ENFIM, UMA DITADURA DEMOCRÁTICA (Reflexões despropositadas sobre leituras mal digeridas)

Quem leu um pouquinho de história e deu uma parada no início da primeira guerra e apressou o passo para demorar-se diante do Tratado de Versailles até alcançar a divisão do mundo em Yalta, estará, com toda certeza, com uma amarga impressão de “déjà vu”.

Quem guardou a desesperança trazida com a lenta morte de Weimar, os que perceberam de onde partiram as chamas que engoliriam o Reichstag, todos os que viram as imagens da comédia bufa da marcha dos camisas-preta em Roma, quem foi testemunha das hesitações guerreiras de Lênin em São Petersburgo, assistiu a ascenção e queda de Trotsky e a frieza vitoriosa de Stálin — quem viu tudo isso sabe do que estou falando.

O cenário é o mesmo, o “set” das tomadas, apresenta os mesmos atores e as paixões que se mostram diante das novas promessas do futuro e dos passados reconstruídos.

Em todos os momentos, a exemplo da ascensão do fascismo, da chegada hollywoodiana do nazismo e a fundação trágica do comunismo — a violência guiou os passos das tropas pretorianas. Tudo, naturalmente, pela liberdade e pelo respeito pela legalidade.

Por aquele tempo, as “fakes” não eram armas temidas, tampouco temíveis. As mentiras que separavam as intenções diplomáticas e as artes da guerra no confronto de nações em conflito, eram vistas como estratégias de Estado. Os exércitos, a sua máquina de convencimento.

Todos lutavam por uma causa. O preenchimento do espaço vital buscado pelos alemães e a procura de reconhecimento como potência, pela Itália aproximaram o fascismo do nazismo, em uma corrente de apoios recíprocos. Persistentes questões étnicas e religiosas que justificariam a limpeza de sangue e de ideias, o holocausto e as guerras santas convenceram o eixo ideológico fincado na Europa. Dresden, Hiroshima e Pearl Harbor e as Ardenias tornar-se-iam símbolos de uma guerra animada sem respeito pelos mais elementares sentimentos humanitários. A guerra apresentava-se tragicamente como fator de progresso da indústria, associado ao impulso capitalista modernizador. E como paralelo, instrumento impulsionador da expansão da indústria estatal do comunismo nascente.

Oitenta anos decorridos de muita guerra e de armistícios provisórios, até alcançarmos esta situação a que costumamos chamar de “estado democrático de direito”, novas formas e sofisticadas de defesa do Estado surgiram. Insurreições e conjurações são tratadas, agora, como um instrumento de índole progressista, seja na preservação do Estado quanto na tomada do poder.

A defesa do Estado parte do pressuposto da sua vocação para a defesa contra os agouros do “fascismo”. A tomada do poder do Estado pelas forças “progressistas” é um recurso legítimo para que possamos usufruir da “new democracy” que nos chega da California ou, por via alternada, da sua vertente bolivariana da Venezuela.

O caudilhismo latino-americano encheu-se de novo fôlego: não correrá o risco de ser classificado como “ditadura”. Veste a camisa dos novos movimentos sociais, criou um modelito “democrático” que cai como se houvesse sido feito sob medida…

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.