Erundina explica como o PT negou suas origens e aderiu à velha política

CartaCapital: Como entender a crise vivenciada pelo PT?
Luiza Erundina: É um ciclo histórico esgotado. O Partido dos Trabalhadores surgiu com uma base social popular, dos sindicatos, do chão das fábricas, das periferias dos grandes centros urbanos, da luta no campo pela reforma agrária. Foi um momento áureo na história do Brasil, quando as camadas populares passaram a exercer protagonismo na política. Esses grupos viam no PT, além dos demais partidos de esquerda tradicionais, a possibilidade de participar da política institucional. O PT representava, à época, uma esquerda renovada. Um partido que surgiu de baixo para cima, e começou a eleger seus primeiros vereadores, prefeitos, deputados e senadores. Mas esse ciclo se esgota quando o PT chega ao poder, muito cedo, se vermos a história dos partidos políticos no Brasil. Com a eleição de Lula, o PT deixou de lado a luta concreta do povo, dos movimentos sociais, a luta sindical e pelos direitos humanos. Aquelas lideranças populares deslocaram a sua militância da base para as estruturas de governo, para os gabinetes.

CC: Houve uma excessiva burocratização da atividade político-partidária.
LE: Exatamente. O PT deixou de ser um partido de massas, dedicado à formação política das classes populares, dos trabalhadores, dos sindicatos, das periferias. O foco da militância se deslocou. Eles saíram do chão da fábrica, das periferias, dos movimentos sociais e campesinos. Eles entraram para os espaços da política formal. Com isso, o partido perdeu a novidade que carregava. O PT se divorciou de suas bases. Não diria que isso foi intencional, uma ação planejada. A própria dinâmica do jogo político levou a esse distanciamento, a esse divórcio com as bases. De repente, as lideranças populares e sindicais estavam nos espaços institucionais, sem aquela mesma liberdade, criatividade e ativismo que representava o PT. E não havia outro partido que pudesse se aproximar e ser isso que um dia foi o PT. Essas forças sempre estiveram aliadas ao PT, mas agora dentro da lógica do presidencialismo de coalizão.

CC: E como se deu a formação dessa coalizão governista?
LE: Para garantir a governabilidade, o PT teve de se aliar a um conjunto de forças políticas sem nenhuma identidade ou compromisso com seus projetos e sua origem. Alguns partidos de esquerda ficaram como força auxiliar desse governo de coalizão, mas na condição de minoria. Na maioria, sempre estiveram forças políticas conservadoras. Certas figuras deram sustentação à ditadura. Outras lideram legendas sem projeto partidário ou ideologia alguma. Resultado: hoje temos 28 partidos com assentos no Congresso e outros tantos disputando uma vaga. Durante certo tempo, o PT até conseguiu algum resultado. Com o carisma que tem, Lula conseguiu administrar essa base tão heterodoxa e heterogênea, mediante barganha, na troca de aprovação de medidas por cargos. O que na prática isso significa? O PT abdicou de transformar a política brasileira. Ele apenas reproduziu aquele modelo antigo, tradicional, de uma democracia representativa, sem sustentação em mecanismos de democracia direta ou participativa, representada pela sociedade civil.

(trecho de entrevista da deputada federal Luiza Erundina (PSB-SP) originalmente publicada em www.cartacapital.com.br)

segundaopinião

SEGUNDA OPINIÃO é um espaço aberto à análise política criado em 2012. Nossa matéria prima é a opinião política. Nosso objetivo é contribuir para uma sociedade mais livre e mais mais justa. Nosso público alvo é o cidadão que busca manter uma consciência crítica. Nossos colaboradores são intelectuais, executivos e profissionais liberais formadores de opinião. O SEGUNDA OPINIÃO é apoiado pelo MOVIMENTO COESÃO SOCIAL.

Mais do autor

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.