E creio que outros confrades devam fazer o mesmo. Vou conversar com a minha sombra pra ver o que ela diz.

Eu – Como pode um Curso de Escritor ter professor escritor que não passou por esse curso?
Minha Sombra – Calma. Há escritores de primeira linha e escritores de segunda linha. O Curso que terá como professor os Acadêmicos da ABL… será um curso para o baixo clero, que tem dinheiro pra publicar, mas não tem talento para escrever, por isso irão receber um diploma para colocar como apêndice de seus livros.

Eu – Se há escritores do alto e baixo clero, como você diz, então teremos uma massa de escritores sendo formados anualmente e, em pouco tempo, nos tornaremos o país dos escritores? E para quem escreverão estes novos escritores? Não seria melhor um curso para leitores dos escritores que temos?
Minha sombra – Realmente você é muito ingênuo. O mercado editorial brasileiro investe cada vez menos em novidades. Escritores formados, com diploma para o exercício “profissional”, poderão realizar parcerias com as editoras e pagar por seus livros; a editora fará apenas o marketing e venderá de qualquer jeito.

Eu – Você saiu pela tangente e não respondeu o que eu queria. Mas, então, seria justo, talvez, até se torne lei, que as obras publicadas antes desta brilhante inovação tenham que passar por uma espécie de índex, pra ver se recebem o selo de qualidade da Academia, Universidade ou outra entidade que irá definir o valor das obras, doravante?
Minha Sombra – Essa idéia é muito boa, vou passá-la para o Coordenador provisório do Curso de Escritores, o Sr. Manchado de Assim. Quem sabe ele não cite você como um ex-escritor que poderia até ter vingado. Mas não se preocupe, logo logo estarão sendo fundadas faculdades de escritores por todo o Brasil. E você poderá até participar de uma aula inaugural, sendo exemplo de como eram os escritores na pré-história dessa revolução dos portadores de deficiência literária no Brasil.

Bem, a conversa com a minha sombra não me levou a lugar nenhum. Como escritor, fico imaginando a perda do senso crítico de alguns burocratas do ofício de escrever. Em pouco tempo, os professores (atuais grandes escritores brasileiros) serão substituídos por homens-teclados de escrever. Fico imaginando os discípulos de Paulo Freire, tendo que reinventar a pedagogia e o ofício de ensinar a ler pelo método da Faculdade de Escritores.
Realmente, eu estou precisando parar para pensar um pouco nesse universo do ensino privado. Puxa vida, eu ganhando cada vez menos numa universidade pública e os mercenários da educação inventando práticas de ilusionismo com requintes de picaretagem.
Imagine onde a vaidade nos levará!

Carlos Gildemar Pontes

CARLOS GILDEMAR PONTES - Fortaleza – Ceará. Escritor. Professor de Literatura da Universidade Federal de Campina Grande – UFCG. Doutor em Letras UERN. Mestre em Letras UERN. Graduado em Letras UFC. Membro da Academia Cajazeirense de Artes e Letras – ACAL. Foi traduzido para o espanhol e publicado em Cuba nas Revistas Bohemia e Antenas. Tem 25 livros publicados, dentre os quais Metafísica das partes, 1991 – Poesia; O olhar de Narciso. (Prêmio Ceará de Literatura), 1995 – Poesia; O silêncio, 1996. (Infantil); A miragem do espelho, 1998. (Prêmio Novos Autores Paraibanos) – Conto; Super Dicionário de Cearensês, 2000; Os gestos do amor, 2004 – Poesia (Indicado para o Prêmio Portugal Telecom, 2005); Seres ordinários: o anão e outros pobres diabos na literatura, 2014 – Ensaios; Poesia na bagagem, 2018 – Poesia; O olhar tardio de Maria, 2019 – Conto; Crítica da razão mestiça, 2021 – Ensaio, dentre outros. Vencedor de Prêmios Literários nacionais e regionais. Contato: [email protected]

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