Excertos – por Pedro Henrique

Há no atual fracasso da esfera de produção de mercadorias, de regulação política, da esfera artística, educacional e de produção intelectual, dentre as demais esferas da sociedade moderna, um mesmo problema: o da decomposição dos laços sociais diretos num mundo de cisões. A vida na modernidade é um ponto de interseção entre esferas ao ponto de se tornar um refugo disperso no desgaste cotidiano entre elas: de casa ao trabalho, do parlamento à escola ou à universidade, do shopping ao teatro. Há formas universais cindidas que regulam sistemicamente o lidar com todo e qualquer conteúdo sensível, e os conceitos mais não expressam que a cisão real: economia, política, arte, educação. Diante do impasse atual de tais esferas há uma zona tabu: é ilógica a ideia de possibilidade de uma antieconomia e de uma antipolítica, ao invés de uma economia política capitalista ou socialista (formas alienadas de produção da riqueza e poder social separado); de uma antiarte, ao invés de aceitar sua cisão moderna e sua integração negativa contemporânea; da superação do trabalho e da educação. Tais conceitos não são percebidos na sua significação histórico-social moderna, como referentes à socialização moderna, mas como naturais a toda e qualquer forma de organização social. A cultura também é uma esfera à parte, mas seu conceito traz consigo uma significação pré-moderna que pode nos servir de base: cultura é um todo integrado, são hábitos, costumes compartilhados; cultura é um modo de existência imediatamente social, não o cogito ergo sum do indivíduo (Eu) abstrato, cindido, base do individualismo moderno, mas a existência em relações sociais diretas, orgânicas e pessoais. Se há um meio de se contrapor à crise a que chegamos neste século, se ainda há perspectivas emancipatórias para este século, a ressignificação do conceito pré-moderno de cultura pode contribuir para a redefinição prático-crítica de nossas relações sociais para além da relação de valor (dinheiro) e para além das cisões (de gênero, de produção e regulação, etc.) que ao mesmo tempo a constitui e a pressupõe; pode apontar novos horizontes sociais, individuais, materiais (técnicos), simbólicos e intelectuais, uma nova e real comunidade humana.

 

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A sociedade moderna se estrutura a partir de dois pilares, dois pólos fundamentais que se entrelaçam, a saber, o da economia e o da política, o do Estado e o do mercado/Capital. Em geral, os modernos filósofos da política e teóricos da economia formularam opiniões que também se entrelaçam, ou seja, há um mesmo princípio que identifica tanto a “vontade geral” (Rousseau) na esfera político-estatal quanto a “mão invisível” (Adam Smith) na “esfera” sócio-econômica, a saber, o domínio do abstrato (universal e não-sensível) sobre o concreto (singular e sensível); desse modo, o que determina as práticas sociais não são as múltiplas particularidades, mas um princípio geral, puro e único, isolado e superior a elas: o que fundamenta a esfera político-estatal é a lei moral, o direito, que por sua vez é o outro pólo do que fundamenta a “esfera” econômico-social, o valor.

Em tempos de crise estrutural e do fundamento dessa relação social total e globalizada, à qual a economia política (ciência burguesa por excelência) teve por objeto, qualquer discurso econômico não passa de uma autópsia do cadáver que são as relações mercantis-capitalistas e sua esfera de regulação, o Estado – o mesmo vale para a cultura e as atividades artísticas como atividades separadas da vida cotidiana –, com sua respectiva decomposição subjetiva, social e destruição ambiental: doravante toda reforma é um ato de necrofilia. Como “remendo não adianta se o pano tá roto” (Gilmar de Carvalho, Parabélum) desde já uma das táticas anticapitalistas seria aproveitar as “fissuras do capitalismo” (John Holloway) numa perspectiva de autogestão coletiva, ainda que parcial, da produção e da comunicação, do transporte e da vida de modo geral.

 

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CRISE

O capital, ao desenvolver as forças produtivas, tornou o trabalho supérfluo diante das máquinas. Com isso, consolidou lógica – desvalorização do valor, dessubstancialização do capital – e historicamente – terceira e quarta revolução industrial, revolução da microeletrônica e nanotecnologia – seu limite interno absoluto, intransponível.

 

TÉCNICA

O desenvolvimento das forças produtivas não é um pressuposto necessário da emancipação social.

 

ARTE

A partir da história da arte na época moderna é possível delinear os traços do sujeito moderno, e a respectiva crise desse sujeito é em nossa época (séc. XXI) o ponto de partida da crítica da arte – para além da arte.

 

CULTURA

As sociedades pré-modernas eram cultura. Nós, modernos, temos cultura: degradação do ser ao ter, e deste ao parecer. A indústria cultural é a produção de cultura do homem sem qualidades do mercado. Não há mais cultura, há espetáculo.

 

IDEOLOGIA

O pensamento ideológico chega sempre atrasado e em conformidade com a realidade social, o pensamento crítico chega cedo demais e a negando.

 

LINGUAGEM

No mundo das coisas, só as coisas falam; no máximo, os homens falam das coisas.

 

TEMPO ABSTRATO

O tempo se mede com batidas. Pode ser medido com as batidas de um relógio ou com as batidas do coração. O tempo do relógio é totalmente indiferente às tristezas e às alegrias, assim como é indiferente ao ciclo natural, a se é dia ou noite, se chove ou faz sol, se está quente ou frio; é abstrato, é tempo apenas de quantidade, tempo das coisas e para as coisas. Todo o tempo que bate no relógio é pouco para o trabalho, para produzir mercadoria e gerar dinheiro: dinheiro, Deus meu, dinheiro!

 

ESPAÇO URBANO

A cidade é o espaço físico próprio ao desenvolvimento das mercadorias, onde estas ganham vida ao passo nós nos tornamos autômatos. É nela que o tempo abstrato se desenvolve e domina – domínio este que se estendeu também ao campo.

 

 

Pedro Henrique

Pedro Henrique

Mestre em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará (UECE) e Terapeuta Holístico em formação pelo espaço Ekobé.

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