Entre duas tragédias, por Osvaldo Euclides

É preciso uma tragédia depois da outra para que a maioria dos brasileiros tenha um um mínimo (sim, mínimo) de informação e de conscientização sobre o papel das grandes empresas na sociedade. Nascida estatal por criação do nacionalista e desenvolvimentista Getúlio Vargas nos anos 1950 (o mesmo Vargas que foi ditador de 1930 a 1945), a Vale do Rio Doce foi estatal até os anos 1990, quando foi privatizada no governo de Fernando Henrique Cardoso.

Ela enxugou o nome para Vale e concentrou-se em tirar minério do chão e exportar. Só. O resto abandonou ou vendeu. Aumentou exponencialmente os volumes extraídos e deu sorte com os preços do minério na maior parte do tempo. Pertence, essencialmente a um banco brasileiro e a um grupo estrangeiro. Temer abriu mão (sem nada cobrar) das ‘golden shares’ (ações especiais, com direito a veto, que FHC preservou) e deixou a empresa fora do alcance do poder público nacional.

Na medida em que o noticiário da tragédia avança, percebem-se os tentáculos da gigantesca empresa sobre a imprensa, sobre o poder judiciário, sobre o poder legislativo e sobre o poder executivo. E percebe-se lateralmente o descompromisso com o país (ou com a natureza) e os brasileiros. As sentenças não a constrangeram, as leis não a frearam, a fiscalização não a incomodou e a imprensa é, em princípio, cliente e amiga. Tudo o que aconteceu entre Mariana e Brumadinho autoriza essa afirmação.

A Vale é uma grande e lucrativa empresa, um dos melhores negócios do mundo. A luta por tirá-la das mãos do governo brasileira e passá-la a a investidores privados foi completada com as transações recentes autorizadas no governo Temer. Está montada sobre montanhas de riquezas da natureza deste imenso país. Enquanto era estatal, era citada em verso e prosa como um elefante branco inútil e fonte de desperdício de dinheiro, de clientelismo e corrupção. O dinheiro arrecadado com sua privatização (por mil razões) hoje vale mais ou menos o dividendo de alguns meses (dividendo é só uma parcela do lucro).

Guardadas as proporções e respeitadas as diferenças, trata-se da mesma história do que está acontecendo ou prestes a acontecer com a Petrobrás e a Eletrobrás. Divulgam-se à larga todos os defeitos, falhas e pecados (a maioria reais) dessas organizações. E apagam-se todos os méritos e créditos que eventualmente tenham (e desprezam-se seus ativos). E tudo é repetido e ampliado até convencer a distinta opinião pública de que o melhor é privatizar. E privatizar ligeiro. E barato, pois, dizem e repetem,  ‘qualquer preço é melhor do que desperdício, corrupção e clientelismo’.

Isso não é teoria conspiratória ou uma trama contra o Brasil. Isso são negócios. Trata-se de interesses de grandes, articulados e poderosos investidores e seus lobbies. Essas empresas são algumas das boas coisas do país que atraem o olhar e os interesses desses grandes ‘players’, algo absolutamente natural no mundo do dinheiro. Ninguém de sã consciência vai esperar que eles invistam no semiárido nordestino. O dinheiro sempre faz a curva mais inteligente.

Esses grandes negócios têm a presença do Estado porque a iniciativa privada não queria fazer os investimentos expressivos necessários lá no passado. A presença do Estado se alonga no tempo e se justifica porque são áreas sensíveis, delicadas, estratégicas. Pressupõem uma certa harmonia entre lucro e interesse nacional. E, regra geral, o investidor privado vê tudo isso com outros olhos.

A privatização não é de todo má, se feita com planejamento responsável, preparação meticulosa, com prazo razoável de execução, a preços honestos e com uma regulação consistente e fiscalização séria. Ultimamente, as privatizações parecem desobedecer todas essas regras óbvias.

Assim, marquem seus calendários: novos desastres virão.

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

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